Eu sempre com o desejo mas não conseguia. Acordo muito perdido no ônibus. A janela não me fala aonde estou. O ar da rua é tenebroso meio escuro, dando um claro na noite suspeito, como numa pintura de Rembrandt. O ônibus voa, tentando chegar numa pressa louca. O motorista só quer largar e sumir. As muitas e repentinas curvas me perdem mais. Num lance de olho-objeto o imenso do viaduto passa por sobre nós. Estamos na Linha Amarela, o monstro de concreto me berra do alto. Mudo, mas no grito da aparição, me localiza em mim. Passei do meu ponto, da minha casa. No acalanto bruto dos buracos e rodas eu dormira.

Espero um pouquinho para saltar, arquitetando naturalidade de bêbado num centro de festa. Em pé deixo as rodas correrem. Quem sabe chegar ao ponto final e voltar em outro ônibus ou nesse mesmo. Sem minha ordem a mão avança e aperta o sinal de parada. Alguém movimenta saltar comigo. Pisamos na pista. Muito deslocado não sei se vou ou se venho. Resolvo seguir, olhando os postes nas alturas das placas de parada que não vejo nenhuma. Um ônibus passa me dizendo direção. É voltando que devo seguir, ele diz. Nisto avisto em plano contrário à volta a prisão à frente; num gigantismo de fortaleza medieval. Luzes de vigia iluminam as muralhas de alto a baixo, a ver quem está a fugir. Numa rua de lado, grades em meia pista dificultam o trânsito; talvez num medo de um ataque qualquer; repentino, louco.

Antes ainda porém, ao saltar do ônibus vira a fila enorme fora de hora mas na hora certa. A cabeça da fila na porta de uma loja. Luzes acesas indicam que está funcionando. Movimentos denunciam trabalhos, vidas. Paro e fico tentando ver, mas logo me recuso a mais. Do meio alto aonde estou observo o redor próximo e distante. Na luz do poste vejo mulher parada. Deve ser ali, junto do sinal de trânsito. Vou a ela. Boa noite e pergunto: é aqui o ponto? Me olha de alto a baixo e responde que sim. Ao primeiro ônibus que aponta na rua faço sinal e entro.

No dali que não contei eu só olhava as visitas. Formam, são uma bolha separada. Não vejo comentários a elas como para filas de banco; um mínimo de referência ou sinal de olhar. São quase onze da noite, e acho que em nenhum lugar do mundo tem fila a esta hora, num ar de manhã ou de meio dia. Lutam todas pelo dia seguinte. Na fortaleza prisional próxima, as esperas nas galerias e celas nem dormem, já degustam antecipadas na alma os encontros.

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