Nossas crônicas sempre batem contra grandes prisões, das bocas e das cabeças.

Minha irmã evangélica ri sarcástica estridente, quando lhe digo que fui amado por condenados nas prisões; que já foi uma espécie de paradoxo na minha vida, e hoje maduramente mais não. Lembro agora o que não soube dizer-lhe. Sabendo-a leitora da Bíblia, deveria tê-la alertado de que Cristo foi intensamente amado por um bandido. Isto na hora da mais profunda solidão e dor do Mestre. Como também o tal bandido, portanto do mal, talvez o único a ter a salvação dita de viva voz pelo próprio Salvador. Penso ser este episódio altamente simbólico.

Certo dia, um bandido repetiu para mim os dizeres do ladrão do Gólgota: professor, o senhor não cometeu os pecados do crime, eu sim. Então, vá embora, livre-se desse sofrimento das grades, pois o senhor não merece isto. Quem o merece e tem que sofrer sou eu pelo que fiz; disse-me ele.

Vivenciei lecionando com muitos presos analfabetos que diziam saber ler. Decorando capítulos bíblicos auxiliados por um raso teólogo, cobriam os ditos capítulos ou versículos com tinta marcadora colorida, usavam caneta para isso. E depois a qualquer hora exigida ou favorável, faziam gestos e poses de letrados e quase pastores, no decoreba lendo em voz alta pela marcação da tinta. Não passavam assim de meros papagaios repetidores. Ou grandes mentirosos para si mesmos e para o mundo.

E se fossem nisso só eles os analfabetos, mas não. Os livres letrados são a mesma coisa. Pois ao aprenderem, explicado pelos teólogos num texto sagrado, que a palavra casa significa uma construção só quadrada, jamais a verão redonda. A tirania do modo único de ver, de ler, de entender. Nem entro aqui, no mérito de que se tal religioso ao odiar ladrões nega o Cristo que diz tanto pregar e adorar; mas de que ao só interpretar os textos sagrados pelos olhos de quem o pastoreia, nega-se a si mesmo, portanto se mata continuamente, no pecado capital do não-ser.

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