Entries by Abel Matos

Nossos Pai – Dentro e Fora das Prisões

Se não posso mexer o céu, comoverei o inferno. – Virgílio – Citado também por Freud. Nos entrelaces bandidos, corpos se misturando, eu ia virando pai, um outro pai; o não biológico mas pai. Alguns e depois muitos, dormiam comigo na alma e me esperavam já de manhã ao acordar, prontos e ansiosos a me […]

Do Crime no Crime e de Deus

Aos meus parceirões de cadeia. Meu pai me chamou num cantinho, pra visita ilustre não notar. Falou: “vai na casa da sua tia, e pede a ela um pouquinho de café, mesmo de de manhã, para oferecermos ao pastor que está aqui.” Voltei já com um pequeno bule frio na mão, buscando cuidado moral no […]

O Fogo do Fogo os Fogos

Na fundura atônita certas vidas rebentavam a rotina. Ouvi história de professora na Água Santa que, ao mergulhar no poço da carceragem no seu primeiro dia de trabalho e aula, escutando bater a porta de ferro atrás de si, deu um surto de pânico com gritos, pondo-se a berrar louca e a bater violento na […]

Uma Nojeira Estranha

A prisão é só e não só um muro. Contemplo vagaroso um quadro na casa da minha irmã; uma orquídea branca em fundo negro bem feita. Seu toque, o do pintor, em projeção de sobressair-se, como ao avançar sobre nossos rostos, sempre me encantou. Está lá, fora da minha casa, mas me pertenceu. Num comemorar […]

Versões

Peço ao rapaz da tabacaria para ler uma crônica nossa. Morador de comunidade, penso, fácil irá entendê-la. A crônica diz de favelados como ratos; que ratos eles são, pela coisa mesma de mundo. Houve pelejas de leitura das nossas linhas no blog; ele sem celular e conseguido este, depois sem os créditos das falas. Mas […]

Aqui é Lá – Na Dialética

Os efeitos dos muros penitenciários, embora ainda neles mesmos, estão também fora dos muros, em outras formas de muros, isto é, em outros muros. Ao sentir-me fora da prisão, de uma certa maneira eu ainda me encontro nela ao percebê-la, mesmo que só como ameaça, o que já é uma forma de presença. Pois o […]

Do Amor no Crime e na Religião

Nossas crônicas sempre batem contra grandes prisões, das bocas e das cabeças. Minha irmã evangélica ri sarcástica estridente, quando lhe digo que fui amado por condenados nas prisões; que já foi uma espécie de paradoxo na minha vida, e hoje maduramente mais não. Lembro agora o que não soube dizer-lhe. Sabendo-a leitora da Bíblia, deveria […]

Fúnebre

No último dia não me despedi de ninguém. Não havia sentimento de separação. Não derramei saudades antecipadas qual a maioria. Saía sem o torpor esperançoso desejante de me encontrar distante. Os muros e os portões não me diziam nada, qual ao dizer a um preso comum. Eu não saía nem entrava. Para saciar-nos numa mentira […]