Ao me chegar visitante na prisão mais cedo, já encontrava um corpo maior de guardas no balcão da entrada; justo por causa dos incumbidos em revirar pelos avessos as visitas dos presos e tudo que elas traziam. E com isso, coisas, vidas, famílias, todas antecipadas por altamente suspeitas. Uma certa ojeriza odiosa pela falta de respeito, era os olhos verem tanto prato bonito e perfumoso de comida bem arrumada, vasculhados pelas mãos e facas inspetoras dos guardas, qual lama podre escondedora de algo sujo e venenoso para a pureza do mundo. A comida que se come, que nós presos comemos, também é bandida, na totalização plena, e antecipada, de que até um doce ou salada para o preso são do crime.

Revoltado, tentando acalmar silencioso por dentro, a mente me propunha alternativas sonhadoras de revistar as visitas. Como por exemplo, diante da multidão de geralmente mulheres visitadoras, a segurança da prisão escolher duas ou três aleatórias e até mais ou menos marcadas, a uma revista minuciosa das comidas, roupas e de todo o corpo. Quando havia crianças em visita ao pai, tio ou avô, me perguntava como elas reagiam , se sentiam ou se portavam depois, por terem ficado nuas e com até o ânus vasculhado por um olhar alheio, polícia e por demais estranho. Então já nasciam e cresciam no suportar sofredor, resignado ou não, de grandes suspeitos e perigosos do crime; na maldição estatizada da criança já como bandida. Pelos rituais de inspeção nos corpos-visita, eu observava os ares da guarda com muito nojo; os dejetos humanos favelados em miséria estavam pegajosos ali. Eles visitas não são pessoas; na ordem e supremacia da grade prepotente. Novamente, para amenizar-me na alma, talvez até já na revolta do tiro, propunha-me , hipotético, para elas visitas medidas disciplinares e socializadoras, em caso de erro e não de crime, no âmbito só das prisões. Assim, uma visita flagrada em claro erro ao portar um naco de maconha para entrar com ele na carceragem, como sanção disciplinar perder temporariamente o direito a visitar. Isto, sem necessitar ou ela passar por escândalos moralizantes forçados com claros objetivos falsos, de delegacia de polícia e registro jurídico penal. Na ficha da pessoa visitante em erro, anotar-se-ia na própria prisão a ocorrência do fato, mais as medidas disciplinares impostas. Desfocando então de que todas as visitas são suspeitas e, por assim, não mais antecipadas condenadas de crime.

A cultura do mal junto com a noção de inferioridade, está e é implantada pelas leis e ações das instituições públicas e privadas brasileiras, de cima para baixo. O lugar de onde se vem porque se mora nele, e onde se está e como se está, definem e condicionam direitos e sem direitos. O próprio edifício jurídico, dito justiça, o grande desenhista desse quadro e mantenedor dele. O olhar menosprezante de quem ocupa o balcão pelo lado de dentro do poder, conceitua a noção de quase pessoa, ou a falta total dela, de quem está pelo lado de fora; como em Kafka. Para terminar, observamos em nossos anos de carceragem, que todas as unidades prisionais funcionam como fabricantes de pessoas delituosas, isto é, do crime; estando condenadas juridicamente ou não, no sistema ordeiro de que todas já são antecipadamente bandidas.

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