Entries by Abel Matos

No Grande Júri

Sou só um bandido que pensa. E talvez por este pensar é que seja realmente bandido. Vou agir no crime até morrer. Entenda o leitor esse meu crime como quiser; penso nele conforme uma arte. Entremos pois ao curso da letra e não do rio. Ontem com amigos conversarmos sobre prostíbulos, pernas abertas e muitas […]

À Guisa de Prefácio

“O senhor está blefando professor?” Sussurrou-me ao ouvido a voz bandida do crime; silencioso assenti discreto com a cabeça que sim. Para mergulhar-me e saber como as coisas andavam ou iam, eu me atiçava até a muitos perigos nas duas facções em conflito: a dos bandidos e a da ordem da lei. A gestos curtos […]

Letra Com Ódio – Aonde Escolher Não É Uma Escolha

Há tempos tento contar uma crônica que não consigo; toda na cabeça mas não sai. Nela, mostrar nossa relação de presos e antigos presos com o sistema eleitoral brasileiro. Interno penitenciário não vota no Brasil, por perda automática e legal desse direito. Numa época, companheiros meus pediram que assim que eu saísse, ficasse fora das […]

A Farmacêutica – Na Cidade do Rio de Janeiro

Eu me ensaio pelas crônicas. Pois tenho forte impressão como uma leve mas constante tortura, que buscam e quase sempre conseguem apagar nossa memória, a pessoal e a coletiva. Recordo agora que conheci uma mulher anteontem mas sem ver nítido seu rosto. Assim, imagino, houve coisas que o impediram ou desviaram. Conversamos só um pouquinho, […]

Mulher na Tabacaria

De repente entrou uma menina e saiu; não a notamos logo. Meia hora depois voltou e se apossou toda de nós. Uma égua baia, na comparação mineira de tão portentosa cabocla. Entrou e sentou; claro, num lugar de onde todos pudéssemos vê-la e assim nos dominar; e acho que foi o que mais fez. Antes […]

Tratamentos, Disputas e Remédios

Somos ágeis campeões em muitas coisas, futebol por exemplo; e nisto a seguir ultrapassamos mole a Rússia e estamos indo à cola da China e Estados Unidos da América. Este o segundo lugar e aquela o primeiro; na ordem do mundo as estrelas em população carcerária. Estávamos, quatro homens experientes, à mesa da tabacaria na […]

Na Escola da Prisão

Saberes marginais chegavam desmesurados até filosóficos por alguns, a escola não lhes bastava nem os prendia. Mesmo que em educada contenção, aos poucos um banditismo saía solto pelas falas e bocas, fazendo eu professor aprender. Certo assim, que todas as mentes não estavam domesticadas pela ciência da lição escolar, qual uma planta produtiva ou um […]

No Martelo

Os tribunais vinham bem mais visíveis por dentro de alguns, com sentenças prontas eles já condenados. Perguntados se sabiam diziam que não. No provar eu pedia que lessem uma coisa qualquer apanhada ou vista na hora, como uma página de cartilha ou dizeres de um cartaz na parede. E descobria que todos mentiam, ao lerem […]

Olhares e Objetos – Na Cidade do Rio de Janeiro

Ao sair de casa sem que o perceba muito, o destino primeiro são os jornais. Procuro só as manchetes que já me bastam; a saber aonde foram os últimos tiros e mortes do dia anterior. Mais do que o constatar, necessitamos nos proteger com muita antecipada e até desmesurada cautela. Na certeza, nunca sabemos nem […]

Saber e Não Saber

Nunca usei telefone celular. Nas portarias das cadeias, eu sempre evitava ao máximo os desconfios secretos dos guardas de plantão, no vasculho obrigatório de corpo e de coisas. Por estar constante meio bandido e meio professor, sabia que era um dos mais vigiados. A falta certeira de saber quem eu era, se professor, parente, visita […]