Peço ao rapaz da tabacaria para ler uma crônica nossa. Morador de comunidade, penso, fácil irá entendê-la. A crônica diz de favelados como ratos; que ratos eles são, pela coisa mesma de mundo. Houve pelejas de leitura das nossas linhas no blog; ele sem celular e conseguido este, depois sem os créditos das falas. Mas enfim houve um dia pelo sim, conseguira ler “Nas Tocas da Lei”, disse-me. Porém nada nele se manifestou pela nossa espera. Fiquei num silêncio miúdo de secreta angústia, a remoendo por dentro. A letra da crônica não lhe dissera nada; ou o seu mutismo para mim já tão dilacerador, fosse uma grande resposta que eu não soubera entender. Paciente periculoso pus-me a escutar dos dias.

Matutando, surgiu-me a noção da grande barreira. Todos do povo estamos em versão da Língua que não é a nossa, nas ideias de quem nos controla de cima. Então esta versão é um laço do descomunal jeito seguro de nos reprimir, como também de nós por nós mesmos. Estamos sem cessar dentro dos nossos próprios muros. Do silêncio, no rapaz da tabacaria, ouvi que ele não se sabia rato, no contrário da fala crônica lida e não ouvida.

Um dia falei-lhe de uma palavra para furar. Arquitetei antes o plano e fui, rumo aos charutos e às falas. Em pega a dois, ao separado, continuamos o que antes já nos houvera. Pois ao término de conversa anterior e despedidas, nos disséramos que todos são suspeitos, os habitantes totais de todas as favelas e periferias. E nessa conclusão permanecemos.

Eis agora nossa falança golpe e fim. Arquitetado já como dito, no separado lhe disse que se todos de favela são suspeitos, infiéis como a palavra suspeito nos diz, é porque esta palavra ( suspeito ) foi afixada só ao negativo do perigoso, do mal, do crime. Mas que no universo da Língua, a Língua mesma, suspeito tem outros significados, inclusive os positivos e todos os que se quiser. E soltei-lhe a seguinte frase: havia uma intensa suspeita, de que ela secreta me amasse.

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