Saberes marginais chegavam desmesurados até filosóficos por alguns, a escola não lhes bastava nem os prendia. Mesmo que em educada contenção, aos poucos um banditismo saía solto pelas falas e bocas, fazendo eu professor aprender. Certo assim, que todas as mentes não estavam domesticadas pela ciência da lição escolar, qual uma planta produtiva ou um cachorro obediente. Havia uma fuga ou resistência de olhares e pensamentos, fazendo de uns muito periculosos e então perigosos na falta de um controle prévio. Não eram alunos no conceito pedagógico do termo; pondo sempre no mundo que o verdadeiro saber não tem medidas nem notas. Tinham-me por um superprofessor, o que me causava desconfortável medo e certa precaução, com certeza pelo ainda muito escuro que me habitava.

Quem não sabe a lição é burro na escola das quatro paredes. Mas na sala de aula eu professor nunca inquiria os alunos sobre origens quaisquer que fossem, condição ou saber. Não passávamos por nenhuma competição pedagógica do tipo quem sabe mais; os sobressair-se eram só dados humanos e pessoais, só isso, sem reificações mesmo que de instantes. Por muitas vezes, como já disse em outro lugar, eu me perguntava o que eles presos ainda faziam ali, estudando comigo; na indagação eu questionava o mundo, o nosso mundo. Havia uma resposta que os alunos possuíam, traziam, que eu buscava decifrar, aprender.

Os livros, lições e saberes escolares foram se tornando outros planos e objetos menores, às vezes até sumindo. Conversas soltas nos ensinavam mais, porque nos mergulhavam em nós mesmos, acontecendo achados e encontros. Mesmo o didático rolando nas carteiras quadro e cabeças, as vidas e os movimentos delas eram o principal, o nosso mundo coletivo. As quatro paredes escolar iam ruindo por dentro dos corpos. Chamávamos um ou outro à escola não pelo didático magno, mas pelo prazer de pessoas se vendo, se tendo pelas relações e trocas; e nunca como o santamente obrigatório de alguém ao ter de ir à igreja orar; ou crianças que rezam para a mãe da professora morrer para não terem aula naquele dia, num imposto e rejeito profundos. Éramos assim o convite livre e humano de nós mesmos. Entender tanto de quem veio à escola como de quem não veio, até de quem não virá nunca mais. Vê-los me esperando nas grades da ala ou na sala escolar, foi virando gratidão de pessoas para mim, sem a aura da mansidão imposta; cada um em cada um de si, os olhos e os gestos nos diziam, nos ensinavam. Em nós mesmos encontrávamos outra escola, e outra vida.

Os tribunais vinham bem mais visíveis por dentro de alguns, com sentenças prontas eles já condenados. Perguntados se sabiam diziam que não. No provar eu pedia que lessem uma coisa qualquer apanhada ou vista na hora, como uma página de cartilha ou dizeres de um cartaz na parede. E descobria que todos mentiam, ao lerem o posto de forma correta diante dos olhos. Nunca encontrei um cego de letras total, que seria um aprendizado para mim. Mas de volta aos que mentiam e por que mentiam. Antes porque já vinham subjugados por um conceito cultural de condenação: saber é conseguir ostentar saber mesmo que totalmente mentiroso ou falso. Assim, ao obrigar os mentirosos bandidos na admissão escolar a lerem umas palavras, mexia com seus enganos e condenações ingratas, os quais por nossos tribunais andamos cheios e já de muito vazantes.

“Bandido não sabe lê”, já dissemos isso em muitos lugares por ser uma sentença histórica pronta; assim como acreditamos que alguém se torna santo ao frequentar uma igreja ou mudar de roupa. Na aula, nunca perguntei quem sabia ou não sabia ler; qual numa de juiz inquiridor maldoso, buscando por um crime íntimo torná-lo público. Também não ludibriava dizendo-nos completos sabidos; estar ali em aula já era uma constatação: a de que estávamos afim, repetimos.

Por hora também em nós docentes na escola toda, os professores sabiam completos o ler, como oráculos certeiros científicos plenos. Mesmo meus erros mais visíveis e verdadeiros na aula, não conseguiam crédito mínimo algum de verdade; eu estava blefando ou pondo-os em prova a fogo, diziam-me os alunos. No intento, eu desejava por-nos humanos mais ricos, mostrando uma nossa igualdade. Mas ao não conseguir, descobria a mentira neles tornada para sempre nossa toda real história.

Nunca peguei um professor em leituras, como num crime perfeito. Histórias de poesias e comentários literários não eram assuntos de pauta escolar, muito menos de vida. Bati-me por décadas num gesto simples: queria uma gramática da língua portuguesa em cada escola que passava, o que nunca me foi permissão. Algumas mãos do saber ficavam cheias até a entornar, mas só de didáticos já prontos. Passávamos indubitáveis submissos pelo só obrigatório. Agora conto aqui uma história minha de quase amor. Certa professora mais que amiga e de literatura não conseguia engolir Machado de Assis; Dom Casmurro era-lhe impossível de beber porque talvez torturoso purgante. Pois então pediu-me que o resumisse para ela, como parte de um trabalho acadêmico seu. Numa felicidade, redescobri o mundo de Bentinho e Capitu ali, naquela leitura cúmplice, prostituta e romântica.

De uma a letra me tatuou: que ler é um troço sempre por acabar e por isso em eterno aprender. A certeza de um fim, quando verdadeira, logo se esvai, e assim pegamos um novo livro. De leituras a prisão me ensinou muitos algos no convívio bandido; o principal, de que leitores plenos e analfabetos puros é uma ignorância nossa de fundo, que nos move históricos num saber de sabichão.

Ao sair de casa sem que o perceba muito, o destino primeiro são os jornais. Procuro só as manchetes que já me bastam; a saber aonde foram os últimos tiros e mortes do dia anterior. Mais do que o constatar, necessitamos nos proteger com muita antecipada e até desmesurada cautela. Na certeza, nunca sabemos nem saberemos aonde será o próximo combate; que pode eclodir instantâneo, na minha vizinha e tranquila esquina de onde moro. Todo dia acontece ou aparece algo de mais tragédia. Mesmo nos ambientes mais seguros ou serenos permeia o muito medo; por vezes medo tão incubado ou mascarado em valentias de fala. Um clima tomou toda a cidade, há décadas, sem que nos apercebêssemos tanto da sua gravidade; como se sempre existisse ou existiu. Estamos em outro normal, de uma certa tranquilidade já escapada, inexistente.

Ao dizer-me a desconhecidos num lance de vida qualquer, como à mulher caixa do banco, que tenho dez anos de trabalho em carceragens bandidas, ignoram a palavra trabalho pondo-me logo a olhos assustados e fugidios. As almas já amedrontadas estão sempre prontas antecipadas a fugir, a correr. Qualquer um, o outro que não seja nós, tornou-se na rua um mortal inimigo prévio assustador. Um gesto, mesmo que tão puro, inocente e casual, dependendo do momento e circunstância, pode ser tomado, e quase sempre é, como um movimento a ser eliminado; qual um homem a trabalhar sobre e na feitura de uma laje ser morto; pois visto pela polícia alguém a se esconder, a se entrincheirar. Os olhares e objetos formaram-se outros. Mesmo o dito invisível é temeroso, senão até mais, assustador; que pode parir sobre nós, qualquer um horroroso ou matador ataque de ganho ou de morte. A polícia mata cada vez muito mais, subvertendo o conceito de ordem na ação ou sendo a natureza própria dela, da ordem. Nossa guerra é particular; antes porque mentirosamente não ser vista guerra. Outra, porque o inimigo não necessita ser o verdadeiro, o antes identificável. Existe um desvio de visão; a percepção do possível objeto está enganosa, confusa. Na mente projeta-se uma identificação, mas no acontecimento outra, já errada, de morte à “bala perdida”. Por algumas cabeças há uma verdade estabelecida mentirosa. Falta-nos conexão acertada entre visão e objeto. Não vemos porque não sabemos ou não queremos ver. A polícia mata um, porque esse um é qualquer um; independente do que verdadeiro seja. A marca do inferior baliza e justifica tudo: do plano da morte a uma vida inteira sem conseguir.

Nunca usei telefone celular. Nas portarias das cadeias, eu sempre evitava ao máximo os desconfios secretos dos guardas de plantão, no vasculho obrigatório de corpo e de coisas. Por estar constante meio bandido e meio professor, sabia que era um dos mais vigiados. A falta certeira de saber quem eu era, se professor, parente, visita de preso, ou realmente só bandido, deixava a segurança meio que cega. Não ter telefone na mão como todo mundo, talvez me colocasse ainda mais suspeitas. Os guardas tinham pouco como saber de mim; nem de como eu falava ou com quem falava, ouvindo-me monitorado pelo meu próprio celular. Só as máscaras me mostravam verdadeiras.

No miolo da grade em união com meus amigos do crime, eu expunha as razões desse acertado não ter. A principal, de que os rastreadores da segurança nos escutam, como alguém atrás da porta a vigiar e saber só com os ouvidos. Se há uma coisa desnorteante para o poder, é não saber das nossas vozes, e assim do que pensamos. Cada celular é uma sentinela que o próprio vigiado conduz. Por vezes do acertado e do motivo, nós bandidos nem deixávamos certa escumalha de presos suspeita nos escutar. Nossa vigilância funcionava dos dois lados, o do inimigo e do nosso. Na importância ou no lance, eu tinha coisas que até buscava esquecer, pondo-as numa nuvem bem alta; meu próprio discurso de fala podia me trair. Meus pés e cabeça andavam pelos dois lados, o do crime e do não crime; descobrindo como o legal ou a ordem se hipocrisia tanto o verdadeiro Bem. Os nomes dos campos se invertiam, na experiência do circular e do saber.

Na amizade da nossa relação bandida, eu criticava severo as religiões nas cadeias, a televisão e a própria escola, como estratégias condicionadoras, vigiadoras e controlantes da vida. Então, os territórios da realidade prisão se alargavam, podendo ser e acontecer em outros lugares e aparelhos. O importante, dizia-lhes, era o poder não saber ou pouco saber do que pensávamos.

Que rastrear e escutar nossos sussurros pelos telefones, os do poder podiam e podem. Só que nunca e jamais nós fazermos o mesmo nos deles; o crime deles não permite.

Naquele almoço o bife chegou muito mais verde num amargor intragável; com feijão casquento, arroz grudento e cru. As coisas sempre decaindo, a mandarem cada vez mais venenos às nossas bocas encarceradas; num movimento de menos custos e assim mais lucros, para quem fazia as gororobas dos penitentes. As tripas a suportar. Tudo no conceito básico de que ali aonde estávamos, não passava de odienta maldita prisão, com muitos negros favelados e outras cores de mais pobres ruins.

Já na vida em alforria, vejo que a indústria e o comércio fazem as mesmas coisas aqui fora, iguaizinhas como com a gente nas prisões. Agem ao mansinho e quando preciso com muita mentira, mudando e nos empurrando às barrigas, tudo cada vez mais da mais baixa qualidade. Nesse universo, meu gosto lembra de um arroz agulhinha, que em nossa infância antiga qualquer boca do povo o saboreava com feijão; hoje, o mesmo arroz agulhinha em miúdo pacote de meio quilo, tem o preço de cinco quilos do vagabundo que agora comemos. Por vezes vejo a multidão como manadas ao cocho, conforme as ordens dos donos. A cancha malandra no mundo livre é a mesma das prisões, este o nosso consciente.

Mas cego, o povo no preconceito nos condena a uns meros exigentes vagabundos sem moral, mesmo nós bandidos no grito de coisas de primeira necessidade para qualquer pessoa simples se manter. Não percebem as cabeças ou aceitam submissas, que maquiados pela propaganda, receitas e embalagens bonitas, os esquemas de aumento de lucro pelo diminuir da qualidade dos produtos, se gananciam cada vez mais ao infinito. A prisão pode estar também aqui fora. Relembremos: há um foco de jocosidade com toques irônicos de luxo e riso, insuflado pela mídia, direcionado ao preso. Assim como certas e muitas bocas-demônio perguntam bem alto a crianças pobres, se vão à escola só pela merenda.

O show. No tal almoço do verde e amargo bife de fígado houve uma festa nossa. Sabíamos que o diretor da cadeia estava lá no fundo da carceragem resolvendo coisas. Assim, num gesto coletivo bem combinado, esperamos o homem voltar para sair pela ala, com nossas bocas de cela dos dois lados. Quando no seu terno limpo e bem passado o crápula veio vindo, fomos acertando em cheio nossas quentinhas abertas com comida nele, numa chuva de lambança, espetáculo e muito ódio nas mãos. Pondo um homem barrigudo e higiênico neurótico a se abaixar desajeitado e a correr, sob nossos tiros de refeições podres. Inimigo, ali o número um, jogamos-lhe na cara e na sua hipocrisia da ordem nossos rejeitos. Rimos perversos e aliviados de tudo depois, quase como num instante de fuga.

Catuco ao invisível. Sempre me bato comigo mesmo como começar ou dizer, diante do meu total desconhecimento. Já de início, esse total desconhecimento nos impõe uma lógica de sentido: por que existe este total desconhecimento? Não como uma coisa a ser escondida, mas a ser ignorada nesse silêncio histórico totalizante? Penso aqui sobretudo em nossa enormidade de país, o Brasil, com suas distâncias de território facilitadoras de tudo; de tudo que não se possa imaginar ou acreditar que aconteçam ou existam. Esse real que pela ordem assentada nunca teremos um histórico ou que mínimo parecer dele. Há uma ignorância de olhar implantada; e eu não fico fora dela mesmo encarcerado que fui. Mas por estar nela tento mostrá-la, quem sabe alcançando uma face mínima de atenção.

Podemos falar de escolas mas nunca de prisões; que estas estão fadadas aos subterrâneos do não saber. Melhor, não devemos nem de lembrá-las em nós que existem; a não ser num cisco de pensamento abstrato vago, passageiro e distante. Elas, que quase sempre estão fora dos centros urbanos, mesmo quando próximas são como não existem. Delas, circulam boatos mantenedores de falsas verdades ao meio do povo, para não se deixar nenhum vazio de discurso na massa ignara; pois este vazio, perigoso aos fabricadores de mundo. Mas voltemos ao desconhecido e distante. Nas lonjuras das prisões em interiores de estados brasileiros adentro, vão se formando e assentando universos. As indignidades nascentes e as já perpetuadas, conforme as subjetividades do guarda e de quem está preso; tudo no cosmo criativo do mais sofrer. A grade já define um inferiorizante básico: quem está nela é porque já não presta. Por lá, submissões e resignações ao infinito, tentando inúteis ou não mudar algum jogo relacional maldoso de momento, como também acabar procedimentos mais penitentes em permanência. As explorações sexuais das meninas e mulheres bonitas. Enfim, um campo de ação sempre visível ou não, mas sempre disponível, dos jogos e gestos nas manipulações mais perversas direcionadas ao preso. Quem está na grade não tem voz; e mesmo que grite, quem ouvirá o que não se pode ouvir? Num atônito torturante, as mentes se perguntam num fundo escuro: por quê. Há um holocausto desconhecido e contínuo, que forma um mais secreto mundo por dentro das nossas prisões. Nem falo aqui das salas de tortura que sabemos tanto que existem, mas daquilo que o interno prisional antecipado aceita, pois que já prisionalmente posto; ou seja, que o direito a uma cadeira ou copo d’água são objetos e desejos só dos homens livres. Gritos lancinantes vindos de um garrote ou noites de gemidos por uma perna podre, nossos ouvidos e olhares de fora nunca alcançarão; e assim nunca uma consciência.

“Ele vende armas pra gente professor, mas na hora da guerra é o primeiro a morrer.” – Me disse o interno prisional apontando um polícia fardado ao longe, na penumbra interna da ala na carceragem -. Estávamos recém-saídos de uma rebelião longa, de três dias ou mais. Havia por todo lado um ar de espera, precaução cuidadosa e medo. No dia seguinte ao término do confronto e nossos movimentos de fuga, flagraram em ato, mão polícia jogando pistola carregada pelo chão de uma galeria nossa de presos. Havíamos barganhado ela por um bom preço. Pois sabíamos também identificar os polícias compráveis; geralmente os olhos já diziam, ou um outro gesto identificável qualquer, como uma frase de falsa comunhão conosco por exemplo. E nós, na guerra, já estávamos à espera.

Existe um monopólio de mercado em cada prisão, o da corrupção. Este mercado impõe geralmente uma face envernizada e lustrada de mais legalidade e pureza, numa máscara maior de mundo. Aonde está mais sujo deve parecer mais limpo. É bem sábio que isto está dentro da política nacional brasileira, este modo de parecer. Nosso sistema prisional acompanha por natureza a ordem, o mundo no qual está inserido e é parte. Uma parte que também é o todo. E o mais agravante e pecaminoso, mas básico, está fora da corrupção; um centro fora do centro ou um certo ao redor. A máscara da pureza para existir tem que se mostrar em ação. Assim, muita coisa inofensiva, como um cavalete de pintor, é barreirada na portaria da prisão, não pode entrar. Ou então, num repasse cada vez mais exigente mas altamente respeitado, a grande mentira, a burocracia realiza seu controle e presença calculados de administrar. O olho falso e o documento, este arranjado ou não pouco importa, atestam a pureza da coisa que entra ou que sai, isto é, circula.

Ao receber-me no gabinete, o diretor da cadeia em defesa ou desculpa murmurou fingindo-se amável: “a corrupção do guarda.” Dei de ombros, mostrando que minha finalidade ali era outra, mostrar nossos textos sobre carceragens. O terno impecável que ele sempre vestia era sua marca pessoal de pureza. Que por dentro, quer queira ou não queira, nossa estrutura de Estado possui vísceras podres. Na continuidade e natureza da coisa mesma, da vida, a manutenção de modos e prazeres já está açambarcada e dependente do mesmo corpo que doente a produz. Como um parasita e seu hospedeiro em simbiose natural.

Para os labirintos da Solidão.

O tiro mortal certeiro da polícia no jovem rapaz estava na ordem do dia; a bala não foi perdida, como todas que atingem qualquer corpo favelado ou de pobre. Sobre o caixão costumeiro pai infeliz chorante. A morte nunca pega só um por vez, já mata aos pouquinhos ou a muitos também os que estão no ao redor. A juventude morta daquele corpo quando dentro de casa, já estava antes condenada ao patíbulo da lei. Como a sentença sabiamente não traz nomes escritos, só no instante mortal ou pós ele, sabemos qual ou quem foi o escolhido do dia, da hora, da vida destinada da vez. A palavra jovem, mesmo no singular diz e é sempre um plural. Quem levou o tiro e foi levado por ele, na inserção da vida, na própria vida, era só unidade de um grupo; este mais visível pelas almas e indefinido pelo espírito. Que este o dele que morreu, só pela foto do jornal já chegou até o meu, no grande espírito que se encontra. Mas voltemos ao grupo do já agora cadáver. Jovens amigos do executado atingidos também pelo mesmo tiro, uns ou muitos pensarão em vingança matando um polícia. Num momento das mentes, desejos fortes de entrar para o crime ostentando mortífero fuzil perdurarão. Quem sabe algum pesar secreto mas frágil ou temeroso, rezará por dentro pela mira mortal de um bandido do morro admirado seu; que suas balas bandidas nunca errem corpo de polícia matadora. Crianças do mesmo lugar, se alinharão pela natureza da vida a futuros inimigos de quem os mata, tornado-se até algumas já os cria*. A polícia prepara os criminosos, dos quais ela precisa para viver.

Mas o buraco é sempre muito mais embaixo, como já me disse alguém. Acerta-se no alvo para atingir outros alvos. No acerto de reprimir ou “acabar” com o tráfico de drogas pela polícia, o objeto mesmo são outros nascedouros. É bom sabermos antes ao nos lembrarmos aqui, que maconha e cocaína rolam muito e até por demais, nas festas dos ricos e quartos dos grandes hotéis; nisso, humorista de sucesso segredou-me publicamente, que se prenderem todos os usuários que fumam ou cheiram, nenhuma redação da mídia brasileira funcionará; assim, talvez até nem exista mais hoje notícia ou programa de TV sem pó ou fumaça (cocaína ou maconha). Um parceiro meu de cela, gostava de mencionar funcionária de televisão usuária de cocaína e freguesa certeira sua; imagino que ele a lembrava por ser bonita e terem tido algum clima de namoro. A pressão da realidade nos empurra a fumaças e pós, até naturalmente Freud, que sabia muito disso de drogas e dos nossos demônios internos.

Dito o pretexto, falso pretexto, tentemos acertar aqui o nosso alvo, e este mortal. A vida está também no periférico, no favelado; então este tem que ser reprimido, direto ou indireto criminalizado. Antes o território já o condena. E por natureza as vidas que brotam querem ou podem querer mudar a condição da ordem do mundo. Num canteiro pobre pode nascer uma boa hortaliça. Mas na favela só se deve ser o que o nome favelado já impõe; desembargadores e juízes estão fora daquela ordem favelada, quanto mais uns ou outros diplomatas. E assim, o que os mata porque nos mata é a imensidão do desejo. E se fora só isso, mas não. Se num barraco qualquer brotar a inteligência para a vida, ansiante por mexer no mundo de morte que vive e vê; na ordem, ela a inteligência de favelado de morro tem que ser morta, porque este mundo não lhe pertence.

Os Cria: meninos/rapazes nascidos na comunidade que, ostentando fuzil, vigiam e controlam entradas e saídas do alto de pontos estratégicos, geralmente lajes.

Muitos irmãos eu só conheci eles já no crime. Nossa mãe teve doze dos quais morreram seis. Papai lutava a nos alimentar de arroz com feijão. Eu e meu único irmão homem, quase nunca brincávamos nós dois sozinhos. De cores, cabelos e naturezas muito diferentes, cada rosto o de mim e o dele se voltando assim para outros cantos de si e do mundo. Meio inimigos brigávamos de vez em quando. A comunhão parental andava às vezes à força e muito dispersa, quase não existindo mais. Na rua eu encontrava outros irmãos, nas brincadeiras descalças de meninos antigos.

Ao ingressar nas prisões vim de irmandade vazia, sem nunca de rejeições, tatos e cuidados de higiene por avisos. Sempre nos falei natural, evitando ou destruindo falsos tons floreados de voz e de gestos; só na voz, naquilo que nos vem de dentro ou já está intenso por fora entre dois corpos e olhares. A vida nos fazia irmãos por aquelas grades coletivas de Gericinó; e cada qual dos milhares no jeito e gosto se vivendo nela. Uns deles se chegavam mais para mim, como eu também me infiltrando. A delinquência da vida dentro de nós, mas o jurídico não, imposto dos tribunais. O corpo mesmo da vida se nasce sempre sem ordem, por outra ordem, só dela mesma. O mundo sociedade com suas falas de balizas como fraterno, amor, comunhão e etc., nunca se ecoavam por nossas almas e vozes; num sentido éramos mesmos só bandidos. Se um gesto sublime nascia, exercia seu viver e mutação de mundo sem o de ser nomeado. Irmãos sem o precisamos saber.

Depois de dias, meses ou de não sei quandos fui me atendo mais, porque eu todo já estava parental; sem nunca necessitar de quantos ou tão tais; só vistos ou sentidos pela clareza em nossa mente, como em três ou quatro de uma multidão sem fim, na qual vivemos sem nunca sabermos com precisão o de quantos em nós dela; só o espírito indecifrável sabe dizer. Por vezes num pátio e corpos sujos, brotava intenso e gozante d’alma um naco de pureza pelo brotado de uma simples conversa. O sentido de família sumia, vindo outro em seu lugar; melhor e no certo, cada um deles no seu; forças diferentes que nunca se tocam, vindas cada qual de outros seus nascedouros: o humano e o do papel escrito.

Nosso grau de parentesco então se ampliou e mudou, cores e sangues não eram nada noutras cores e de mais sangues. Negros, louros e mulatos na mesma família. Por entre nós assim pai e mãe se trocavam, se mudavam. O parental marcado desmarcado na vivência das alas, corredores, celas, comarcas e bois*. Noutros homogêneos e heterogêneos. Depois e durante todas as prisões por quais passei, não sei por quantas e tais famílias me pertenci. Meus originais de pais e irmãos se foram tudo por outros e águas-abaixo; noutras famílias, fora do insosso desta do aparo do sangue e das normas das leis dos cartoriares.

Boi: lugar dos banhos e das necessidades, no jargão penitenciário do Rio de janeiro, Brasil.

A moça pergunta meu nome. Olha a tela do computador. Esmiúça coisas pastas e arquivos; me busca por ali. Dá um ar de descoberta, dizendo incompleto meu endereço a ver eu completá-lo. Olha o que está diante de si na página acesa sem que meu ver o alcance. Mas ainda a confirmar lê no silêncio e pergunta telefone e idade. Sim bateu; eu era a pessoa que dizia ser, a existência no cadastro-controle.

Vou tão nesse lugar uma clínica, que a tal moça já me conhece um pouco de lá. E se repete toda vez no igual ritual de me ler; nunca acredita em mim. Faço um brio de desencaixe no interrogatório de suspeito, e respondo um exótico de palavra em além; mas sem um abrigo mínimo de algum ouvir. Os pedaços impessoais de mim, nome, idade, endereço e etc., já estão determinados completos.

Nas prisões eu os via entrando ou saindo pelas portarias. Em distância de proteção e higiene como a moça da clínica, o guarda lia silencioso o documento da verdade em sua mão. Feito isto, o ler, e os condenados já em espera prontos cordeiros, citava um primeiro nome com a boca prisioneira do sobrenome completando ao do já lido que está no papel; nome da mãe cantava o guarda e, no automático o interno se dizia. Assim o ritual seguia até o último do grupo prisioneiro. E este duplo de guarda e preso nunca falhava, sendo mundo num dizer social único. O interno já vinha da cela com a fala treinada pela cabeça, na certeza de que um mínimo de erro ou fora o colocaria em suspeito de alguma fuga, logo em mais olhares vigiadores e possíveis castigos; por isso o desse cuidado às indagações do poder pelo guarda. Ele pessoa só sendo os dados dele no papel, e seu corpo e alma ali a confirmar. E é isto também o que a moça da clínica faz, só que fingindo nos precisos sociabilidade e talvez muito respeito.

De casa qual o preso, eu já levo à moça da clínica e tenho na fala em automático ouvir confirmar e obedecer. Como o aprendido por jogos de frases a completar em passatempos de revistas, ou por exercícios escolares infantis de pedaços de palavras e figuras geométricas nos cadernos e folhas.