( Baixe gratuita a crônica da capa acima, presente no final do blog ).

Num finalzinho de tarde, um preso especial mandou-me em surpresa suculento prato de sopa cheio até a borda. Na pressa de ir embora, sair da carceragem e da prisão, pois já acabáramos o serviço escolar daquele dia, dispensei a iguaria ofertada repassando-a para duas bocas de internos famintos. O prato de sopa não comido me engasgou na garganta da alma, me acompanhando pelo resto da vida. E vou dizer por quê. Numa rotineira manhã, depois de passar pelos trâmites da portaria em inspeção de corpo e de coisas, o vasto fedorento e enlameado pátio encarcerador se abriu ao nosso olhar; estávamos na cadeia Plácido Sá Carvalho. Sem que jamais esperasse um grito me chamou: “professor! professor!”, dizia a voz firme. Sentindo que eu não o identificava o interno situou-me dizendo seu nome, e que havíamos nos conhecido no cofre de guardar humano chamado de Bangu I, a prisão dos ditos à época os mais perigosos do crime. Congratulamo-nos alegremente. Ele da tranca mais fechada fora transferido para uma prisão semiaberta, como num salto grandioso rumo à liberdade. E assim logo depois dos abraços, trocas de olhares e afetos, fui pôr-me às obrigações escolares rotineiras e de costume, dar aula ou ensinar.

Nos dias seguintes passamos a nos cumprimentar alegremente, num momento de felicidade pela troca de muralhas e mais ainda por nos vermos. Eu sempre tinha que passar meio abaixado e de lado por uma cerca de arame farpado, para alcançar o interno com história de muito perigoso. Seu corpo atlético e moreno talvez já amedrontasse, porém falava de modo bem pausado e sempre cordial. Passados dias, mudamos naturalmente e nos cumprimentávamos alegres de longe, já sem o trabalhoso e inseguro pulo de cerca, com ele sinceramente muito mais feliz do que eu. Nossos encontros ocorriam sempre no início da tarde, pois eu professor já vinha de outra cadeia, inimiga porque de outra facção, onde também lecionava. E se mais não bastasse trazia a fala das outras grades comigo. Assim ele o preso amigo do Terceiro Comando, porém a cabeça do professor que era eu, carregada intensa de só Comando Vermelho, facções diferentes e rivais. Aqui vem as trincheiras inimigas. Aos cumprimentos amigos, minha boca de professor quase sempre detonava um saudoso e incontido “nós”, mote identificador e talvez único do Comando Vermelho. Ao que escapulido o pronome não havia como endireitar. Por outra também, eu me indagava por que o já falado “nós” tinha que ser censurado ali nos cumprimentos. A cabeça do professor raciocinava: nós, pronome da primeira pessoa no plural, significando muito e antes comunhão; então não haveria por que silenciá-lo por uma certa censura de momento. Estávamos ali e éramos nós, duas pessoas amigas se falando. Houve momentos, em que o preso buscou demolir a linha demarcada entre as duas facções inimigas, mas não conseguiu.

Voltemos ao prato de sopa. No dia seguinte ao da oferta apetitosa ainda não, porém aos poucos fui percebendo uma nesga de silêncio e distanciamento no ar. O presenteador da sopa ficara ressentido com a minha falta de consideração ao não saboreá-la. Soubera então que eu não degustara o ofertado. A partir disso nossa amizade esfriou um pouco, ficamos mais distantes. Em mim professor, deu-me um arrependimento glutão por ter perdido suculento prato; logo também misturado a um certo desconfio, talvez infundado, de que poderia haver veneno mortal nas carnes e legumes. Fiquei num caroço irresolvido interior. Do amigo e suspeito preso do Terceiro Comando, percebi que ele sentira por trás de tudo, uma posição inimiga do mestre amigo ao não saborear a sopa. Ele e eu nunca desenrolamos isso numa linguagem bandida; o irresolvido se eternizou.

Transcorridos meses, eu professor já fora da cadeia do Terceiro, inimiga do Comando Vermelho, soube a notícia de que o preso do incompreendido “nós” já na liberdade fora assassinado. Tendo rodado e então caído nas mãos da polícia, esta vendeu-o a mãos inimigas, e assim morto. Que por vezes, no secreto do quase nunca contado, na guerra social urbana em que vivemos no Brasil, os agentes da lei sequestram pessoas e expoliam dinheiro do crime, como também mercadejam vidas.

N

O brasileiro não conhece o Brasil mas forçado se mistura nas prisões; em que cada carceragem é um monturo de êxodos desiguais pelos corpos e caminhos afora. Entramos na primeira muralha, a da estreia, desconfiados e matreiros feito caboclos selvagens, todos geralmente medrosos do alheio. É preciso antes e sempre se adaptar ao meio, formando uma capa na alma mais ou menos parecida ou igual. Um lugar muito distante ou visto inferior pode ser degradador de origem e assim de pessoa. Eu vim de Piripiri ninguém fala isso, a não ser num verso popular de alguém anônimo, Baixa da Égua também não. Nasci no bairro Perpétuo Socorro, nome de morro difícil de se ouvir. Zinco e Buraco da Lacraia, dois nomes de favelas exóticos e atraentes, ambas no Rio de Janeiro. Tenho uma amiga de roça que já morou nos Estados Unidos trabalhadora ilegal, mas que não sabe nada sobre cidades brasileiras; rodou* lá num repente de polícia porque criminosa; foi deportada de volta para a vila insignificante, pobre e desconhecida aonde nasceu e mora.

Do território brasileiro só escutamos e vemos do litoral, ou então de algum lugar inusitado, esporádico e estranho; assim mesmo porque a mídia divulga, em notícias boas ou ruins; o resto é desconhecido. Nalgumas citações amigas e tentativa de se localizar na origem, não adianta falar gentílicos, a cabeça que ouve não atina, falta-nos um mínimo de atlas mental que nos situe no mundo. Às vezes e muitas, joga-se pela boca um incerto e genérico “interior” ou “roça” e pronto; a livrar-nos da chatice e cansaço pela ignorância do outro. Por outras, nem o do próprio lugar sabe direito e até quase nada ou nada de onde veio e nasceu. Um grão de geográfico e história é inalcançável. “Minha mãe diz que eu vim de um lá que não sabe aonde fica; nem lembra mais de onde ela mesma nasceu, quer dizer, pelo menos o nome; vagamente e incerta fala de umas canoas e tiros, e que comia restos de chão de feira aos domingos”.

Por mais juntos, porque misturados forçados numa cela botando gente pelo ladrão, mesmo assim nos desconhecemos pelos preconceitos, inibições e medos, mas sobretudo pela desinformação e falta do saber. Se fortes e corajosos nos rompêssemos do imperialismo social em que vivemos, cresceríamos pela troca e circulação de conhecimentos, e aconteceria a posse de grandezas e de coisas distantes ou negadas mas por natureza nossas; quem sabe já um pouco senhores de si, o que ainda não somos.

Rodar: cair nas mãos da polícia, no jargão do crime e do povo de baixo estrato social no Rio de Janeiro.

Na prisão Plácido Sá Carvalho havia um presidiário único; talvez não só daquela a mais insalubre cadeia mas do complexo penitenciário todo. Ninguém de todo o coletivo de internos no qual estávamos, nem ao menos olhava para ele, quanto mais falar. Mas estas coisas eu só descobri com o tempo. No processo de constatação do interno repugnante a coisa acontecia assim: durante o desenrolar da aula na escola, um rosto de aluno começava a irritar nós professores com trejeitos de mexer a boca e fazer repetidas caretices, em conjunto com brilhos e pisca-pisca de olhares aos poucos provocadores. Era um ataque todo peculiar contínuo e persistente. Sentado sempre ao fundo da sala e separado dos demais, punha-se o tal aluno a repugnar todo e qualquer professor ou professora que fosse, porque não era só comigo. O que acontecia, e que só agora me dou conta, era que as outras vozes do magistério não reclamavam dele, certamente por causa daquele medo básico de bandido que todo mundo tem. Confesso que tive grandes medos dele até ao ponto de fugir, mesmo estando na proteção do espaço escolar. Como também no contrário, por uma ou duas vezes esculachei o dito aluno demônio diante das minhas amigas professoras. Era um ser repelente em alto grau. A multidão interna inteira de presidiários o ignorava total. Branco alourado e cheio de sardas, também baixinho, marcou-me qual um fantasma diabólico ainda até hoje; além de um nojo vomitante dele, como também não dizer de um certo receio em momentos de liberdade na rua de encontrá-lo. Um satã encarnado. Mas ele teve uma serventia, o que adiante descrevo.

Somos ensinados cá fora e quase sempre assimilamos bem esta lição: de que dentro das prisões só existe o mal e pronto; como numa lata de goiabada hermeticamente fechada. Mas antes lá encontramos pessoas, para nunca silenciarmos e assim omitirmos esta incontestável realidade. Quem estas pessoas são e como estão na prisão que é preciso sabermos, e então rompermos a blindagem social da lata ou das muralhas visíveis. Compartimentar hoje as pessoas em grandes, médios e pequenos grupos modais nomeados, é a grande ação desvida de controle repressor social. Porém voltemos ao caso do aluno repeloso. Não só o pupilo já tão citado, mas nossos olhos de professor olhavam também ao redor do interno-pulha sempre ignorado. Sem nem uma chance todos os outros internos o tinham um monstro e só indigno. Esclareço mais como já dito, que a multidão aprisionada nem o olhava, num constato objetivo e pessoal meu. Nunca entrei no mérito com os penitenciários da causa daquele total desprezo à figura sardenta. Só os meus conflitos e dissabores com ela já me bastavam para situar-me por dentro de mim. O mais valioso que percebi, pelos anos os quais passei por aquela cadeia de celas tão podres e fétidas, foi um princípio moral: o de repelirmos algo tão humanamente maldoso, sujo. A imoralidade daquele corpo sardento significava; pondo-nos todos, inclusive eu professor, numa escolha ainda sadia de mundo.

Nota do autor: pesquisado em outra prisão sobre o interno asqueroso e ignorado, informaram-me ser ele um ex-policial em cumprimento de condenação, com alto risco de morte.

À memória do condenado Fiódor Dostoiévski, que redescobriu a vida na prisão.

Encontrei pedreiros, eletricistas, pintores e até um excelente fazedor de casacos, toucas e luvas tudo em tricô; este último raríssimo em nossa população masculina machista; e tantos outros mais escondidos, desconhecidos de todos em nossa cada vez maior população carcerária. Estão lá sempre a ver navios. Desperdiça-se e matasse a intensa e infindável força de trabalho, que poderia gerar mais vida, capital e quem sabe num futuro próximo sustentar economicamente o próprio sistema carcerário nacional brasileiro. Hoje os nossos presos não fazem nada, num inferno de ociosidade obrigatória diária. Entrando em nosso assunto aqui principal, poderíamos sem grandes alardes, projeções grandiosas e arquiteturas antecipadas definitivas, isto é, sem um modelo prévio já pronto; ao início com pequenas experimentações locais num também aprendizado, ir montando e pondo em execução e produção estruturas de trabalho com micros-fábricas e prestação de serviços dentro das muralhas prisionais. Aliás até como já existe e dá certo. Pois conheci a Penitenciária-Industrial Esmeraldino Bandeira no Rio de Janeiro, e passando por sua frente todos os dias durante dez anos, nunca vi ou ouvi histórias e boatos de distúrbios, rebeliões e fugas de dentro dela. Na paisagem da estrada de acesso às prisões, a Esmeraldino Bandeira era um único oásis, se assim se pode dizer, dentro daquele amontoado de infernos dantescos prisionais. Um único depoimento positivo e me bastou ele, para fornecer excelente prova de que se pode mudar. Assim disse-me o preso em tom reclamante naquela manhã que o conheci: “veja só professor, eu até ontem, estando aqui do lado na Esmeraldino Bandeira, levantava de manhã sentindo-me útil, cheio de vida e feliz a mim mesmo e ao mundo, pois logo depois do café da manhã dirigia-me ao meu setor de trabalho, uma confeitaria e fábrica de pães e produzia o dia inteiro; e assim este passando leve e esquecido das agruras de preso, cada vez mais eu crescia em mim mesmo. Por momentos até esquecia totalmente que estava em uma prisão e quem eu era. À noite, quase sempre conciliado por dentro por mais um dia de trabalho realizado, o sono me chegava sem grandes torturas das lembranças passadas. Além de que, minha alma descansava por um dia seguinte de laboriosa vida, pois meu setor de trabalho me esperava. Por vezes, me peguei feliz já pensando em lá fora junto da minha família, ela alimentada pela ação e suor saídos de mim, num trabalho legal porque dentro da lei. Outra vida bem diferente me esperava. Já sonhava até em viajar e rever o lugar aonde nasci e me criei lá no Nordeste. Nos dias de visita eu já estava ficando outro, dizia-me minha mulher. A alma de um homem inserido na vida renascia em mim. Daqui só pra felicidade eu me pensava. Num arroubo até projetava meus filhos estudados já adultos e trabalhando. A vida ainda podia ser feliz e sem mágoas passadas. Quer saber professor, meu corpo até mudou, fiquei mais robusto e forte trabalhando, já bem fora daquela figura magra, com aparência negativa e perigosa que eu até então tinha. Não é só o trabalho que transforma, mas também o sentimento de ser útil no mundo que ele traz, e assim junto a possibilidade de ser feliz, que por si só já é um nobre sentimento. Confesso, até outras aptidões que eu já esquecera e largadas de mim pela vida, rebrotaram. O garrote sufocante de prisão, que nos aperta e mata aos poucos aqui dentro, foi perdendo fôlego. Eu creio, que ao relatar isso estou na lógica da vida. Mas veja só mestre, de um dia para o outro tudo desmoronou. Até ontem o mundo pra mim era um, hoje é um outro, não só bem diferente mas o seu oposto. De trabalhador virei um ociosos bandido e assim um pária social como dizem lá fora. Aqui ao lado na Penitenciária Esmeraldino Bandeira eu estava em regime fechado. Agora, jogado pela lei nessa prisão semiaberta rumo à liberdade, estou obrigado a viver novamente o inferno e toda desesperança futura, como a dizerem-me: você, apesar de tudo não passa ainda de um reles e perigoso interno penitenciário; repondo toda minha carga de ex-presidiário que viverei lá fora a vida inteira. Aonde estamos agora não poderia ser igual a aqui do lado? E este só separado por uma muralha, e assim todos como o senhor vê, todos de nós aqui ociosos e sujos, andando como moscas de lá para cá o dia inteiro, dentro desse enlameado de chão, como se afinal fôssemos só uns porcos ou vermes, coisa assim. A oposição e negação de mundos é só uma muralha que nos separa. Aqui do lado uma escola de vida e aonde estamos, a Plácido Sá Carvalho, uma escola e corredor da morte. Mata-se verdadeiro o bandido quando o repõem à vida, ao social, também humano que ele é. Ainda não descobri qual é o objetivo desse nosso sistema carcerário ser assim, condenando vidas a viverem na morte; nesse caso não só o preso mas todos os familiares seus. Infelizmente professor, muitas infâncias estão sempre sendo preparadas, para num futuro próximo gastarem ou consumirem suas vidas por aqui. De mim mesmo não lamento, mas só não entendo como o tão fácil não é. Pois ao se agir e ir colocando espaços de trabalho nas prisões, num passar de tempo o próprio conceito tão negativo do nome bandido começaria a mudar, os braços sociais lá de fora não estariam tão fechados como estão; encontraríamos mais inserção social matando até algum banditismo que em alguns de nós restaria. Matar bandido não precisaria de armas letais. As fábricas do crime que são nossas prisões hoje, seriam outras fábricas. Veja minha história como estou contando, ontem me sentia um trabalhador, hoje um reles interno. Não poderia ser o contrário? A diferença é só um muro, como já disse. Acho que a força desse muro é imensa, porque nunca ao menos ouvi alguém dizer que poderíamos derrubá-lo. O muro talvez maior da nossa separação”. E o relato do preso parou por aqui. Olha que ele me fez ver o muro que até então eu nunca enxergara, mesmo também esse muro passando por dentro de mim.

Voltemos agora nós, eu e vocês leitores. Se objetarem que mesmo assim o crime continuaria, a nossa intenção, a minha e a do preso do relato, não é nunca nem poderia ser tornar esse mundo só de santidade, o que seria uma grossa falácia. Se há uma coisa central, como há, é mudarmos a realidade e objetivo das nossas prisões como fábricas só de mais bandidos, e passarmos a produzir vidas habilitadas à cidadania. Nesse sistema de produção os espaços sociais também mudariam, como a família e o trabalho. Até nossa religião melhoraria, deixando de ser tão delinquente como infelizmente ela é hoje. Os altos gastos de governo, estes vindos do sangue da população em geral, atualmente em bilhões de reais anuais, não seriam tão pesados. Até também concluindo desses gastos públicos, que há uma condenação perpétua da população que paga pelo que não é. O não-crime arca com todas as despesas do crime, aqui talvez já um outro crime ou um aprofundamento daquele. O real social nosso seria bem outro com a inversão das prisões, outras verdades em nós mesmos nasceriam. Podíamos pagar para ver.

Sem nada de documentação social com nomes sobrenomes e datas tudo de cabeça, só nas prisões que arranjam obrigatórias as coisas e os papéis. E estes às vezes errados ou falsificados por incertezas e desconhecimentos totais. Alguém preso pode não atinar certo e firme quem lhe gerou na barriga ou quem foi seu pai; como também nenhum dos dois. Não sabe qual dia e ano nasceu, por qual lugarejo ou buraco de mundo pôs os pés no chão. Vejo casos de tantas pessoas fora das prisões que nasceram por duas datas, quem sabe três, com documentos e vozes que atestam. Em famílias brasileiras há dúvidas atuais e centenárias de quem nasceu de quem, na incerteza imperando; com relações familiares mal formadas, em parentescos duvidosos e outros muitos acomodados pela vida. Posso ter tido mais ou menos irmãos. Uma prima que nem é minha prima; até porque ela mesma nem sabe de quem saiu, e foi criada por quem passou a ser sua mãe. A falta de se saber da origem parental pode surgir e permanecer, afinal não sei de qual útero saí. Tento esclarecer-me e aceitar como se leva a vida dessa maneira, pois aprendi da importância do sentimento parental na formação da personalidade. A identidade, a pessoa em si, e esta com os registros civis burocráticos que me sabem, me lembram e me provam ela mesma. Eu sou este assim. Nas prisões brasileiras existem setores de buscas e identificações tardias porque faltosas, de pessoas adultas. Presos chegam só com informações de memória, podendo ser imaginárias, de quem ele realmente é filho, pois pode nunca ter visto uma certidão de nascimento muito menos a sua. Na incerteza ou falta pode-se ter que inventar para existir. Milhares e milhares vagam no Brasil afora, totalmente negados sociais indignos de possíveis cidadanias. Nisto de falta de qualquer registro civil, as prisões funcionam por instituições de descobertas, verificações e atestamentos tardios. Passamos a ter a outorga básica e primordial dos direitos civis só nas grades prisionais. Solto na rua nunca fui cidadão. Socialmente assim já se nasce criminoso, só que na idade adulta. Penso nos que são descobertos sem nem um registro documental já cadáveres, os civilmente inexistentes, sem cidadania total. Pode também dar-se o caso como se dá, de um nome ser julgado no tribunal por outro nome.

Só fui ter alguma consciência dessa realidade social nossa geral nas vivências das prisões. Estas, pelas exigências burocráticas de segurança, expõem nossos atrasos perversos e lacunas.

Para T. Hobbes de Malmesbury, que me ensina a aprender sobre Estado.

“Olha professor, você tem que mudar o seu jeito de falar”; alerta-me meio que sorrindo um amigo, mas com olhos de reprovação diretos para mim. Sem saber do que se tratava, pois estávamos ao sabor de distraída conversa, olhei-o de volta balbuciando sons sem dizer palavras. Sentindo o meu não saber esclareceu corrigindo-me: “cuidado quando pronuncia a palavra penitenciária, que o cara aí do lado arregalou o maior olhão ao ouvir sua voz dizê-la”. Incontinente para esclarecer melhor, outra voz amiga na conversa, comunicou-nos que em relação às minhas atitudes conversando, outro dia teve que minimizar, explicando a um vizinho de mesa que me escutara, de que eu não era algum bandido perigoso, e sim só um professor que dera aulas nas prisões de Gericinó. Eu dizer por exemplo “quando eu estava na penitenciária”, assusta demais em alguns momentos, porque só remete a um significado já escrito acima, mas que repito novamente: ele é do crime. Ainda talvez também, meu jeito tão natural já e inconsciente de citar grades, cadeias e muralhas, torna minha fala verdadeira e íntima com celas, alas, galerias e espaços tenebrosos. Nem imagino quando menciono que grandes amigos ainda estão ou podem estar por lá, dentro daquelas carceragens.

No início me dava algum receio e cuidado à escuta ao redor. Houve casos principalmente em ônibus de afastamentos medrosos ou precavidos, eu podia periculoso roubar ou assaltar alguém. Ainda bem pior, de quem pronunciava “penitenciária” se esperasse tudo de ruim e de mal, de bandido que eu já fosse aos olhos de quem me via ao escutar-me. Numa ocasião bem longe das prisões e eu professor já aposentado, uma senhora ao me ver passou a olhar-me muito assustada, mostrando reconhecer-me, o que imaginei logo ser das cadeias. Porque também nem sei e nunca talvez saberei, o que produzia em quem não era preso, ao ouvir e constatar algum grande apego em relação a mim, com respeito e admiração, das vozes aprisionadas. Nós, eu e os bandidos éramos iguais, tanto que nos gostávamos muito hoje com intensas saudades.

“Ficará aqui um enorme vazio humano com a sua aposentadoria”, me dizia reclamante e sábia a professora penitenciária igual a mim. Mas eu sabia, que não era só a minha saída definitiva das grades a causa da tragédia, eu não era e não sou um professor apenas um homem, portanto condicionado ao sentimento humano. O desenlace trágico se dava como inevitável se deu, porque eram vidas desejantes e amigas que se separavam. O conceito só negativo da palavra bandido já fora destruído, nosso pacto social modelava outro mundo.

Chego ao balcão da padaria e olho os frios na vitrine. Mulher gostosa espera a vez de ser atendida. Me varre com o olhar, o que me inflama macho à exposição. Como os frios na vitrine eu também estou aqui. Mas algo antes invisível estoura pelo ar aos nossos ouvidos: o assassinato de um negro por três seguranças de supermercado. No gosto das mídias todo mundo ficou sabendo. A morte por um tapa diziam as bocas. Achamos que tem coisa a mais e profunda, que no Brasil todo negro é suspeito, já nasce negro. O atendente dos frios estava fulo de raivoso. Dizia-nos em baixo tom odioso mas aos quatro ventos, que o negro pelo tapa dado no segurança tinha mesmo era que morrer. Num fulo de contrapeso, opus-lhe que se fosse um branco o carinho seria outro que não a morte. A gostosa concordou comigo. Meu ódio subiu mais e o do atendente também. Ao pulo de um concordar mentiroso meu, disse-lhe que ele tinha razão, que o negro pelo tapa desferido tinha mais era que morrer mesmo. Saí dali ao engasgo de espinho na garganta, mas com a mulher bunduda por dentro de mim; frio na mão fogo pelo corpo.

Na rua o espinho espinhou mais. Envolto na raiva bandida, não consegui berrar ao puxa-saco do balcão, que toda desgraça do tapa estava ainda por vir, pelos cinco dedos na cara. Assassinos agora, os seguranças passariam por um júri popular; virariam, já tinham virado, moradores de carceragens prontas. Porém mais ainda, não poderiam jamais cair em cadeia da nossa facção vermelha, aonde seguranças são também inimigos-polícia. E no pensar ter dito isso ao atendente dos frios, passava por mim o fantasma de serem mortos os enforcadores do negro. E eu já até calculava que os três soubessem desse perigo. Mas lembrava-me também, que nos outros coletivos de cadeia, de outras facções, a morte sempre os rondaria. Uma pelas prisões brasileiras serem bem mais negras que brancas; a outra, que eles os três, não passam de polícia de supermercado, como já dito.

Vamos aos não-finais. Desgraça não vem sozinha, vem no cacho. Na vida os novos presos narrados aqui deixaram em desamparo alguém, penso sobretudo em crianças, que alongarão por si genitores bandidos, no sentido negativo da palavra bandido no social, e assim também condenadas. O mundo inteiro não mais se lembrará, muito menos se alertará disso. Mais desgraça não faz mal a ninguém, ao outro quero dizer e digo; que seja então dessa forma por aqui. E para fechar tudo, nosso vice-presidente berrou patriótico tocado humano e referido ao crioulo morto do tapa, que no Brasil não tem racismo. E ninguém objetou-lhe, que só se nega o que existe, pois o inexistente não carece de negação, assim mentirosa e presidencial, muito menos lavada como a dele.

Num ponto superior de formação comecei a ter meus internos cuidados. E eles tinham que ser bem maiores, mais periculosos por assim dizer, do que todos os dos meus parceiros de prisão. Ou seja, lidar também com eles presos em enorme precaução. Por estarem só trancados naquela caverna sem ver a luz, poderiam envolver-me num erro em conjunto e então me levar de ralo. Havia uma linha, marcação de fronteira ou precipício, que meus olhos tinham que enxergar e muito bem. O pior de tudo que ela, a tal linha de fronteira se mexia ou se falseava, obrigando-me a contar com imprevistos e sortes. Como pior ainda, o ter sempre guardado num cantinho de mim de que qualquer hora podia rodar, perder todo o plano de ação, sendo expulso definitivo das prisões. Além disso, com a marca bem mundana pública, de que eu nunca passava de um demônio bandido; fechado de corpo e alma com todo o mal encarcerado nas prisões de Gericinó.

Não haveria atenuante. Antes porque ainda não existia, não inventada pelos homens da lei, a salvadora delação premiada. Que mesmo assim, caso já houvesse na minha época de preso, pela natureza da justiça ela a delação premiada nunca me caberia. Como ousas, me perguntaria um juizinho bundão qualquer caso eu a requeresse. Nascido num morro que nem lembrava mais o nome, que nem sei também se tinha, não carrego nenhuma dignidade de identificação de origem; tipo sou do Borel, Alemão, Vila Vintém ou algo de favela assim; todos lugares que poderiam me dar algum gentílico.

Mas voltemos à coisa mesma. Vagabundo e misturado diário, eu não podia dar mole em todos os lados, no meu de bandido, no dos internos e por último no lado da lei. Como já nos lembrei, não havia delação premiada. Primeiro também por ter que se perguntar, se nós do crime de favela ou periferia podíamos ser premiados em alguma coisa. Antes do primeiro por não sermos ricos. Mas bem antes do antes pelas origens. Só se premia os bem nascidos, que já é a premiação primordial. Com a vida já nasce a inclusão ou não. Mas no meu tempo de carceragem, o termo delação premiada não chegara ainda ao mundo por total falta de necessidade. O roubo desenfreado dos políticos brasileiros e seus asseclas não se tornara público, não se mundanizara. Todos naquela época agiam numa certa surdina, sabia-se de leve, mas toda a nação perdoava ou aceitava, no silêncio social cúmplice. Estourada a coisa, como um bicho podre que não se queria ver, nasceu o doce chocolate da lei. Se você dedo-duro delatar alguém, colaborando fiel e cúmplice com a justiça, serás premiado. De dez anos você condenado vira só meio ano, quem sabe mais certo um nada de carceragem, no modo social dos marqueses.

Meu plano geral criminoso era bem simples, conseguir passar por tudo sem perder, no rigor vivenciar, para ter muitas penas e letras depois para escrever. Quem sabe meu grande crime esteja sendo este agora, a pôr-me trabalhoso e feliz só a lembrar.

Bandido virei polícia. Conto agora miúdo como foi. Nas hastes da vida fui me misturando criminoso ao crime, a carceragem cada vez mais comigo; tudo em nós e por nós se amarrando, até em nós se contar só irmãos. De fora perceberam que aos sustos e rebeliões bandidas eu nunca estava, ou seja sempre a salvo. Quando a prisão explodia, alombrava, e queimava ardoroso o espírito em revolta, eu professor era marcado ausente. Minha pele não podia sofrer ou queimar, ordem e decisão coletiva. O crime protege amigos. Demorei também a me sentir à coisa, que nossos corpos e mãos se uniam para tudo. Fechado junto eu já estava. Mas nunca me gloriava de proteção, não precisava. Só nossa relação nos baseava, em laços e afetos do ser. Porém ao ser de fora isso me marcava. Professor, meu nome não constava do registro carcerário como documentado bandido, mesmo sendo fiel do crime como eles.

Então dentro da pureza escolar virei peça suja. Começaram assim muito a desconfiar de mim os da segurança, e quem sabe todo o mais. Talvez que eu levasse comigo recados criminosos pelo cofre secreto mental. Da prisão se pode mandar no mundo de fora, também executar. E assim aos olhos mais bandido. No aristotélico de quem é amigo protege, fiquei todo pelo crime, na lição de que amizade e lei jurídica nunca se confundem, outro saber do Estagirita. Mas vamos lá ao delito, continuemos. Por lógica e necessidade, tínhamos eu professor e o crime coletivo nossos sinais humanos e secretos de segurança: pode entrar ou não pode entrar; vai virar a cadeia ou não vai explodir. Tá limpo ou tá sujo melhor dizendo, num simples aceno de mão ou na falta dele. Nos falávamos fiéis e sinceros já a distância. Um guarda de portaria um dia mesmo que inocente, me lembrou da minha grande precaução, ao mínimo sinal eu já não entrava nas grades, pois que podia depois não sair, agarrado refém do coletivo bandido revoltado.

Mas como tudo no mundo madura, os tatos foram deveizando. Ao me terem a vigilância na carceragem a coisa estava tranquila lá dentro, concluíam, nada de perigo a acontecer. Fiquei boia bom sinal na água funda bandida; marca de polícia no campo deles os ruins. Na troca, mas confusão, isso me libertava mais, enganando quem nos vigiava de fora, na vesgaria.

Faço crônicas. Um passo maduro que dei, já com alguma coisa em avanço, foi quando li uns textos menores do Pamuk. Antes aconteciam já as crônicas, pois que a mão e a cabeça conseguiam pequenas histórias. Só com o passar e um amadurecer nunca acabado as frases e parágrafos foram melhor saindo. Também que por dentro, formou-se em mim um conceito, uma estética. Algumas delas saem com pouco ímpeto, com um pouco de brandura, como se a própria brandura fosse ou seja sua tonalidade de pintura, de paisagem. Umas outras saem de mim num ímpeto voraz de se pôr ao papel, ao mundo. Destas são as que eu gosto mais, me sendo como um soco que dou ao mundo que quero atingir. Uma ou outra das brandas ligo-as a uma espécie de boas e certeiras facadas que dou; que por vezes terminadas, ensaio movimentos agressivos e esmurrantes no ar, numa forma de desafogo e afirmação. Atingi o que queria. Sou um assassino. Por vezes me questionei em consciência, se caso matasse acertado quem eu queria, se haveria arrependimento ou culpa, descobri que não; talvez que até me desse um lastro moral. Certas crônicas demoram a sair, levando-me dois dias, num parimento mais prazeroso que cruel. Uma palavra faltosa ou errada me põe em constante desassossego, numa pequena angústia que o move e o mantém. Leio e releio infinitamente o rascunho até acertar; embora quase nunca sabendo antes o quê. Certas horas os olhos me dizem que falta, num vazio entre palavras, como num trecho de escada faltando degrau. Ou, por outras, a palavra não diz, tendo que assim trocá-la pela correta que vem. Mas todas as palavras têm a sua serventia de quase igual valor; que mesmo as erradas, as que entortam o texto ou não dizem até nada, estão e me dão uma direção: olha, eu não sou daqui. Repetir-me numa frase já escrita, mesmo que numa crônica distante, me causa dissabor. Repeti-la só se a ênfase exigir. Nos últimos anos penso em crônicas continuamente, como algo a terminar ou que nunca se conclui. Criei um outro universo paralelo, o da escrita, por dentro de mim. Que o do pensar antes já estava.