O nosso livro, “A Prisão Quer Que Eu Morra”, estará em promoção Kindle Deal, ao preço de R$9,59, do dia 13/07/2022 até 19/07/2022.

Com o dadivoso auxílio, sem o qual o livro não existiria, dos valiosos parceiros de cadeia do Presídio Moniz Sodré, da antiga Penitenciária Doutor Serrano Neves, Bangu III, e da potência humana dos encarcerados da Penitenciária Elizabeth Sá Rego, a Bangu V; com os quais estarei eternamente.

Sempre tive medo das privatizações das prisões; ao mesmo tempo tenho minhas dúvidas se é ou será ruim, misturadas com uma ponta de certeza. E sobre qual é esta certeza diremos a seguir. Durante tantos anos convivendo com as multidões cada vez mais crescentes de presos, elas mesmas, as multidões, me mostravam e comprovavam, que se havia como há grandes gastos com prisão no Brasil da ordem do bilhão, é porque existem em contrapartida grandes lucros. E estes lucros é que são amedrontadores. Amedrontadores porque são e produzem o bem-estar de alguém, grupos empresariais e de negócios, que agarrados ao filão de ouro chamado prisão, nunca mais na ordem das coisas vão querer largá-lo, antes defendê-lo a unhas e dentes, isto é com todas as armas, e mais cada vez mais. E este é o meu grande medo, de se historicizar tornando-se uma grande era, a das prisões.

Ao mesmo tempo havia e há outro objeto de apreensões, de indagações. Porque notara e noto fortes anseios empresariais privados, inclusive talvez de capital estrangeiro, para abocanhar a gestão do gigante complexo penitenciário brasileiro, mas o passo à frente nunca foi dado, como não ainda no momento em que escrevo estas linhas. Assim há empecilhos de interesses, que com certeza produzem lutas e quebras-de-braço nos bastidores do poder. Ao se chegar a um acordo, então a coisa explode de vez se resolvendo, e entramos em outro tão requerido momento. E é desse momento que mais tenho medo, na verdade intenso horror. E digo a seguir por quê.

Na ordem hoje natural de mundo, qualquer e todo proprietário de fábrica lucrativa, jamais quer ou deseja que ela acabe. Pelo menos num fim lutará para que ela a tal fábrica se mantenha a mesma. Num primeiro e grandioso plano, ao se privatizar as prisões brasileiras, o desejo de mais capital e lucro brigará para a produção e aparecimento de mais insumos, e estes os futuros e certeiros presos. Haverá em nosso social, como já existe hoje e há tempos, só que com mais vigor, toda uma estrutura complexa e lucrativa de fornecimento. O preso em suas múltiplas formas necessita e é inventado, ou seja produzido, em cada vez maiores escalas e estratégias. Fabricar presos e modelos de presos, será como já é hoje, um outro passo porque mais consolidado, de produção. E para que isso ocorra claro, haverá que se ampliar, semeando e nutrindo como um campo de trigo, a nossa miséria social formadora. Assim conclui-se, cada unidade prisional não passa e é só um depósito armazenador final, um silo de carne humana.

Ainda sonho com prisão. E creio não ser o único dos que passam por ela, como os guardas além dos presos. A grade nos atinge num ponto não só crucial, ou seja decisivo, porém o mais primordial de todos os outros na existência, o andar. Quem não anda não vive. A quebra bruta desse direito e função do corpo produz alterações, mudanças e mortes no indivíduo. Perde-se o mundo. E essa perda nos tira a certeza da vida. Todo pós-preso nunca é o mesmo de antes da prisão. Muitos passam a manifestar traumas amedrontadores, reagindo com terror e susto em contato com coisas e ambientes transformados na hora em prisão. A percepção se torna enganosa, o que não é pode ser que seja; melhor, é o que não é. No sonho o ambiente carcerário é tenebroso, num mundo sufocante de indesejável torpor. Surge por vezes em forma cinzenta com toques de escuridão, copiando as cores do inferno da tradição humana.

O meu sonhar e de quem quer que seja, mostra e prova como a grade prisional nos atinge, alcançando camadas profundas do eu. Prende-se a alma e o espírito ao se encarcerar o corpo. De forma lenta mas gradual age atingindo também todos os trabalhadores que lidam com presos; porém muito mais ainda e principalmente, aqueles que exercem atividades no interior do miolo como dizem, o local aonde ficam os presos, a carceragem. Porque a prisão é antes de tudo e sempre a carceragem, o encarceramento, a morte total do andar, do ir e do vir; que toda criança que aprende não quer nunca mais parar. Talvez a ideia e fé da eternidade religiosa venha daí, desse não querer mais parar. E a prisão momentaneamente ou não quebra e rompe isso, essa nossa pulsão primordial do andar, nascedouro e permanência de todo o existir, do ser. Prisão não é só a física, também as simbólicas; e estas existem e atuam no homem e grupos sociais, talvez com uma onipresença e onisciência pouco ou nada sentidas. Lembro agora de uma tela: sob um foco de claridade opaca um grupo de prisioneiros andam em círculo, enquanto dois guardas indiferentes conversam; o mundo está parado ali, semimorto. A invenção do muro é o contrário negativo do caminho e da porta.

( Avanços estes referidos ao episódio sangrento da madrugada de 24 de maio de 2022 na Vila Cruzeiro, como também aos anteriores a ele e aos demais que ainda estão por vir, na Cidade do Rio de Janeiro. )

Contar o quê agora se já morreram todos os que tinham que morrer. Nem lamentar, que seria clichê enfadonho, vulgar e inútil. Estamos avançando no aprendizado fundamental de nos matar e nos morrer. Aos poucos nos acostumando e nos aceitando cada vez mais quanto a isso: a banalidade do mal em caixões, corpos e cemitérios. O dia seguinte depois de tudo entra no campo confortável da rotina. Afinal todo mundo vai mesmo morrer um dia. O baque da perda vai ficando aceitável e então deixando de existir, quem sabe depois amável. Podendo ser que entremos em outro estágio de vida e de morte desconhecido. Podendo ser que num futuro próximo choremos de alegria e não mais de tristeza, numa simples e só animal inversão de valor e sentimento do estado de choro. Que as mães passarão ao desejo de chorar por seus filhos derrubados por tiros. Não só a polícia, mas todas as forças e formas de repressão serão sempre bem-vindas. Montes de cadáveres a suprema glória. As casas funerárias se regozijarão. Meninos aceitarão ansiantes o brilhante futuro promissor da morte certeira a tiros antes dos trinta. As balas nunca mais serão perdidas. Num céu, outra forma de controle de vida e de população vai nos chegando aos poucos, sem embates morais e religiosos cansativos e jamais resolvidos. Pelo tiro do confronto armado sempre será melhor; sem invocações falsas de Deus e tudo pela existência do Bem. Nada de um sujo de sangue que só um balde d’água nunca resolva, podendo ser de reuso ou mesmo suja. A calçada ou o piso da poça e do rio coalhado vermelho não têm memória; são frios, mesmo no escaldo do quente verão. Num ganho de mais vida, o marginal que morreu deixou inchada barriga de mãe, para que seu filho também ao morrer fuzilado afirme e moralize a existência da lei. A moça da gadanha e do capuz se regozija feliz.

Meu pé já quase alcançava a Rio Branco pela ponta da São José*. Eis que direto a mim sem aviso mão me esticava um cigarro. O brusco fez agressivos mas não me assustou. Em bate-volta recusei o esticado cigarro. O rosto que vi disse o anormal de si mesmo e puxou muita coisa, que me pôs a soletrar.

Depois já longe da mão e do cigarro à espera do ônibus, eu e um rapazola. Dois no tempo e no silêncio da noite. “Passa rápido o celular”*! Com mão em forma de arma em ponto de tiro, gestos e rosto agressivos, o negro violento exigia ao rapaz. Pus-me em guarda de segurança e alerta. O assustado rapaz tremia sem cor não sabendo o que fazer. Balbuciava retraído de não ter um celular. Para amenizar mostrava um dinheiro na mão. Em repentino como chegou, o assaltante desarmou a arma do indicador apontando e sem pegar nada sumiu. A esfriar o clima que ficou e instruir, eu disse ao ainda atônito jovem, que quando assim acontecesse sem arma verdadeira não entregasse nada. Meu ônibus de embarque chegou e eu também me fui.

A caminho na viagem completei-me. A mão do cigarro de antes fora a mesma da arma, a cor me marcara. A acertar-me costurei pensativo pedaços fazendo história, que contaria ao rapaz. Que a mesma mão em arma já estivera comigo só que ofertando um cigarro, mas também à frente como em ataque de assalto. Que recusei o tal cigarro e não aconteceu nada. Nos mostraria a eu e a ele, que perto bem dali noites antes, o mesmo atlético braço com a mão em pistola, no choque de ver três polícias fardados atirou em série exclamando mortes raivoso. Ao que os três alvos polícias desataram a rir, mostrando saber da loucura que os atacava sem perigo. “Ele quer morrer!” Exclamou mulher que vira tudo. “Negro e fazendo aquilo.” Completou.

A imaginar um ponto de luz clareador, disse-me e também ao jovem do ponto, que a insânia agressiva em forma de assalto e de guerra, vinha da própria história de vida de quem havíamos conhecido naquela noite.

Notas:

Avenida Rio Branco e Rua São José, vias urbanas da Cidade do Rio de Janeiro.

Celular, telefone móvel no Brasil.

Em memória de Elias Canetti

Habita compacta grandes construções, as prisões ou penitenciárias. Os indivíduos que a compõem, chegam nela por uma determinação jurídica de aprisionamento. A permanência como elemento ou um dos integrantes da massa, varia conforme as condenações individuais. Existe uma característica comum a todos, o cumprimento de uma sentença ou sentenças criminais. A quantidade e a realidade da massa difere de país para país, às vezes muito. Morar e só viver em grupo a grande condição geral. O preso, grão ou unidade da massa, é um objeto manipulável pelos guardas seguindo rotinas de segurança. Por ele se encontrar obrigatório confinado em espaço coletivo, as intimidades são e ficam alteradas. Banhos e defecações são quase sempre em grupo. Cada indivíduo está num meio de estranhos, com origens diferentes da dele. A vida é apertada entre quatro paredes, sem janelas e sem portas, não tem rua nem calçada. Só se vive aonde se mora. Acostumar-se ou suportar o mesmo pequeno espaço é o real de vida de cada um, e assim da massa inteira. Arrumada sentada num chão de pátio só de cuecas, a massa submissa possui uma formação de fiel obediência; guardas fortemente armados vigiam. O aumento ou a diminuição da massa tem a ver com negatividade e positividade. É a massa socialmente mais indesejada, geralmente alojada em lugares isolados e distantes. Massa aqui significa grupo ou multidão de indivíduos com a mesma realidade social, neste caso de condenados. O espaço prisional é um constante coletivo, ou seja, agrupamento de indivíduos sem nenhum descanso. Histórias de apertos e situações extremas foram ouvidas. Num cubículo pequeno todos dormem em valete, costas com costas e pés com cabeça. Num outro a massa se compacta mais ainda, com indivíduos dormindo em pé, amparados pelos sovacos por lençóis amarrados no teto. Casos de espaços tão minúsculos de ficarem só em pé, com uns poucos sentando em rodízios. Para a segurança prisional a massa carcerária não tem vontade, só obediência.

Em necessidades ou situações de segurança, a massa carcerária é transferida de prisão. O substantivo pessoa é evitado e até censurado pelo poder, para nomear e qualificar quem está em carceragem; eles não são pessoas. A rotina da prisão é quem instrui e determina toda e qualquer condição de vida na massa. A muralha estabelece o território. O poder, pela ordem e burocracia, executa o sentenciado de cada um, e assim da massa total.

A massa carcerária pode se tornar perigosa, até muito amedrontadora. Saber manipular os elementos dela é a grande artimanha do poder. Conforme o caso confinar num único espaço, ou separá-los distantes e incomunicáveis. Relações encarceradas podem produzir coisas e situações fora de controle, como às vezes produzem.

Mulher na foto destaque sai da prisão em tornozeleira*. Não está sozinha. Junto e grudado ao seu corpo a exalar-se, retocado glamour em roupas bem alinhadas e o colorido do tênis novo. Caminha em corpo ereto e grande definição no andar, o saber aonde ir. Num close em quase três por quatro abaixo da grande pose, a tornozeleira no centro de tudo. Ao redor ainda no três por quatro, o acabamento alinhado da calça comprida que a veste, mais a meia delicada e parte do tênis, são um mundo de quase moda. Ela mulher esperta, sabe que ali pode ser o início de um grande estrelato. O riscado vem de antes por não ser presidiária moribunda do geral. De classe média talvez em mais ascensão, luz da mídia lhe dispõe imagens e espaços de frente em jornal popular. Paisagem que vende e as pessoas comentam em afins. O holofote de página não se apagou por aí, o tudo e principal é que fez sexo no chão das grades com o seu advogado. Copular em proibido é mais gostoso. A delinquente-modelo até engravidou, recheia o tabloide barato.

Estamos por avanços dos já traçados. O abominado das grades e a treva de cubículo arrebataram-se em cultura na TV. Os atores não são os sujos de lá; a muralha brilha higiênica nas comarcas e nos corpos bonitos das luzes. Me lembra a professora primária, com forte nojo das páginas emporcalhadas sobre a minha carteira escolar de escrever; eliminando censurante com a sua borracha as dejetas garatujas; gabando a higiene pura do muito bem feito num caderninho exemplar. As prisões se mostram num caderninho exemplar. Faltam no arranjo de cena Mariana e Brumadinho*. Matar está cada vez mais cult. Desde que seja só com a mão do palhaço que nos entretém.

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Tornozeleira: aparelho que monitora um condenado em regime de prisão condicional; ou seja, já solto mas vigiado e controlado pelo citado aparelho ligado a uma rede de comunicação. Fica atado próximo ao tornozelo de quem o usa, daí seu nome.

Mariana e Brumadinho: duas represas de mineração brasileiras com dejetos altamente venenosos e poluentes. Que ao se romperem, mataram muitas centenas de vidas em povoados, destruíram natureza e mundos.

Arrancam o chapéu da minha cabeça. No golpe viro-me e ainda vejo a mão e o corpo do menor delinquente a roubar-me. Embruto-me, e sem trégua bato violento na lateral do ônibus a que o motorista espere. Subo no veículo falando baixo mas em frases ameaçadoras. Estavam três menores únicos nos bancos detrás. A voz me falou primeiro em polícia porém logo a seguir endireitei-me, a cabeça bandida me auxiliou. E assim ameacei de “passar”*; alertei sobre as grades de Gericinó em tonalidades do crime. Ao ouvir-me dois deles os mais pequenos balançaram, tremeram. O maior, no último banco e sozinho, com o chapéu na mão fingia segurança. Com uma sacola de mão, eu podia puxar dali uma pistola. Meu corpo vociferava inesperados. Logo ainda de início tentaram enganar-me com papos falsos de delinquentes, mas ali meus ouvidos já estavam bandidos. Sem afinal saberem quem eu era, na precaução das próprias vidas devolveram-me o adereço de cabeça surrupiado. Rolou um perde-ganha da guerra. Tentaram e não levaram. O velho desconhecido quase vítima talvez fosse um polícia, ou então um traficante aposentado das prisões de Gericinó, com trinta anos de condenações corridas. Desci do coletivo urbano ainda bastante ameaçador. Trocamos eu ele, o menor maior chefe dos outros dois, despedidas inimigas e zombeteiras. No lance, a pequena multidão à espera de condução, estávamos à noite, torcera muito favorável ao meu sucesso. Rostos dirigiam-me brilhos de alguém herói. A tarefa escolar antiga fora executada com certo desempenho, quase num dez professoral.

Repassemos com dois discípulos por nossa academia de formação. Luz clássica acendeu na escuridão da cela escolar; liberdade em pensamento nos disse que periculosidade é qualidade de perito. Corri já em casa ao idioma latino e encontrei PERITUS e PERICULUM muito bem relacionados, antes porque na cara com o mesmo radical. Quando meus olhos não sabiam ver, eles delinquentes inteligentes me clareavam à frente. “Sabe professor”, me disse outro orientador bandido, “lá fora, ao tentarem te ganhar num assalto ou roubo, nunca deixa te perceberem quem você é; o mistério produz cegueiras e dúvidas; e assim quem te aborda pode ganhar mas também pode perder”; já numa lição periculosa para mim.

Agora aos currais linguísticos e aos bois domesticados. Como já visto, periculosidade vem do Latim PERICULUM, significando capacidade de realizar. Agregado pela gramática dos palácios ao mal, na formação do discurso de dominação e controle, o vocábulo latino ajusta-se e funciona na estratégia do limite, do não permitido. Verdadeiramente realizar está na altura da liberdade, e pior, na de inteligência não autorizada.

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Nota do autor: passar, matar. Passei ele para outro mundo, por exemplo.

Nossa literatura é traficante.

Delinquente da linguagem, eu planejo ainda muitas frases periculosas hediondas. Lembro aqui dos meus parceiros bandidos da CDD*, que colocaram faixa na rua proibindo todo morador de roubar. A faixa logo julgada criminosa, foi de imediato retirada pela ação e justiça da polícia. A imprensa que noticiou este fato, torpe e desdenhante, riu de nós, meros favelados do tráfico disse ela. Já escrevi o a seguir em outro lugar, mas pela importância necessito redizer. Medroso e de pequenos roubos inglórios, só quase já velho consegui, mais do que cometer um grande assassinato foi entrar numa área fatalmente proibida; isto é, me entregar total a só ler e escrever. Na contraordem como a faixa citada acima, eu sou e estou um fora-da-lei. Que todo favelado jamais pode alcançar o interdito pelo nosso social e jurídico. E pensar e rabiscar é um deles; mesmo que em garatujas populares num pano de faixa.

O crime da favela está no dizer da própria faixa. E nunca só num pedaço de pano qualquer, esticado entre dois postes em lugar visível. Qual foi e é o mundo social e da linguagem que necessitou a frase da faixa existir, perguntamos nós. O desejo em forma de ordem surgiu na favela, e mais do que desejar ordem ele é uma contraordem. A própria presteza da polícia em retirar a faixa e destruí-la configura a prova do crime. Mas já não o crime da favela e sim o que está fora dela. A mão da farda e a lei agem no contrassenso da ordem. Ou seja, no contrassenso dos olhares favelares e do crime de morro, porém na lógica e moral do estado. Talvez mais do que proibir o afano nas casas, barracos, ruas e becos, a letra bandida tenha atingido outros crimes, que não podem pela justiça jamais deixarem de acontecer. Porque se deixarem, será outra justiça; esta horrivelmente indesejada no momento.

Retornemos ao nosso crimezinho de prisão e de favela. Notar como sou irônico aqui. A moral de ser mais criminoso do que já era, me foi outorgada pela experiência cadeiante das grades. E então assim estou dentro da lapidar e sábia frase: “a prisão só forma bandido”. Mas eu nunca tirei diploma, a escola do crime não tem burocracia; sendo esta a grande lição, a ausência total do documento. Só a garganta e a mente escrevem em nossos ouvidos. Nossas falas assentam e atestam o produzido e o escolhido. A grade de suspeição e prova do documento não existe entre nós. O papo quando preciso é reto. Sou um homicida da ordem no lema da bandeira brasileira.

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Nota: CDD, sigla de Cidade de Deus, bairro popular do Rio de Janeiro.

A nossa origem nunca era ali. Já chegamos todos adultos e assim formados. Mesmo nas prisões de menores, chamadas de socioeducativas, ninguém usa mais fraldas. Num amigável tempo bem avançado, meus companheiros do crime sempre me diziam que eu ainda seria famoso. Como falavam de uma forma verdadeira e assim convincente, me incomodava. Eu nunca sabia dizer um quê de resposta, nem ao menos um falso ou verdadeiro “obrigado”. O elogio não vinha solto, atrás dele havia a palavra “escritor”. A minha falta de entendimento possuía suas grandes razões. Eu não sabia, muito mais nem ao menos pensava, como escrever um livro. Nas poucas escolas por onde passei, parcamente só líamos enganosas cartilhas. Jamais houve um professor ou professora, que nos dissesse algo sobre páginas, capítulos e títulos. Quando muito, murmuravam em preenchimentos fúteis sobre inícios, meios e fins ao falar de redações. Penso hoje que muitos mestres, certamente o quase total deles, nunca escreveram alguma coisa, nem umas linhas. Quem sabe também se liam.

Nos tempos de lá ainda, naquelas multidões apertadas de presos, nada na minha cabeça havia. Todos nós, afoitos e desesperados, só queríamos sair dali. Nunca se formava uma consciência, a mínima que fosse. Talvez os elogios a mim quisessem dizê-la, formá-la. Nisto há um foco contrário que a impede, e a prova é que existe uma vontade nossa; vontade de escrever e de contar. Quando mais soltos nas grades, lembrávamos histórias das ruas e nos dizíamos, quase como um grupo alegre numa mesa de comida. Mas então era preciso pensar sobre isso, de onde e como viemos cada um até chegar ali. E para tal tínhamos que ter uma fórmula. Mesmo que alguns lêssemos, ninguém possuía um diploma de literatura. Até as cartas mandadas da prisão para a rua aos parentes e as chegadas, foram sumindo; hoje nem sei se existem ou se escrevem mais, num mutismo analfabeto talvez quase pleno. Nossa letra brasileira sempre foi tacanha e preguiçosa em garatujas mal balbuciadas, por certo muito reprimida. Falo da maioria, e não da minoria em constante regalo.

Sem escape nós presos viemos de um lugar social único. As coisas existem e funcionam por estratégias longas e bem marcadas. Então que fôssemos contando nossas histórias particulares, a ver se tinham um cenário de fundo comum ou não, suas identidades e diferenças. Mas estou falando num passado que nunca existiu, um saber do mundo global nosso de prisão. Observo hoje que cada escritor possui a sua fórmula mental e de escrita. É preciso deixar sair, libertar-se do que nos prendia e prende, do que nem nos permite dizer de nós mesmos.

Existe um impedimento histórico, não tive biblioteca de formação. Favela não nos dispõe de livros. Nas casas e famílias, não possuímos tempo e oportunidade de arrumarmos alguns volumes, por menores que sejam, nalguma prateleira visível. Ser escritor é um termo desconhecido ou inalcançável em nossas falas. Favela é só mãe de trabalhadores* e de bandidos. Assim claro, não sei, nunca poderei saber, de onde ou como meus amigos tiraram a ideia, sonhante para mim, de que eu escreveria livros. Ser escritor nunca passou eu menino pela minha cabeça. Antes porque desconhecia a palavra “escritor” e a sua função. O único livro mais do que permitido, desejável e obrigatório no lar era a Bíblia. Ela, hoje reconheço, a minha única biblioteca de formação. A favela mesmo não pode escrever, não pode contar a sua história, só os outros que a veem de longe ou de muito longe. Como resolver isso, não sei, não sei. Talvez eu nunca possa saber.

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Nota do autor: quando falo trabalhadores refiro-me aos mais simples, geralmente os de baixos salários. Ser arquiteto é inalcançável para um favelado. Valendo-nos repetir e assim realçar aqui, que um candidato à cadeira de juiz, se descoberto em seus trabalhos de formação a palavra “favela”, fica automaticamente indeferida sua aceitação na magistratura; ele não pode ser juiz.