Bactéria intestina mortal me alcançou distraído. Tudo por dentro se pôs em polvorosa evacuação líquida sem controle e sem cessar. O corpo subia e descia em calafrios e calores. Um caixão vazio talvez já estivesse perto de mim, a me aguardar. Peregrinei inseguro e débil por hospitais podres e fedorentos. Montes de corpos vivos repugnantes se amontoavam por algumas portas de pronto-socorro, ali pela última espera. Um ar de superioridade e de máxima higiene emanava de quem nos atendia. A multidão quase invisível atacava minhas tripas e precisava ser debelada, assassinada por um veneno químico qualquer.

Por baixo de todos os atendimentos havia um diferente não qualquer um. Os médicos nos preferiam de longe, à distância, num total contrário de uma certa intimidade e aproximação à moda antiga. Talvez que dentro de mim eu trouxesse mais de uma morte além da minha. O cuidado médico se redobrou. Ao entrar nos consultórios, imaginando sentar-me junto ao doutor, educado e em bom tom, eu era informado da cadeira de paciente próxima da porta de entrada. Entre eu doente e a mão que cura colocaram distâncias e obstáculos, a marcar bem, separando o perigoso perigo mórbido do sadio. Nisso tudo, o tempo de consulta que era comprido agora encurtou. Um mínimo de contato obrigatório se basta, e pode salvar vidas doutas. O conceito e o gesto de consultar se modificaram pelos espaços clínicos. As drogas invadiram o mundo; num crescente de quanto mais venenos químicos a saúde é cada vez melhor. As ruas estão mais e mais enchentes de lojas a ofertar medicamentos; disputando fregueses entre si, no galardão de que hoje é bem mais fácil engolir remédios do que às vezes um pedaço de pão.

Já dominados por esta indústria de fármacos e todos os seus congêneres, nem precisamos saber aonde vamos parar; porque também talvez nunca saberemos. O mundo está cada dia mais doente. Uma doença muito fabricada e imposta; antes por quem inventa o comprimido e necessita urgente vendê-lo, na maior quantidade possível. Sentir-se contaminado é a grande moléstia universal. O mal que antes estava só lá na China, pode chegar aqui daqui a pouco; quem sabe rondando minha pele ou já escondido por dentro de mim. Os oráculos de cura e de salvação circulam e pululam poderosos. Muitos doentes são também receitadores; enquanto doutores-médicos se formam com medo e nojo de uma só gota de sangue. Ter saúde é ter um plano. Não há como saber a cura, sem antes comprá-la numa farmácia que seja, por vezes abençoada do mais divino e milagroso plantão.

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