Entries by Abel Matos

Gad e o Professor nas Trincheiras da Separação

Num finalzinho de tarde, um preso especial mandou-me em surpresa suculento prato de sopa cheio até a borda. Na pressa de ir embora, sair da carceragem e da prisão, pois já acabáramos o serviço escolar daquele dia, dispensei a iguaria ofertada repassando-a para duas bocas de internos famintos. O prato de sopa não comido me […]

O Território dos Ilegais

O brasileiro não conhece o Brasil mas forçado se mistura nas prisões; em que cada carceragem é um monturo de êxodos desiguais pelos corpos e caminhos afora. Entramos na primeira muralha, a da estreia, desconfiados e matreiros feito caboclos selvagens, todos geralmente medrosos do alheio. É preciso antes e sempre se adaptar ao meio, formando […]

Jean Pierre

Na prisão Plácido Sá Carvalho havia um presidiário único; talvez não só daquela a mais insalubre cadeia mas do complexo penitenciário todo. Ninguém de todo o coletivo de internos no qual estávamos, nem ao menos olhava para ele, quanto mais falar. Mas estas coisas eu só descobri com o tempo. No processo de constatação do […]

A Lição de Um Presidiário de Como Matar Bandidos

À memória do condenado Fiódor Dostoiévski, que redescobriu a vida na prisão. Encontrei pedreiros, eletricistas, pintores e até um excelente fazedor de casacos, toucas e luvas tudo em tricô; este último raríssimo em nossa população masculina machista; e tantos outros mais escondidos, desconhecidos de todos em nossa cada vez maior população carcerária. Estão lá sempre […]

Das Realidades do Parentesco

Sem nada de documentação social com nomes sobrenomes e datas tudo de cabeça, só nas prisões que arranjam obrigatórias as coisas e os papéis. E estes às vezes errados ou falsificados por incertezas e desconhecimentos totais. Alguém preso pode não atinar certo e firme quem lhe gerou na barriga ou quem foi seu pai; como […]

Da Liberdade, Dos Medos e Da Saudade

“Olha professor, você tem que mudar o seu jeito de falar”; alerta-me meio que sorrindo um amigo, mas com olhos de reprovação diretos para mim. Sem saber do que se tratava, pois estávamos ao sabor de distraída conversa, olhei-o de volta balbuciando sons sem dizer palavras. Sentindo o meu não saber esclareceu corrigindo-me: “cuidado quando […]

Cinco Dedos e Sua Desgraça Esquecida

Chego ao balcão da padaria e olho os frios na vitrine. Mulher gostosa espera a vez de ser atendida. Me varre com o olhar, o que me inflama macho à exposição. Como os frios na vitrine eu também estou aqui. Mas algo antes invisível estoura pelo ar aos nossos ouvidos: o assassinato de um negro […]

A Criminalidade Magna – Ou A Absolvição dos Matadores

Num ponto superior de formação comecei a ter meus internos cuidados. E eles tinham que ser bem maiores, mais periculosos por assim dizer, do que todos os dos meus parceiros de prisão. Ou seja, lidar também com eles presos em enorme precaução. Por estarem só trancados naquela caverna sem ver a luz, poderiam envolver-me num […]

A Barganha, Num Corpo Periculoso

Bandido virei polícia. Conto agora miúdo como foi. Nas hastes da vida fui me misturando criminoso ao crime, a carceragem cada vez mais comigo; tudo em nós e por nós se amarrando, até em nós se contar só irmãos. De fora perceberam que aos sustos e rebeliões bandidas eu nunca estava, ou seja sempre a […]

Tornar Público

Faço crônicas. Um passo maduro que dei, já com alguma coisa em avanço, foi quando li uns textos menores do Pamuk. Antes aconteciam já as crônicas, pois que a mão e a cabeça conseguiam pequenas histórias. Só com o passar e um amadurecer nunca acabado as frases e parágrafos foram melhor saindo. Também que por […]