Na fundura atônita certas vidas rebentavam a rotina. Ouvi história de professora na Água Santa que, ao mergulhar no poço da carceragem no seu primeiro dia de trabalho e aula, escutando bater a porta de ferro atrás de si, deu um surto de pânico com gritos, pondo-se a berrar louca e a bater violento na chapa. As restantes professoras, como nós homens, escondiam os medos e as fragilidades em pálidas coragens aparentes. O bicho coletivo do crime estava lá. E a vida do mensal salário nos empurrando à labuta da resignação submissa e da dívida.

Meu macho de homem professor as atraía para mim. E elas as professoras, principalmente as mais medrosas,ficavam aos anseios de braços fortes protetores. Para ganhar-me, as mestras do ensino carcerário clarificavam em seus corpos alguma ternura, aconchego de desamparo ou brilhos eróticos nos seus corpos já quentes. Ao coletivo preso parecia que eu transava todas ou muitas. Isto me colocando em supremacia aos olhares pelas grades; dando-me assim uma gama de macho, mesmo que geralmente só útil ao momento ou não tão viril como imaginávamos ser. Mas era o que valia, aquela aparência. E isto balizava enorme minhas relações, pondo-me geralmente em posição de inveja com meus amigos de grade. Também por vezes, mesmo que raras, uma bem clara pelo menos, parceiro de cadeia disse-me seus medos de que eu lhe roubasse a namorada de rua. Embora já nessa fase inicial, eu estivesse completo dentro da ordem social da facção vermelha, no tocante a tudo de respeito ao outro, principalmente ao familiar e relações amorosas. Um fio seguro como aço, de respeito, nos entrelaçava. Estávamos todos no crime, porém na busca incessante e prática da nossa humanidade. Nisto, talvez a separação forçada das grades nos colocava mais fortes,mais provadores às realidades, aos momentos; estes por vezes em inesperadas armadilhas, que fielmente e guerreiros tínhamos que transpor, vencer. Do crime assim não significava a morte, o mal, mas a luta constante da vida.

Os corpos das professoras entravam nas carceragens exibidores, aguçados de tentação, mesmo os que muito retraídos. Algumas das mais assustadas ou dominadoras, jogavam as defesas do sexo à frente e ao redor, em resplandecências de roupas, cavidades atraentes, sugestivas, e cenografias docilizadas de corpo. Mas não precisavam do medo, bastava ser mulher para atrair. Por natureza incitavam-nos presos a tudo e a qualquer coisa. A contenção insegura subia ao poro das peles de macho aos ardores e dores. Num lugar onde a repressão ao prazer, à vida, se realiza bem mais fortemente, um paradoxo então se formava; a prisão ao proibir, ao negar para apagar, nos reacendia mais.

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