O preso não tem direito a nenhuma sombra. No entra e sai de internos das muralhas, em idas ao fórum ou transferências, eu cruzava com esgares de agressão desumana, sofrimentos gratuitos e secretos pesares. Mãos para trás, rosto sempre ao chão, os internos iam e vinham. O tratamento dispensado dos alemães aos judeus nos campos de concentração, se parecia demais com o nosso do sistema carcerário brasileiro. Bem sempre à distância de qualquer pessoa de fora, o preso não pode ver ou ter o mínimo de paisagem possível, naquele que talvez seu momento único de ar e de passageira liberdade. Tratado qual animal profundamente hostil, é visto por eterno perigoso, mesmo sem aparentar ou ser. Os exageros prisionais intensos ou sutis diariamente afloram. Leia mais

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Sempre li jornais. O viver dentro das grades mostrou-me alguns disparates de notícias. Ou seja, entre o acontecido por lá e o veiculado aqui fora. Mas isto já se banalizou, virou talvez uma das nossas verdades de ser. O jeito brasileiro da mídia nos contar. Leia mais

Sempre lhes pedi, que ao me verem pelas ruas nunca deixassem de falar comigo. Um aceno, um olhar de mansidão e amigo, uma palavra. Talvez esse pedido seja apenas o sentimento de que, afinal, não poderei jamais viver sem eles. Nos abraçarmos lá fora, foi uma das declarações mais fortes e ensejadas, de quando um deles ficava na iminência, esperançosa ou real, de alcançar a liberdade na imensidão do mundo. Leia mais

Estou em Auschwitz! Esta frase foi a que me veio à cabeça quando, em 2003, meus olhos dominaram o horizonte de telas de arame, grandes galpões em série, mais a multidão de internos exalando os sem destino, sem pátria e, acima de tudo sem liberdade. Uma parte deles jogava bola num campo enlameado, em sol quente abrasador. A falta de objetividade emanava em todas as direções, a ociosidade obrigatória. Estamos na unidade prisional Plácido de Sá Carvalho, Gericinó, Rio de Janeiro, como em todas as outras. Leia mais