Entries by Abel Matos

Crônica Dantesca

Eu dizia aos meus amigos: a pior coisa é morrer nesse inferno! Gritava isso mesmo em tons normais, mas por ocasiões específicas para marcar, gritar ainda mais. A prisão tem isso de traiçoeiro, ir nos arrefecendo, nos vencendo como um vírus diabólico que nos corrói. Pena de morte vagarosa, porém que não para e nunca […]

Outras Paredes

Prisão é um amontoado de coisas e o homem no centro delas. Acordei num desenlace em sabor de liberdade inteira. “Meu último dia de dez anos e seis meses”, disse aos dois guardas da derradeira portaria. Na lata recebi elogios; eu não me metera em corrupção disse um. Justo o que me recebera ao chegar […]

O Respeito Bandido

A periculosidade é uma transcendência, e por assim uma imanência. Novo de cadeia eu não sabia ainda as normas da casa, nem as do crime do qual já fazia parte. Ao chegar a uma pequena sala, o preso levantou-se em respeito sem que lhe pedissem. Perguntei por quê. Ele não entendera bem, aí esmiucei o […]

A Chave no Elevador

Eu não conseguia abrir uma crônica. Universo de coisas a dizer, mas a mão não descobria a inicial frase da história para começar. Anos aprendizes de escritos em vão. Então por mais, qual numa caçada e morto de fome, meus tiros não abatiam a caça. Só as mãos da teimosia relutavam em nunca parar, pelos […]

Outras Gentes no País de Gericinó

Após aqueles “Dias de Cão em Bangu III” já narrados em outra crônica, davam-me horríveis rejeições só em pensar me aproximar de onde eu tivera momentos tão felizes de amizades e provas de gratidão. Muitos amigos continuavam lá. Então eu procurava o mais que pudesse, nunca mais colocar os pés naquele inferno de cadeia. Certa […]

Lugar – O Segundo Sexo

Caminhando entre as grades das bocas nas alas os olhos sempre buscavam. Os interiores das celas me pareciam vilas meio-cortiço. Lembravam algo ou coisas vividas e vistas da infância, que nunca eu sabia o quê. Mas tudo enfim me atraía, qual num olhar furtivo proibido de coisa desviante muito gostosa. Para ajudar-me e ser discreto […]

Aonde Morto Não Fala e Vivo Também Não

A voz já me esperava incontida na tabacaria; queria porque queria falar, desembuchar, pôr ao mundo tudo que precisava dizer. Acho que só ansiava por mim, pelo e por causa do assunto a jogar para fora, a escorrer ao mundo, muito mais, gritar. Eis enfim o que disse, ao quase nem me esperar sentar. “O […]

O Livro

Saber que todas estas crônicas com títulos e assuntos vários, não possam passar de um único livro ou história, que cada leitor pelo blog vai formando em sua mente lendo-as. Como também a um outro leitor ou vários, a noção e realidade de livro vá mudando e se transformando à medida das leituras, releituras e […]

Casamento Entre as Pessoas e as Coisas

Em surpresa na entrada das prisões surgiu pequeno séquito de carros em destaque; diziam algo novo e por mim o único. As pessoas mesmo as distraídas e as que não sabiam como eu, puseram-se a olhar, na curiosidade que contamina em passe de mágica o ver. Os carros já entravam quase sem parar pelos guardas […]

No Grande Júri

Sou só um bandido que pensa. E talvez por este pensar é que seja realmente bandido. Vou agir no crime até morrer. Entenda o leitor esse meu crime como quiser; penso nele conforme uma arte. Entremos pois ao curso da letra e não do rio. Ontem com amigos conversarmos sobre prostíbulos, pernas abertas e muitas […]