
Obrigatórios por pai, mãe e a lei, íamos também pela merenda. O ajuntamento escolar de crianças antes e depois das aulas, com nossas brincadeiras e brigas, nos divertia bastante, às vezes mais que tudo. Sou do tempo das formas, filas separadas de meninos e de meninas do menor para o maior por turma, nas entradas e nas saídas das aulas; com louvores de hinos patrióticos que nossas gargantas já rejeitavam. Muitos de nós fingiam cantar, fazendo uma mímica preguiçosa ou até cantando baixinho quando a professora ou diretora olhavam. Havia um ordenamento ou falsidade, algo não ia bem. Poucos de nós frequentavam, ainda que as escolas se abarrotassem de crianças. Enfrentar as aulas sempre foi um desassossego, senão alguma ou muita tortura. Sendo a fuga, a matança de aula, invenção sábia de escapar, que só os corajosos executavam. Sempre vou estar nesta dúvida, se quem foi insubmisso e nem aluno esteve na vida mais ignaro do que eu, que frequentei tudo e até me tornei professor.
Toda criança odeia a escola. Feriados e dias santos sem aula, caíam como um presente de Deus. Na obrigação do ter que ir, estudar para muitos logo de manhã tornava o dia mais aliviante, tínhamos livres a tarde inteira. Para outros, aula à tarde ficava melhor por um fator de menos importância, a manhã era mais bela, sendo aproveitada. Num tempo de mais fome lá em casa, brincávamos pelo caminho da escola na ida, de adivinhar a merenda daquele dia. Nossos estômagos é que escolhiam e sonhavam. Na entrada da juventude, pernas nos atraíam ainda meninos, principalmente as das professoras. Meninas cresciam peitinhos, as bundinhas se aprumavam em oferta. Por umas épocas, talvez todas, contávamos as horas e os minutos de passagem das aulas, ansiosos agudos pela hora da saída. O barulho alto do sinal do fim dos estudos libertava por dentro, explodindo uma balbúrdia aliviante geral em arrumações e pernas doidas para irem logo embora. Mesmo no desejo de que o sinal de entrada tocasse, significava ânsia de que a tortura da aula passasse voando. Toda escola tem uma muralha, ela mesma a escola sendo a grande muralha. Havia os que iam estudar e os que fingiam ir. Entre estes dois polos, o dos que iam verdadeiros e dos que não, acontecia um mundo de fingimentos em vários graus e modos de cada um. Vamos a eles. Existia ou ainda existe, os que se arrumavam bem em casa no uniforme e preferiam passear longe das salas de aula. Vários ainda chegavam no portão da escola mas não entravam; estudar para eles era só até ali. Alguns pisavam no pátio da escola, faziam coisas até perturbando, mas nunca chegando à sala de aula e sentando. Raros, até sentavam na carteira escolar, assistiam a aula um pouco, mas não aguentavam o peso das explicações da professora e iam embora. Penso serem estes últimos os mais verdadeiros, diziam um não bem luminoso e público.




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