Num ponto superior de formação comecei a ter meus internos cuidados. E eles tinham que ser bem maiores, mais periculosos por assim dizer, do que todos os dos meus parceiros de prisão. Ou seja, lidar também com eles presos em enorme precaução. Por estarem só trancados naquela caverna sem ver a luz, poderiam envolver-me num erro em conjunto e então me levar de ralo. Havia uma linha, marcação de fronteira ou precipício, que meus olhos tinham que enxergar e muito bem. O pior de tudo que ela, a tal linha de fronteira se mexia ou se falseava, obrigando-me a contar com imprevistos e sortes. Como pior ainda, o ter sempre guardado num cantinho de mim de que qualquer hora podia rodar, perder todo o plano de ação, sendo expulso definitivo das prisões. Além disso, com a marca bem mundana pública, de que eu nunca passava de um demônio bandido; fechado de corpo e alma com todo o mal encarcerado nas prisões de Gericinó.

Não haveria atenuante. Antes porque ainda não existia, não inventada pelos homens da lei, a salvadora delação premiada. Que mesmo assim, caso já houvesse na minha época de preso, pela natureza da justiça ela a delação premiada nunca me caberia. Como ousas, me perguntaria um juizinho bundão qualquer caso eu a requeresse. Nascido num morro que nem lembrava mais o nome, que nem sei também se tinha, não carrego nenhuma dignidade de identificação de origem; tipo sou do Borel, Alemão, Vila Vintém ou algo de favela assim; todos lugares que poderiam me dar algum gentílico.

Mas voltemos à coisa mesma. Vagabundo e misturado diário, eu não podia dar mole em todos os lados, no meu de bandido, no dos internos e por último no lado da lei. Como já nos lembrei, não havia delação premiada. Primeiro também por ter que se perguntar, se nós do crime de favela ou periferia podíamos ser premiados em alguma coisa. Antes do primeiro por não sermos ricos. Mas bem antes do antes pelas origens. Só se premia os bem nascidos, que já é a premiação primordial. Com a vida já nasce a inclusão ou não. Mas no meu tempo de carceragem, o termo delação premiada não chegara ainda ao mundo por total falta de necessidade. O roubo desenfreado dos políticos brasileiros e seus asseclas não se tornara público, não se mundanizara. Todos naquela época agiam numa certa surdina, sabia-se de leve, mas toda a nação perdoava ou aceitava, no silêncio social cúmplice. Estourada a coisa, como um bicho podre que não se queria ver, nasceu o doce chocolate da lei. Se você dedo-duro delatar alguém, colaborando fiel e cúmplice com a justiça, serás premiado. De dez anos você condenado vira só meio ano, quem sabe mais certo um nada de carceragem, no modo social dos marqueses.

Meu plano geral criminoso era bem simples, conseguir passar por tudo sem perder, no rigor vivenciar, para ter muitas penas e letras depois para escrever. Quem sabe meu grande crime esteja sendo este agora, a pôr-me trabalhoso e feliz só a lembrar.

Bandido virei polícia. Conto agora miúdo como foi. Nas hastes da vida fui me misturando criminoso ao crime, a carceragem cada vez mais comigo; tudo em nós e por nós se amarrando, até em nós se contar só irmãos. De fora perceberam que aos sustos e rebeliões bandidas eu nunca estava, ou seja sempre a salvo. Quando a prisão explodia, alombrava, e queimava ardoroso o espírito em revolta, eu professor era marcado ausente. Minha pele não podia sofrer ou queimar, ordem e decisão coletiva. O crime protege amigos. Demorei também a me sentir à coisa, que nossos corpos e mãos se uniam para tudo. Fechado junto eu já estava. Mas nunca me gloriava de proteção, não precisava. Só nossa relação nos baseava, em laços e afetos do ser. Porém ao ser de fora isso me marcava. Professor, meu nome não constava do registro carcerário como documentado bandido, mesmo sendo fiel do crime como eles.

Então dentro da pureza escolar virei peça suja. Começaram assim muito a desconfiar de mim os da segurança, e quem sabe todo o mais. Talvez que eu levasse comigo recados criminosos pelo cofre secreto mental. Da prisão se pode mandar no mundo de fora, também executar. E assim aos olhos mais bandido. No aristotélico de quem é amigo protege, fiquei todo pelo crime, na lição de que amizade e lei jurídica nunca se confundem, outro saber do Estagirita. Mas vamos lá ao delito, continuemos. Por lógica e necessidade, tínhamos eu professor e o crime coletivo nossos sinais humanos e secretos de segurança: pode entrar ou não pode entrar; vai virar a cadeia ou não vai explodir. Tá limpo ou tá sujo melhor dizendo, num simples aceno de mão ou na falta dele. Nos falávamos fiéis e sinceros já a distância. Um guarda de portaria um dia mesmo que inocente, me lembrou da minha grande precaução, ao mínimo sinal eu já não entrava nas grades, pois que podia depois não sair, agarrado refém do coletivo bandido revoltado.

Mas como tudo no mundo madura, os tatos foram deveizando. Ao me terem a vigilância na carceragem a coisa estava tranquila lá dentro, concluíam, nada de perigo a acontecer. Fiquei boia bom sinal na água funda bandida; marca de polícia no campo deles os ruins. Na troca, mas confusão, isso me libertava mais, enganando quem nos vigiava de fora, na vesgaria.

Faço crônicas. Um passo maduro que dei, já com alguma coisa em avanço, foi quando li uns textos menores do Pamuk. Antes aconteciam já as crônicas, pois que a mão e a cabeça conseguiam pequenas histórias. Só com o passar e um amadurecer nunca acabado as frases e parágrafos foram melhor saindo. Também que por dentro, formou-se em mim um conceito, uma estética. Algumas delas saem com pouco ímpeto, com um pouco de brandura, como se a própria brandura fosse ou seja sua tonalidade de pintura, de paisagem. Umas outras saem de mim num ímpeto voraz de se pôr ao papel, ao mundo. Destas são as que eu gosto mais, me sendo como um soco que dou ao mundo que quero atingir. Uma ou outra das brandas ligo-as a uma espécie de boas e certeiras facadas que dou; que por vezes terminadas, ensaio movimentos agressivos e esmurrantes no ar, numa forma de desafogo e afirmação. Atingi o que queria. Sou um assassino. Por vezes me questionei em consciência, se caso matasse acertado quem eu queria, se haveria arrependimento ou culpa, descobri que não; talvez que até me desse um lastro moral. Certas crônicas demoram a sair, levando-me dois dias, num parimento mais prazeroso que cruel. Uma palavra faltosa ou errada me põe em constante desassossego, numa pequena angústia que o move e o mantém. Leio e releio infinitamente o rascunho até acertar; embora quase nunca sabendo antes o quê. Certas horas os olhos me dizem que falta, num vazio entre palavras, como num trecho de escada faltando degrau. Ou, por outras, a palavra não diz, tendo que assim trocá-la pela correta que vem. Mas todas as palavras têm a sua serventia de quase igual valor; que mesmo as erradas, as que entortam o texto ou não dizem até nada, estão e me dão uma direção: olha, eu não sou daqui. Repetir-me numa frase já escrita, mesmo que numa crônica distante, me causa dissabor. Repeti-la só se a ênfase exigir. Nos últimos anos penso em crônicas continuamente, como algo a terminar ou que nunca se conclui. Criei um outro universo paralelo, o da escrita, por dentro de mim. Que o do pensar antes já estava.

Violentam o sexo e atazanam as meninas de corpo inteiro, o Ministério Público vai apurar, leio tal ponta de Inferno no jornal. Ainda eu carteiro décadas atrás, vozes correntes dos meus amigos de cartas e entregas, nos diziam que nas casas de correção de mulheres menores, as mesmas do jornal acima na Ilha do Governador,* era costume liberarem as mais bonitinhas para se prostituírem durante o dia pelas ruas, com o dinheiro ganho indo para as mãos dos guardas; formando assim um esquema diário social de exploração das carnes juvenis e talvez infantis.

Numa época próxima da atual em qual escrevo, grandes e destacosas reportagens nas folhas fluíram sobre castigos cruéis, em intensidades de requintes sádicas, sobre as jovens aprisionadas ditas em educativos. Pelo que sentimos e sabemos a grita não passou daí, de enorme encenação midiática enganadora com grande fundo moral. E o Ministério Público Brasileiro se pronunciou num discurso de alto conhecedor da coisa, defensor dos direitos humanos, mas entremeado e no corpo de tudo falas clichês e muita propaganda. Tanto que recentemente a mesma baila se fez, se repetiu, como já dito no início, num grito mudo das bocas das meninas em martírios, e a posição moralista da investigação ministerial em rigor de falas.

Pelo dantesco disso e mais, muito mais, por aquelas dependências grutas escuras lacradas aos ouvidos da grande população, há um longo grito de sufocação mortal e intensa dor humana em constante ecoar, porém tornado socialmente mudo. Talvez lá não estejam pessoas, e muito menos porque mulheres. O próprio Estado que tortura fingindo reeducar encena enganoso socorro e cuidar; aquele o reeducar pelos braços do encarceramento e estes pelas mãos da atenciosa justiça.

  • Ilha do Governador: bairro da Cidade do Rio de Janeiro, Brasil.

Guardas se provavam inúteis e perigosos, não serviam à função de encarcerar. Percebíamos que admitidos e chegados ainda crus das escolas de formação, lhes punham logo nos miolos das cadeias a mexer com presos, cadeados, grades e amontoados que somos nós; tudo isso como uma prova de chegada. Até aos mínimos sinais de roupas, sapatos ou gestos, eram analisados e podiam ficar a bater cadeados e controlar coletivos prisionais, ou sair do encarceramento para nunca mais voltar. Uma cor mais colorida de roupa ou adorno fora dos preceitos e cânones machistas, tornava já tudo suspeito e frágil. Rosa ou matizes em conjunto lembrando arco-íris nem pensar. Mas podia ser também uma outra cor que revelasse fora da ordem; a vermelha nem chegava nas portarias penitenciárias, só em cuecas invisíveis e calcinhas. Um lenço rubro servia de chacota entre guardas, no cogitar que já está se fechado cúmplice com os bandidos do Comando Vermelho. Mão masculina com unhas bem feitas, portando anelzinho carinhoso e então suspeito no dedo mindim ou outro qualquer, punha o guarda ainda novato no campo do feminino. Um chaveirinho de pelúcia marca de viadagem. Nunca vi funcionário-polícia com cabelo grande ou corte mais atraente. Modos de se mexer, tonalidades e trejeitos diferentes de voz e boca sentidos o mínimo de fêmea, diziam e denunciavam o não servir. Só trabalhava direto com a multidão encarcerada, se houvesse o anormal no sexo do guarda muitíssimo enrustido para não se notar e assim ser útil. Guarda não-macho ia mexer com papéis da burocracia e outros afazeres longe dos corpos bandidos. Podia acontecer um escândalo.

Scales of Justice on table, Weight Scale, Balance.

Em uma época tínhamos modernos fuzis e farta munição; mais umas pistolas artesanais perfeitas de madeira para completar-nos em caso de ação. Meus amigos ficavam envolvidos em trazer para dentro o maior número possível; aquilo possuía um fim que todos nós sabíamos. Medroso e precavido eu não me metia, ficava ao longe de tudo, às vezes nem olhando. O cérebro ainda não, mas a alma sabia o porquê da minha isenção. Algumas coisas se passavam sem que eu as entendesse direito. Havia todo um grande plano de fora para dentro, envolvendo a guarda do plantão além do pessoal externo fazendo vista grossa ou direto no negócio, agindo, trabalhando. Todos ganhavam, incluindo o mínimo papel na treta. A bom preço, tudo acertado e pago por nós a bandidagem coletiva que nunca falhava na grana. Passado algum tempo de banho-maria, certo cozimento ou um gesto nosso dito assustador, começava a caçada de gato e rato: a polícia querendo saber aonde havíamos escondido o arsenal para tomá-lo de nós. Mas o engraçado era que a segurança que nos vendeu, ser a mesma que espalhava em inquestionáveis verdades, a acusação de que os professores e professoras é que traziam os fuzis e as munições, por vezes granada. Então, o reduto na carceragem macomunado com o crime era toda a escola, inclusive suas paredes com secretos e poderosos cafofos cheios de pistolas. Quando na real, das bocas das celas víamos os mestres e mestras passando meio medrosos pela ala, entrando e saindo das grades antes e depois das aulas. Mais assombroso ainda, não existir nenhum não a esta falácia oficial e pública. No registro aqui, que todos, sem exceção, passam por uma portaria com minuciosa revista. À noite no catre, lembrando dos trabalhos de entrada das mercadorias proibidas na prisão, inclusive e principalmente as armas, eu me perguntava se os funcionários e então o Estado eram corruptos mesmo, ou se aquilo já não seria da natureza deles. Assim, nem havendo corrupção, quem sabe se crime.

Minhas mãos não entravam nos rolos macomunados não por pureza, mas por saber que por mais fortes que estivéssemos, presos não alcançaríamos nunca a liberdade assim só pelas armas, como não alcançamos. O Estado não permitiria, sem sombra nenhuma de dúvida, ser quebrado o laço que sempre o engorda e o mantém: a moral e o poder, qualquer que seja a parada.

Chegou a felicidade dentro da prisão. Notícia vindo de fora, comunicava que quem desejasse ser garçom se pronunciasse na boca da cela, e desse o nome na lista que passariam logo depois. As vagas eram limitadas, não havia tempo a perder. Houve quem garantisse até emprego certo no futuro para os diplomados. Que nós se arresouvesse. Aprenderíamos sobre finas comidas e coquetéis de luxo, segurar uma bandeja de serviço, também como andar direito num salão de restaurante ou bar com roupa branca e gravatinha borboleta. Até como falar o ensino instruiria, imaginem. Passada a lista dos futuros garçons esta se lotou de nomes, a sede de procura foi imediata. Como não poderia deixar de ser, após o ato de matrícula, porque a lista já era de matrícula, os adiante formandos e formados começaram a fabular felizes entre si; a manhã-prisão virou da água pro vinho, como no primeiro milagre de Cristo. A grade continuava grade, mas não a sentíamos mais. Houve alguns que se se relembraram do sonho de servir banquetes e trabalhar em lugares requintados, ricos, cheios de gente bonita. O mundo do crime finalmente seria deletado; correr e atirar em polícia agora nunca mais. Como sonho puxa sonho outros vieram juntos. Bocas já falavam em Paris, trabalhar em iates luxuosos, quem sabe nem morar mais no Brasil. Nos pensávamos já outras pessoas e mundos.

A aula logo começou dias depois com a sala cheia. Uns imediato desistiram , sem ninguém perguntar por quê. Os que ficaram, a grande maioria, só enxergavam o futuro, o curso, o aprendizado. Ser garçom tornou-se o grande ápice de nossas vidas naquele momento, enfim tudo o que desejávamos e iríamos conquistar. O mestre restauranteur como alguns de nós já dizíamos, arranhando um meio analfabeto francês, um senhor branco, alto e muito respeitoso, se entregava o máximo, explicando coisas profundas e desconhecidas para nós. Descobríamos, que até andar era difícil, nesse caso com corpo e movimentos elegantes, em outro mundo. Ensinava como segurar copos, taças, talheres e, quase um malabarista, manter no alto numa única mão a invejável bandeja cheia de coquetéis ou camarões graúdos.

Alguns de nós passamos a vir das celas para o curso mais arrumados, tomávamos até banho antes. A nova vida já começara dentro de nós, em nossa higiene e hábitos. Teve quem por necessidade voltou a ler, vivendo seus futuros se preparando para ele. Ser garçom atingiu as famílias, que os mais afoitos e talvez mais felizes participaram aos entes queridos. Para nós alunos, as histórias e ensinamentos do mestre-garçom invadia e inebriava nossos espíritos. Desde o primeiro dia de aula, a boca mestrada em iguarias e servir nos anunciou galharda, que para fechar o curso, seu apogeu nas formaturas, haveria grandioso banquete nas grades servido já por nós, recém-formados garçons. Um novo mundo atingiria a prisão inteira, na certeza de que poderíamos mudar. As noites antes de dormir para os cursantes, passaram a ser de conversas prazerosas acalentadoras, um horizonte feliz nos acenava, mais, já nos abraçava nele.

No dia de chegar enfim o material prático para treinarmos nada apareceu. Manejar louças e cristais ficou só na promessa. O professor, ressabiado e com um certo medo talvez, se desculpava conosco em revolta, ele estava buscando resolver. Sem nada de aviso o nosso castelo que era só de cartas ruiu, pois o homem do curso sumiu. Por alguns, os mais teimosos de nós, uma oca esperança mas com cara de cheia persistiu. Porém aos poucos a natureza da cadeia engoliu tudo e nos fez esquecer. E assim nos matou novamente. Houve alguém que chorou, disseram, na lágrima de mais condenação. Outros, passaram a fazer piada na hora da quentinha*, se fingindo de garçons ou em delicioso banquete. No mais, no mais da vida mesmo, e que se eternou em nós daquela prisão, a Elizabeth Sá Rego, que fomos usados para um grande roubo, este no custo do curso em fingir que se gastou dinheiro; golpe tramado e feito pela estrutura pública e a privada em concluio de quadrilha. Estudar nos passou mais uma vez esta já muito repetida lição, a de como roubar do povo sem que este se importe.


Nota do autor: quentinha nesse caso, vasilha descartável com a comida do preso.

A população cria violência contra si mesma. Está corrente que prisão é uma fábrica do mal. Fábrica do mal fomentada pelo próprio Estado com grandes interesses e lucros no agora e no depois. Explico. Ao jogar e manter todo e qualquer preso em péssimas ou as mais piores condições possíveis, incita-se e fermenta-se reações. Então é produtivo e altamente produtivo, que cada indivíduo saia livre de volta ao mundo mais bandido; bandido aqui sinônimo de ruim, do perverso, do mal. Porque quanto mais o poder público põe de volta ao mundo a violência fomentada, e pronta para agir nos corpos que saem libertos das prisões, mais as estruturas e instituições do poder terão justificativas perenes e ditas justas para subir morros, agredir pessoas, violentar casas e famílias e no fim muito matar. Cria-se estratégias no conforme e assim a razão da lei e da justiça. Combatemos o mal, prova então a ordem acionada do Estado.

Também tão importante notar, como as agências públicas e privadas da informação circulam os conceitos de Bem e do Mal. Não nos cabe aqui dizer o que seja um e outro, mas frisarmos muito, de que para o Estado Bem é tudo o que sai de si, mesmo que seja a morte, e Mal tudo o que vai em contrário a ele, a ordem pública assentada, mesmo que seja vida. O legal e o ilegal determinam tudo. Está na lei é bom, não está é ruim. Ainda mais, nossas casas legislativas em todas as esferas, grandes e infinitas produtoras de calhamaços do que se pode e do que não, se autocobrem de flores e lauréis como fontes de felicidade e proteção.

Mas voltando à produção bandida. Depois que o Estado brasileiro se firmou nisso, de produzir cada vez mais o mal para justificar combatê-lo no tiro e na morte, é capital que ele não perca esse intinerário, essa linha do trem. De um lado vomitando violência e de outro catequizando a nação para degustá-la.

Um fim contrário depois do fim. Nosso universo carcerário brasileiro, hoje o terceiro maior do mundo em população, obviamente tem um custo pesado e quem paga esse preço é o povo via impostos. Mas ao mesmo tempo que paga o nosso custo penal, o homem comum concorda e apoia não só com a manutenção desse alto custo, como também do seu aumento em mais prisões e intensidades maiores nos castigos físicos e sociais no preso. Isto fica e está bem claro na ideia circulante geral no povo, de que prisões têm que ser o pior dos mundos possíveis e mais possíveis, retroalimentando a própria violência que o castiga e o mata.

Toda nossa epopeia prisional de entrar e sair, ir e voltar como Ulisses, necessita de nós mesmos alguma decifração. A começar que tudo foi memorizado sem quase data de calendário e sem planejamento de onde ir. Nosso fim era só o de chegarmos de onde partimos, nós mesmos. Cada prisioneiro no turbilhão das ondas em constante perigo junto. O mar sempre revolto. A prisão fixa mexia-se sem parar, às vezes no pico de altas ondas. Acontecia de mares serenos, mas nossas águas eram profundas; mesmo que rasas, desconhecidas. Cada liberdade que sai um Ulisses que volta. Sempre navegando. Há um porto de chegada. Nossos remos nunca se cansam, nunca hão de cansar.

Trabalho feito de memória. Cada crônica que sai um episódio vivido. Somos vida e o nosso próprio mar. Quando à deriva nos damos mais as mãos. Cuidamos de ninguém afundar. Algum náufrago soçobra, mas a grande nau continua em riste. Lutamos contra grandes ventos e temporais da lida.

Minhas origens e entradas no crime vieram dos outros eu ainda menino. Dois momentos. Homens fortes acobertados por um polícia que só fingia, empurravam e jogavam ao chão sem parar um outro homem morro abaixo, rumo à cadeia. Polícias entraram correndo num quintal de roça e chutavam aos berros as costas de um negão agachado que urrava, o camburão lhe esperava. Fora os sentimentos que nos doíam muito ao presenciar, em mim vinha intensa pergunta em por que irrespondida, sendo talvez daí os nascedouros dos meus futuros. Nenhum parente meu passou por prisões, a não ser este que vos escreve. Houveram-me fortes complementos depois, com meninos iguais a mim que entraram rapazes por ele e acabaram por delegacias e carceragens; e isto também me contaminou. Só um ladrão de galinhas patos e perus me vaticinou, o Taíca, dizendo que eu tinha cara de otário mas não era otário não; botando-me já um precoce fora da lei.

Cada morte das balas públicas no automático gera o retorno. Meu filho morto por um tiro-polícia me brota vingança matadora de pai. As armas da lei furando casas e corpos semeiam ódios criminosos a pais, mães, avôs e crianças miúdas. Eu me vingarei, passa nobre e natural pelo espírito-família. Proteção vem da horda. Depois de um genocídio público em invasão domiciliar, uma parte se vitima outra se apronta aos furores do troco; e é esta parte das pessoas que responderá: todos os polícias têm que morrer. Nos ajuntamentos periferias a energia corporal se dinamiza muito mais, circula a intensidades de diferentes caminhos. Está no sangue se importar. Estamos aqui e sempre nos cuidaremos. Todo bandido como eu é parental. Eu morto, alguém mesmo que num futuro me vingará, como dois pintores desconhecidos entre si que se continuam num mesmo estilo. Pela ordem natural dos tiros nossas famílias são mais criminosas. A lei dos fóruns não subordina viver.

“Parem de nos matar!”, anunciam clamor na entrada da favela. Força-polícia invadiu e matou, num ataque ao Jacarezinho pelo maio do XXI. Os jornais mostram mas ninguém acorda. Na rotina do dia falo então outra coisa: matam no morro porque não liberam dinheiro, e polícia vive de notas garimpadas. Acrescento aos ouvidos, que isto do dinheiro como notícia eles nunca verão em jornais e tevês. Mas ainda assim e por isto mesmo continuam a não me ouvir; eu não sou a mídia, então sem boca e também sem a voz. As agências das verdades nos testam ao mostrar-nos coisas, se estamos a despertar-nos ou não.

Em toda invasão e matança pela força pública na população, me lembro no “Cabeça-de-Porco”* e sua resistência e vitória, ainda no XIX no Centro do Rio de Janeiro; nossa crônica começa ali nele. Depois a República como agora estão só seguindo o programa estourando cabeças. Só a lógica parental nossa que perdura, se enrijece e se finca, na resistência e existência da vida.

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Nota do autor: o Cabeça-de-Porco foi uma vila pobre (um cortiço), que numa tentativa primeira de desocupação dele na força pela Polícia Militar, resistiu ao ataque.