No último dia não me despedi de ninguém. Não havia sentimento de separação. Não derramei saudades antecipadas qual a maioria. Saía sem o torpor esperançoso desejante de me encontrar distante. Os muros e os portões não me diziam nada, qual ao dizer a um preso comum. Eu não saía nem entrava. Para saciar-nos numa mentira talvez aliviante ou meramente social, anunciava a um dos amigos escolhidos que “agora nos veríamos só lá fora, na Ladeira dos Tabajaras.” O sentimento de festas não passou por nós, em mim e todos os meus amigos do crime.

Do inimigo agora, pelo menso uma vez. Aos já muitos idos em tempos das minhas carceragens mas ainda muito a cumprir, funcionário solicitoso em conversa particular, sabendo-me bandido-escritor pediu umas sinceras linhas; que minha pena escrevesse sobre eles os guardas. Vejo ainda seu rosto, numa certa altivez de olhar mas recuada. Na hora voltei-lhe que um próprio guarda podia fazer isso, contar o prisional sob a ótica da mais repressão. Até eu mesmo desejaria ler, completei, como um outro aprendizado para mim.

A coisa assim maturava na cabeça. Eu a olhar um possível por parte deles; alguma mão sem arma que os escrevesse. Num dia de fala com outro guarda sobre escritos, este mostrou-me, citando frases do livro de registro da prisão, um discurso rico e pobre, analfabeto e tesouro metafórico; que alertou-me como um raro veio de ouro da língua a se descobrir.

Por mais inimigos os olhares se encontravam. Na grade eu via guardas atormentados e sofredores. Alguns deles acompanhados de comprimidos com tarja preta; os mentais de ruim a pior. As vozes não diziam nada. Cada farda prisional com a sua história; com um corpo e alma dentro. Olhando-nos sempre como perigosos e inferiores a vigiar, nunca talvez se vissem. Nem também se perguntavam. Massacrar o quê e para quem. Antes e assim saber dos seus dolores secretos de alma. Os sintomas que podem surgir e surgiam. Gestos eram neuroses. Ouvíamos pelas bocas inimigas consultas e amparos médicos, da cabeça e seus transtornos. Havia por eles um pouco de loucura silenciosa mas gritante. Entre o a cumprir de um outro para outro existe também um corpo, uma vida. E neste corpo do meio cresciam dores, ulcerações e tormentos. O impulso e o aguilhão da ordem passam também por mim, o guarda, ao executá-los no preso.

Na liberdade passei a ver os polícias inimigos com dois olhares. Primeiro o do obstáculo a destruir; segundo, com humanismo de minha parte, de que por baixo dos panos e armas se mexe também alguém. Num mirar meu a uma polícia loura, achando-a bonita e carnuda suculenta, ao sentir-se observada, mesmo armada e com outros de farda, retraiu-se amedrontada, confundindo um olhar de galanteio e paquera com o do inimigo. Em várias grandes fotos de jornais, dá pra ver como certos olhares polícias, antes mais do que com medo estão aterrorizados; revelando camadas mais profundas de si. Num barbeiro de rua, ao cuidar-me, descobri-o aos poucos ali em serviço de bico; ele também era polícia fora a tesoura. Pelos cortes mensais e máquinas houve nossos aproximos. E ele não me sabia bandido. Num dia de corte senti-o em conflitos mentais. Homem novo, clarificava mórbidos desconcertos de gestos em inseguranças absurdas. Estas sem causas aparentes, tiradas de pequenos incompreensíveis. Num adiante de dias em novo corte de cabelo, notei-o inquieto e mirando como que um invisível. Ao baixinho começou a perguntar-me em inferno compartilhado, do por que matava, por que tinha que matar. Ele assim num universo julgado louco. Sabemos que não está só. O campo da loucura e do suicídio aumentam muito pelas fardas de polícias; silenciados pela ordem do poder nos jornais.

Para nos encerrarmos nesta crônica mas ao inverso abrir-nos, vejamos que cada corpo de farda tem mulher e filhos. Possui porque está dentro de uma família. Circula e faz parte de um cosmo particular coletivo, ele e os outros. Sabemos de histórias de polícias já tão inseguros, que não podem ficar mais em casa sozinhos, mesmo que ao dia claro. Que até a companhia de uma criança os ameniza do medo, numa certa insensatez meio louca. Uma Bíblia aberta funciona como colete de proteção aos tiros. Por outra, tivemos um polícia vizinho tão doidão, que todos ao redor em nossas casas tínhamos profundo medo. Bailes loucos, armas, vozes brabas, muita droga e nudez. Pelo que víamos, ele não passava de um ápice no seu grupo de farda ao redor, com os outros em ascendentes.

Ao tocar nesse assunto mesmo que assim, não sabemos quase de nada. O mundo dos entrelaces dos corpos é misterioso infinito. Penso nos medos de uma mulher, diante das armas e gestos já irracionais do seu marido polícia; nas loucuras de mais repressão caseiras; e nas energias mórbidas sobre os filhos. Ainda, a falta na cama de um homem antes viril e agora morto, daquilo que sua mulher tanto deseja. Um campo de batalha e dor quase invisível, silenciado. Encoberto grandioso depois pela bandeira nacional sobre um caixão herói, tiros de glória e muitas trombetas.

Ouço em torno de 70% e faço rosto de falso e fraco espanto, mais para dúvida. Na confirmação do número, quem fala comigo da mesa ao lado consulta outro nosso amigo advogado. O indagado ao prático do momento na atualidade, puxa o celular e verifica no Google; 41% mais miúda fração lê e nos responde. Nossa busca surgira, porque eu ex-presidiário pronunciara 40 bem distante dos setenta, quase num matemático acerto. E trocamos naturais de assunto, como se nada de grave acontecesse.

Antes sentimos que não foi sempre assim, os mesmos números. Não temos a história das variáveis percentuais, antes porque não ligamos e assim nem sabemos. Por isso a mudança rápida de assunto para outro interesse na tabacaria. Se procuramos saber o dado matemático, na população presidiária dos julgados e dos ainda não, fica somente por um mero número tornado valor de conhecimento científico. Pois quantos já estão vivendo nas grades-prisão sem condenação, eis a questão.

Sem julgamento porque já condenados, nem precisa de perguntar. Estão nos calabouços pré-fúnebres pela corrente decisória do poder; com o palco do juiz no fórum vitrine de encenação oca. O edifício jurídico com frontal de brasileiro, nos mente por natureza de sua própria lei. Então, eu ao pronunciar os 40% dos já penitenciários ainda sem julgamento, também assim como ela a justiça brasileira estou mentindo. A parte dos encarcerados sem julgamento e a dos com é somente um único todo, o dos condenados, e para sempre nada mais que isso. Coisa talvez que qualquer juizinho de merda numa roça distante sabe, e que também produz.

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Enquanto isso, o Superior Tribunal Judiciário brasileiro, o S.T.J., discute fazendo pompa, se haverá ou não prisão em segunda instância, para tão somente os ricos e poderosos.

Não estamos em guerra, disse-me o amigo advogado e poeta na tabacaria. A frase assim quase solta num final de conversa, me pôs a pensá-la. Primeiro me veio a pergunta: com tantas milhares de mortes estamos em quê. Lembrei também, que a palavra guerra começou a ser brandida por alguns meios públicos e mídia, mas logo depois recuou, num quietismo favorável. Dias passaram, e houve cogito claro para quem matasse polícia fosse julgado por crime hediondo; entenda-se mais anos de prisão para o autor, num real estado de guerra, a exceção. E o quietismo sobre isso aconteceu, se repetiu como o anterior. Nesses dias girava por dentro de mim a questão: o que diferencia a vida de um polícia das demais. Guerra para mim é simplesmente dois lados em combate, como está acontecendo por aqui no Brasil. A ordem na direção dos suspeitos, e executada contra quem já marcados para morrer.

Há um medo medonho no cotidiano dos dias. A multidão, no movimento aparente tranquilo das ruas, corre e arregala os olhos por já qualquer barulho. Inclusive corremos de ações policiais, como se todos de nós fôssemos antecipados malfeitores. Até também porque as polícias atacam qualquer um. A população civil é parte inimiga. Por mais tranquilo, meu corpo está em constante alerta e medo. A qualquer hora um tiro pode matar-me. Uniformes cada vez mais ostentosos e potentes, armas e armas, estão mais e mais nas ruas; a vigiar-nos todos no discurso de “servir e proteger”, em amedrontos de posição e alerta. Um soldado na esquina não é sinal de paz e sim de guerra. Por dias atrás o aço dos tanques ocupou as ruas do Rio de Janeiro, e assim nossas vidas também. Então, pensativo me perguntava, se já não estaríamos nela.

No empaco do não saber, procurei encontrar-me de novo com o amigo poeta. Saber mais firme e esclarecedor com ele, por que não estamos beligerantes, se com tantos muitos milhares já enterrados a tiros, e esse espírito permanente de enfrentamentos. Num momento ele esclareceu-me. Numa guerra ou estado de guerra, tem que haver preceitos jurídicos a balizar o episódio. Tais como, disse-me o poeta, o direito da autoridade violar correspondências sem ordem judicial; o governo decretar estado de guerra, de exceção e mais. Lembro-nos aqui, que a polícia brasileira atirar tendo como horizonte de fundo a realidade das favelas, tornou-se há décadas social e legalmente implantado pelo Estado.

Estamos em qual mundo, me pergunto por dentro, de guerra ou de paz. Todos os dias escuto sirenes de ataque. Pequenos jornais vagabundos já escrevem guerra nas suas manchetes. Vemos, que o nosso conceito jurídico sobre a realidade guerra está ultrapassado, mentiroso. Mais, que sempre num jogo determinista de mundo, o discurso contínuo implante do poder se diz o deus criador de tudo.

Na paisagem da foto no jornal a realidade está perfeita. Em ação de ataque policial dispara o fuzil contra a multidão atônita e revolta. Estamos num pós-enterro mas ainda nele. O corpo de um jovem assassinado pela polícia em ação, produziu o ritual da momentânea batalha de rua. Mais um ou menos um, tanto faz a quem nos mata. Caberia na foto uma análise foucaultiana como a de Las Meninas. No instante da paisagem petrificada pelo clique da máquina, todo um quadro infernal do nosso mundo se põe. O olhar do poder e da lei só vê gestos a serem mortos. No rosto da mulher diante do fuzil atirador, pânico e ataque de registro pelo celular; ao fundo fumaça e fogo. O enterro prepara novos enterros, no doloroso, na peça nacional brasileira a prosseguir.

Mas o ataque policial mortal e repressor não é contra as pessoas e sua desordem, embora centrado nelas. O ritual, a celebração da morte é que não pode existir, tem que ser desfeito, fuzilado e logo esquecido. Uma grande fonte de sentimentos é a separação eterna; o anímico que ela produz. No instante fúnebre e triste a eternização da vida. Celebramos na morte que continuamos e continuaremos a viver. E é isto, esta resistência, que o fuzil do poder quer matar, o ajuntamento dos corpos num solidário único. Quem morreu não pode ser dado como vida morta, ordena o mandamento de Estado. Não é vida quem já morreu assim como quem ainda respira.

A multidão volta para casa mais enterrada e mais viva. Os mortos nos corpos dos vivos não se calarão. Mas os jogos e os olhos do poder se armam mais e mais… Além do morrer, enterro no Brasil virou um instante da nossa guerra. O povo inimigo não pode jamais celebrar, ainda que no choro revoltado da morte. Ataca-se com tiros a comunhão que não pode existir; a morte que pulsa em mais vida. Há um assassinato contínuo, sem pausa; e todos nós o povo objeto dele.

Vivo num certo desconhecido transformado em indagação. Quantos escrevem ou não comigo sobre prisões no Brasil. Não pergunto aqui sobre os escritos, as publicações, midiáticas ou não, quase ou sempre numa forma de saber acadêmico. Mas, saber de algum preso que se contou ou se conta depois. Alguém que experienciou e descreveu o vivido; bandido-escritor ou escritor-bandido, tanto faz. Prefiro ser aquele do que este, é mais periculoso. Neste antes e aqui descrito, não um preso que se vê exótico de si mesmo, mas uma pessoa que se sente e se conta pessoa. Sigo aqui uma linha de Edward Said.

Afinal, me pergunto novamente em termos de Brasil, se existe mais alguém neste assunto como este que lhes escreve. Talvez haja uma separação mordaz, plena, tornada silêncio; assim como dois presos que não podem conversar, mesmo estando em celas vizinhas. Porém, mesmo tendo ou não mais alguém conosco, o capital seja que nunca possamos saber. Pois mesmo até a constatação negativa é indesejável, proibida. O grande perigo para a ordem do poder não é o negativo, que este é otimista; mas o saber, a própria constatação de. Devo estar numa solitária como um chefão do tráfico. Sabem de mim mas não podem me ler, me escutar, impedidos pelas muralhas de mundo. Num território chamado de nacional que nos separa e nos prende.

Mas além do já descrito penso no fator histórico; melhor, em nossa história, esta cheia de silêncios. Sartre já nos disse, que o silêncio sempre acompanha, está junto da violência permanente de Estado como a nossa; refiro-me ao Brasil, como a seus iguais também. Só agora me constato, por que vários presos gravam sua marca num riscado qualquer de parede, pelas celas ou cubículos por onde passaram ou passam. Então, este conjunto de crônicas busca ser um riscado desses; para não silenciarem depois que nem existimos.

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Ao terminar esta crônica, lembrei nitidamente da chamada Caverna das Mãos na Argentina; estivemos aqui.

Para Sandro do ônibus 174 sempre. Na eterna memória.

Houve um baque na minha internet; ao ligá-la, num susto, os números de acesso ao blog desconjuntaram e subiram de vez, às estratosferas. Na indagação, fiquei meio que bolado pelo crescente dos números. Mais, algo acontecera ou acontecia e meus olhos não sabiam. Ao sair, no descortinado das ruas o objeto começou a se mostrar. Manchetes diziam dos ataques públicos do crime pelos lados do Norte brasileiro. Estávamos assim pela segunda vez. A primeira quem sabe ninguém nos ouviu, ou fingiram um não.

Na tabacaria, os olhares pequeno-burgueses chegaram com leves indagações fracas e inconsistentes. Mas houve assim um abalo. Sem grandes gritos, por dentro comecei a mexer-me; algo então começara. Esperei vários dias para escrever, a pensar mais sobre o nosso conflito, melhor, nosso inferno. Percebo que há uma grande consciência a ser despertada; de que nós do crime não estamos sós; que fora das nossas grades as penitenciárias também vicejam. Mas não nos apressemos, falta-nos muito.

Alguém burguês na tabacaria, segredou-me duas vezes alegremente: o que seria, se todo o banditismo brasileiro se juntasse. Pontas do Grande Espírito. Nosso grito só pode vir no desconcerto do abalo. Os analfabetos enxergam e falam; porque os letrados possuem, estão, nos seus cercados de saberes. Aos poucos, mesmo que em carceragens tão distantes e diferentes, eis que nos começamos talvez a nos ver. Como em quando nas grades de Gericinó, eu conversava sozinho com todo o coletivo; cúmplices, em nossa irmandade espiritual. Intensamente mais bandidos por isso; no contrapé da comunhão implantada.

Possuímos uma Dor e uma Prisão históricas. Que só os valentes e destemidos sabem distinguir, aos que se jogam no grande perigo da vida e da morte dizendo. Nós estamos muito mal assim, por aqui; vamos então mudar. Não temos medo de polícia; fugimos acertados das covardias; de mortalmente feridos, não ao menos gritar. Nossos sangues nos acompanham.

Se alguém é tratado com violência; esse alguém vai nos responder com o quê? Com carinho?

Estamos já numa taxa de ocupação prisional superior a 200%. E isto quer dizer e diz, que para cada 100 vagas nas carceragens brasileiras dispomos de mais de 200 ocupantes; ou seja, internos, bandidos, presos ou que nome queiramos lhes dar. O que este amontoamento é e produz, já citado em outras crônicas, certamente ainda não é ou não seja o grande objeto da arquitetura. Adiante diremos por quê.

Construir mais prisões já até se tornou um bem. Diante de tamanha necessidade, por que não dizer procura, temos que ofertar mais celas, mais carceragens escuras. Criamos entre nós a cultura e a economia de mais prisões, num grau igual de mais escolas e assim mais saber, mais cuidar. Os infernos igualados a céus. Mas ambos, céu e inferno, são o mesmo. Existe um antes criador e ofertador. Meninos e meninas agora ainda não sabentes, no futuro já acertado pelo mundo disposto, entrarão acomodados e seguros pelas grades já lhes destinadas. Sem escapatória de fuga. Porque esta sem nenhuma chance de acontecer. Estão no mundo que lhes convém. A grande plateia em volta talvez ri, ou bate palmas. Quem mandou ser o que são, na grande sentença ignara. O mundo é este porque nosso mundo só pode ser este, argamassam.

A cultura e a necessidade do prédio-prisão estão assim implantadas, numa via de bem. E junto toda estrutura de montagem como numa grande fábrica de automóveis. A indústria. Desde a preparação primordial dos corpos, passando pelas linhas de montagem, as grades, até o ex-interno ou bandido pronto. As reinserções sociais ajustamentos de uso. Mas um corpo pode obrigatório passar várias vezes pela fábrica-prisão para se aprimorar, se atualizar, mesmo até numa simples pintura nova.

A todos os meus parceiros das prisões por onde passei.

As coisas aconteciam sempre erradas para mim; ou vinham muito duvidosas e dadas ao acaso do que pela minha ação. Nessa época talvez que eu acreditasse em horóscopos vagabundos de jornal. A vida me vivia num marasmo improdutivo eterno. Minha ação não produzia nada, certamente por nem existir.

Já um pouco meio de tempo misturado à primeira e grande quadrilha da vida, o coletivo penitenciário do III, dei-me na besteira inicial de começar a escrever o primeiro livro. No início das primeiras páginas já maduramente escritas, eu me perguntava se seria seguro revelar minha primeira então magnífica e árdua ação de agir escritor. Como nos tempos anteriores de incapacidade e falta de segurança, caía no pensamento de que dizer aos outros o que se faz dá azar, olho grande e os invejosos odientos sempre de plantão te derrubam. Só que sem pensar mais, coloquei-me a difundir o que fazia, escrevia um livro sobre nós e a bandidagem do III, do mundo. Mas isso aconteceu, o tornar pública a obra ainda na produção, somente depois das primeiras páginas estabelecidas. Porque antes delas, já acontecera o concluio criminoso, o fechamento da cumplicidade, enfim a arquitetura da ação periculosa, com a nossa pequena e modéstia então quadrilha, meus alunos bandidos da escola. Então a propaganda da futura história ainda em formação, deu-se já num campo todo dominado pelo nosso crime de escrever. Como num banco já assaltado, estávamos com os malotes cheios ainda na saída, mas já era, perderam. Pois mesmo nos vendo, a polícia não nos alcançaria mais. Escrever nosso primeiro livro foi uma espécie de esnobe criminoso.

No final da obra escrita, todo o coletivo da cadeia já estava fechado com as mãos do professor-bandido que escrevia. Trabalho grupal periculoso. Coisas então aconteceram e acontecem. A primeira e principal há quase vinte anos atrás, foi que minha mão necessitava de uma dose de periculosidade que só os bandidos me deram, ensinaram. Ou então na química da mistura nas grades, minha alma se embriagou para toda a vida com as inteligências no convívio. O livro, teimoso ainda perdura em leituras pela internet. Outras coisas muitas mais vieram, porém deixo-as ditas nas outras crônicas, para o crime do escrever durar a vida inteira. Vejo hoje, que o bandido encarcerado me envenenou da coragem que me faltava.

Depois de solto das prisões, em regime semiaberto da aposentadoria, houve vários convites firmes, alegres mas ingênuos, de que eu voltasse a comparecer nas escolas penitenciárias. Os objetivos, oferecidos e propostos por diretores de escolas, seriam que realizássemos palestras para os alunos-bandidos, expondo as nossas experiências vividas nas prisões durante anos, e apontando talvez possíveis caminhos. O que, em certo tempo muito me animou. Realizaria um retorno, mesmo que esporádico, mataria saudades e, mais que tudo, haveria encontros.

Usei a palavra ingênuo no parágrafo anterior não à toa. Sabia que no fundo nunca mais poderia voltar, eu me tornara um bandido. Nossa relação de fora para dentro das grades, acontecia às vezes não amistosa mas sempre profundamente humana. Os abraços eram iguais, as cumplicidades também. Como já mencionado, nós confiantes tirávamos as nossas máscaras: eu a minha de professor e eles a de bandido; duas máscaras.

Rolávamos assim mais bandidos sendo somente pessoas, em nossos naturais queridos. Muito tudo me balançou. Até agora dois conceitos continuam por mim em suspenso: o que é ser bandido e o que é ser pessoa. Isto, claro, para além ou fora de todo o discurso hipócrita social implantado. As coisas me balançam no convívio.

Voltamos à ingenuidade mencionada. Por ser o que fui nas prisões e o que agora sou, quase tudo aprendido e descoberto dentro das carceragens de Gericinó no Rio de Janeiro, sabíamos como sabemos hoje mais periculoso, que os órgãos de governo não permitiriam mais meu retorno, eu me tornara também um bandido como eles das prisões. Virei bandido porque enganava o sistema social, mascarando um sendo outro. Na verdade, busquei o tempo todo descobrir o bandido; onde ele está, se dentro ou fora das grades, e quem realmente é ele. E nisto, desde o meu início no convívio prisional, passei por provas e transformações profundas. Até chegar nesse momento de vida em que agora penso e escrevo.