Estou fora, livre na rua. Saí sem dever nada à justiça. Talvez mais periculoso ainda lá nas grades, orientava-nos, a mim e aos parceiros de prisão, para todas as fugas possíveis. Ser livre para fugir, a ideia áurea dentro da facção vermelha e fora dela. Lembro agora de Kant falando da Vontade. O universo carcerário, a comunhão nele, me auxiliou muito no início a traficar. A própria separação, o isolamento, ajudava-nos também. Quem acreditará aqui fora, que bandidos pensam. A nossa capa bandida de inferior nos acobertava. Num lance de ganho, de às vezes muito ganho, alguns analfabetos me ensinavam; por muitos em tesouros certeiros. Enfim aos poucos aprendíamos a traficar mais. As vozes nos transmitiam, nos transportavam.

Primeiro descobrimos o legal e o ilegal em nossas falas. Antes o que não pensamos nem dizemos, aquilo que desconhecemos. Precisávamos então agir, fugir, traficar. As ideias nunca estavam soltas. Nós as prendíamos ou as matávamos em nós mesmos, sem saber. Se bandido só pensa o mal, perguntamo-nos, por que então não pensar outros males; mais intensamente males. E veio-nos a nós as palavras. Falar não só o concedido. Pensar não só o sociável. Avançar. Toda cabeça é bem-vinda, em nosso coletivo prisional imenso. Mil cabeças nossas são mais do que as de seis guardas, me brilhantou por dentro um parceiro de cela. Por mais que eles queiram não nos pegam, nunca sabem. Nossos cafofos armados de ideias mudavam sempre de posição. Até a noção pelos de fora de que éramos burros, nos dava uma proveitosa vantagem. A guerra na grade tornava-se a dos saberes, da inteligência. Procuravam cegos os guardas nas paredes de cimento, o que só nossas carnes de corpo escondiam. E a todos os momentos nossos corpos traficavam nas bocas de fumo, de vozes e de ideias, do crime.

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