Entries by Abel Matos

As Misturas e as Coisas e as Fontes

A periculosidade é somente atributo e capacidade dos sábios, lição de convivência. Não sei por onde começar nessa frase-clichê, mas vamos lá. Advogado escritor em conversa de tabacaria, afirma-me meio se perguntando, que professor ao trabalhar na cadeia é um elemento blindado. Na hora, tentando esclarecê-lo ou responder, disse do carro roubado da professora, mas […]

Nós Pra Nós

Alguém me chama professor na padaria ao lanche. Faço atenção a olhar. Rosto me sorri acabrunhado. Para abrir conversa diz palavra chave, nos víamos na cadeia. Passa pela cabeça ex-aluno. Eu fazia empréstimos, clareou-me um homem de tez meio escura e ares de roça no rosto. Veio memória pessoa entrando ou saindo pelas portarias atrás […]

Do Universo Penitenciário Brasileiro

Notamos nalgum tempo uma coisa; e vamos buscar dizê-la. À medida que aos poucos, talvez de forma incipiente ainda, o sistema carcerário começou a dar sinais e a conceber gestos da sua gigante expansão, a qual nos encontramos agora, eles não vieram sozinhos. Ou seja, a explosão das grades surgiu no interior ou junto de […]

Contatos em Rio de Janeiro

Estou da rua para casa; no lusco-fusco já meio escuro da tomada do mundo pela noite. Na quase esquina erma ouço passos, no cego de não saber de quem ainda não dobrou o ângulo vindo. Olho que vou ficar espremido ao cruzar, entre o desconhecido e a árvore. A zona livre entre eu e ele […]

Os Trabalhos e os Dias

Cadeia no início sempre me parecera normal, em que as pessoas entravam, cumpriam pena e depois saíam, com um tudo bem. As conversas nossas, os olhares, nos diziam isto; melhor, nos convenciam enormemente com a capa das convenções sociais. O fato de às vezes encontrar tanta sujeira ou falta de luz, eram encobertos por um […]

Torturas Brasileiras

Uma de nossas mãos tocou a campainha. Logo, o ferrolho interno da escotilha pôs-se a mexer fazendo barulho, avisando que o guarda ia nos atender. Estávamos, eu e pequeno grupo de professoras, na portaria da cadeia para nossa aula diária aos presos. A escotilha abriu, mas a porta como logo de costume não. Num rápido […]

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Registros e Aprendizados – Chapa Quente

Por todas as manhãs os tiros. Helicóptero quase sempre, ameaçador. Sirenes das patrulhinhas rotinas já bem perenes, em que o não ouvir tornou-se em contradição anomalia. Ouço os estampidos com certa atenção. Desconheço armas e seus calibres. Vejo-as obrigatório e às vezes bem perto no polícia, pondo-me em atitudes de defesa, sobressaltos ou medos, como […]

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Viemos Por Onde Estamos – Modos Brasileiros

Não perdemos o fio da meada. E este miúdo ensaio pode não valer nada, somente claro, o trabalho quase nenhum de quem o escreveu. Viemos por onde estamos e isto é impossível não dizer. Mas houve um tempo em que as coisas se degeneraram explodindo ainda mais. Na minha cabeça, ficou o estouro da represa […]

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Brazilianas

Todos os meus textos se resumem em alcançar muralhas. Identificando-as, e se possível for, objetivo sublime de toda minha vida de preso, ultrapassá-las ou destruí-las. As internas e as externas. Sendo certamente as primeiras as mais terríveis, por tão solidificadas às vezes que são ou estão. Existe algo pior que a cadeia, são as autocadeias. […]

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Sociais

Muitos de nós não temos nem facção. Mentirosamente lá fora, na rua, circula que somos só uns amontoados de bichos. Mas não. Cada cadeia possui seus modos, preconceitos e preceitos morais, formas de vida grupal. Ainda assim, com mais ou menos nuances de diferenças por celas, alas, galerias e comarcas. Os corpos e as almas […]