
“Não posso bater na cara errada,” me disse precavido e medroso o guarda de prisão; ou seja, agredir a face de preso, que então resolve matá-lo depois. Gestos miúdos e aparente insignificantes, podem gerar inevitáveis mortes futuras de polícias, guardas e até de quem num azar estiver no caminho. Um castigo injusto saído da boca do diretor de cadeia, deve ter sido a gota d’água, o movimento crucial e final, dos mais de oitenta balaços que ele recebeu pelo corpo, dentro do carro na avenida. Todos os aços detonados racionalmente, talvez por ordem vinda de dentro da prisão, aonde o pequeno ditador tiranizava o coletivo nas grades. Assim para não correr tantos perigos, que algum sempre tem, certos guardas que batiam cadeados na carceragem até me fechando aos ferros, eram tão silenciosos parecendo mudos. Um deles num tal dia me segredou: sabe professor, venho aqui, faço só a minha obrigação de abrir e fechar cadeados, nada mais do que isto; vou embora e pronto.
O desejo e a prática do poder violentam. Eu mesmo no meu labor de lecionador do magistério público, recebia no rosto sem esperar tapas e cuspidas psicológicos da guarda prisional, sem causa visível, só por estar ali. Na agressão, polícias penais me tratavam reles e inferior. Me atingiam mas não me derrubavam, porque eu estava lá para sentir tudo, pelo menos o máximo de alcance. Assim, pondo-me em esperas inúteis me desgastavam até às vezes muito, porém no fim era uma grande colaboração, eu aprendia porque vivenciava. Houve momentos contudo e não foram poucos, que com alguma ira quase descontrolada, meu desejo interior era gritar em altos brados, por que meus amigos do crime suportavam aquilo tudo. A desumanização é terra fértil de ferroadas humilhações; que muitas já saem de quem as realiza, como uma norma torturante para o outro. Gestos menosprezantes não têm fim. Mas nas prisões e situações específicas em geral, o gesto de humilhar pode secreto fazer brotar a morte de quem o produz, sem escape; como numas certeiras facadas mortais desferidas em alguém por mendigo ou aleijado sempre rechaçado na rua, no mundo.
O perigo maior de todos, é não sabermos qual a gota fatal mortal da violência. O dirigido a mim pode não me machucar. Como também acontecer, conforme já descrito em outros lugares, da agressão recebida por mim incomodar e até ferir um amigo de grade e do crime. As humilhações, falo aqui as das prisões, que nascem e existem em grandes fertilidades dirigidas aos internos penitenciários, além de possíveis e reativas causas de mortes, criam um social doloroso ele em si mesmo já profundamente humilhante.




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