A prisão é só e não só um muro.

Contemplo vagaroso um quadro na casa da minha irmã; uma orquídea branca em fundo negro bem feita. Seu toque, o do pintor, em projeção de sobressair-se, como ao avançar sobre nossos rostos, sempre me encantou. Está lá, fora da minha casa, mas me pertenceu. Num comemorar de Natal em horrível churrascaria, a professora de Arte e amiga me presenteou com ele. Um aluno seu artista e bandido lhe dera, disse-me. Guache sobre papel, veio enrolado como um tubo. Na hora do presenteio o desenrolei e admirei com um pouco de gosto. Bateu na cabeça ao instante as causas do gesto da amiga. Uma, sua desmesurada higiene com muito nojo, às coisas que o preso produz e a ele mesmo. A outra, o saber das minhas misturas com algo socialmente sujo: o universo penitenciário.

Em mudança de casa desfazendo-me de coisas, vim para algo bem menor, dei a orquídea já fazendo bastante tempo ela numa bela e merecida moldura, como valioso presente a meu irmão. Vi logo de cara seu nojo ao saber da origem da obra: mãos encarceradas do crime. A orquídea não merecia sua sala socialmente limpa. Assim, muito que rejeitada, ela parou num empurra e leva na casa da nossa outra irmã, aonde eu a via agora. A beleza oriunda da cadeia, por ali na casa dela detonava o nojo.

Existe então toda uma higiene muralhante desumana. No simples cumprimentar de mãos, um preso pode passar toda ou em parte sua bandidagem maléfica, doentia, estabelece o cânone biológico e social. As mãos contaminam, sujam. Melhor, empestiam, matam. E muito e talvez só principalmente, habitantes ou egressos de uma prisão.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *