Antes o nosso lugar aqui, o complexo, chamava-se de Bangu, porque pertencia a este bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro. E onde existiu histórica fábrica de tecido, hoje transformada em shopping. Eu disse no início que se chamava de Bangu, porque agora não se chama mais.

Daqui de dentro da cadeia eu soube de parcas coisas, e por elas percebi que houve intensa briga e discussão lá fora, envolvendo povo e políticos, sobre o Bairro Bangu abrigar afinal um grande conjunto prisional. Uma parte do povo rejeita a gente. Isto talvez ligado a situações de nojo mesmo e busca de separação. Como aqui junto de nós já existe uma lixeira, para eles, banguenses desumanos, seria afronta desrespeitosa ainda mais agora abrigar presos. O lixo ficaram quietos, quanto a nós não. Leia mais

Em Auschwitz estava escrito na entrada: O TRABALHO LIBERTA!

Quase sempre na hora do nosso almoço, pegando a quentinha sentado no chão da galeria ou na pedra da comarca, passam por mim fortes sensações de fábrica. Já trabalhei numa, de papel. Nela, no almoço, íamos para o rude, apertado e quente refeitório dos peões, sempre em fila, pois de entrada apertada. Às vezes penso que aqui, a cadeia, é como lá, a fábrica. Fazendo papel, ao meio-dia havia o sufoco de esquentarmos as marmitas. O forninho nem dava pra todo mundo de uma vez. Depois veio uma cozinha, que nos aliviou do trabalho das marmitas, porém com a qualidade da comida a mesma daqui. Mais a fila de sempre, na boca da cozinha, pra cada um pegar o seu.  No início, com os novos pratos de arroz com feijão mais pesados, tive muito desarranjo por dentro, até me acostumar. A comida vinha com tudo. Vários trabalhadores pegaram bactéria, mas pode ter sido boato. As horas marcadas nos igualam aqui e lá, na produção. Quando fico assim, nesses entranhamentos, a noção de liberdade revira mexida, abalada, aumentando ainda mais meu desconforto. Não basta só estar lá fora para estar livre. Muito menos só trabalhando. Pois é isto, que trabalhador mesmo só trabalha, não vive. Leia mais

Ala penitenciária de Bangu III em dias de pós-rebelião. Clima de medo ronda as cabeças de fora. Vejo sempre enorme Bíblia aberta aberta por sobre a mesa do diretor da cadeia, como uma arma, uma espada, a proteger-lhe. Todo mundo prefere não entrar lá, ao meio das galerias de dentro. O ar das duas alas, principalmente da B, respiram a guerra entre duas tropas inimigas em choque, os soldados de fora e os internos de dentro. Como a deixar o coletivo se refrear e abrandar-se do seu furor de revolta, a guarda prisional mantém-se distante, sempre fora do miolo das grades, na proteção de todos os cadeados batidos, isto é, fechados nas travas das portas. Na ala B tenebrosa e meio escura, nem mosquito parece querer voar, num espaço de silêncio e de sem vida. Leia mais

Eu digo lá fora, que tenho mais medo de carro do que de bandido. Esta frase, foi dita num instante de liberdade e de comunhão, numa aula dentro da cadeia, em Gericinó, Rio de Janeiro. Houve silêncio geral, talvez em alguns, como um entrave a engolir. Passados dias lembrei dela novamente, só que com certo sentimento de cuidado e com a indagação se ferira alguém. Mas a tal frase não se desligava de mim, como se dizendo-me algo e eu incapaz de entendê-la. Eu tentava esquecê-la, e ela, insistente, me voltava. Leia mais

O preso não tem direito a nenhuma sombra. No entra e sai de internos das muralhas, em idas ao fórum ou transferências, eu cruzava com esgares de agressão desumana, sofrimentos gratuitos e secretos pesares. Mãos para trás, rosto sempre ao chão, os internos iam e vinham. O tratamento dispensado dos alemães aos judeus nos campos de concentração, se parecia demais com o nosso do sistema carcerário brasileiro. Bem sempre à distância de qualquer pessoa de fora, o preso não pode ver ou ter o mínimo de paisagem possível, naquele que talvez seu momento único de ar e de passageira liberdade. Tratado qual animal profundamente hostil, é visto por eterno perigoso, mesmo sem aparentar ou ser. Os exageros prisionais intensos ou sutis diariamente afloram. Leia mais

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Sempre li jornais. O viver dentro das grades mostrou-me alguns disparates de notícias. Ou seja, entre o acontecido por lá e o veiculado aqui fora. Mas isto já se banalizou, virou talvez uma das nossas verdades de ser. O jeito brasileiro da mídia nos contar. Leia mais

Sempre lhes pedi, que ao me verem pelas ruas nunca deixassem de falar comigo. Um aceno, um olhar de mansidão e amigo, uma palavra. Talvez esse pedido seja apenas o sentimento de que, afinal, não poderei jamais viver sem eles. Nos abraçarmos lá fora, foi uma das declarações mais fortes e ensejadas, de quando um deles ficava na iminência, esperançosa ou real, de alcançar a liberdade na imensidão do mundo. Leia mais

Estou em Auschwitz! Esta frase foi a que me veio à cabeça quando, em 2003, meus olhos dominaram o horizonte de telas de arame, grandes galpões em série, mais a multidão de internos exalando os sem destino, sem pátria e, acima de tudo sem liberdade. Uma parte deles jogava bola num campo enlameado, em sol quente abrasador. A falta de objetividade emanava em todas as direções, a ociosidade obrigatória. Estamos na unidade prisional Plácido de Sá Carvalho, Gericinó, Rio de Janeiro, como em todas as outras. Leia mais