Cadeia no início sempre me parecera normal, em que as pessoas entravam, cumpriam pena e depois saíam, com um tudo bem. As conversas nossas, os olhares, nos diziam isto; melhor, nos convenciam enormemente com a capa das convenções sociais. O fato de às vezes encontrar tanta sujeira ou falta de luz, eram encobertos por um cumprimento, gesto ou ordem de serviço vinda de alguém. Aquilo, aquele amontoado de prédios, e antes deles as muralhas encobrindo tudo, dava-nos mais que uma sensação, a realidade pura de que o mundo é assim. Bastando-nos viver nele e pronto.

A sensação de que cada um saindo com o papel branco na mão escrita sua liberdade, escrevia no meu olhar que aquelas mãos jamais voltariam, sem pôr os pés na estrada nossa de todos os dias. Certas manhãs, rostos colados nas grades vendo-nos chegar, o grupo ou alguém isolado do magistério, lembrava-me nitidamente crianças livres inocentes nas grades de algum quintal. As celas e galerias, sempre me deram a paisagem de vilas, de moradias normais. As alas, cada uma por si diferentes, me faziam sentir numa pequena avenida ou rua interna de qualquer cidade.

No fim, até a chatice desconfiada da revista da entrada pelo guarda, fazia-me viver como um contador que faz as mesmas contas e frases. Nos momentos talvez mais visíveis, e dizer aqui que o eram seja mais uma normal mentira, alguém nos tentava parecer que escondia alguma coisa: a falsidade do guarda, por exemplo, ou a aparência da professora, de que ensinava muito. Eu mesmo tinha meus falsos banditismos visíveis, para enganar-nos.

As mais visíveis mentiras eram nossas próprias roupas, que alardeavam ao mundo e a nós mesmos o imenso poder de cada um. Porém, mais mentirosos ainda e infinitos mais, eram os nossos rostos. Cada um deles com uma tintura de máscara pré-pronta para o mundo seguinte. Fora aquela máscara de base, que em cada vida vai se formando, inicialmente com a horrível cumplicidade dos pais, de que todos somos uns santos; ou pelo menos temos a pretensão verdadeira de ser. Ao me colocar bandido, falando e me misturando com eles, eu, sinceramente agora, só falseava; talvez sim, com pequena dose de periculosidade. E quando professor, este tudo, o pior demônio enganador. Um escape de coisa boa, pelo menos útil ao momento, um diamante raro. Mas logo depois esquecido ou destruído pelas boçalidades puras da alma. Vivemos num vão infinito de podridão higiênica, em que um simples cheiro de bosta nos diz tudo, provocando-nos vômitos.

De alguns sujos ou perigosos bandidos por vezes saía algo, porém logo destruído, eles também não eram nada. Um nada que estava abaixo do nosso tudo que vinha de fora, a grande mentira aceitável. Melhor, a quase santidade do mundo. O sair e o entrar nosso, dos professores, mais do que a descomunal vantagem, a crença e a fé de que éramos livres, e eles bandidos não. Figurando então como a magna aula da vida. E nós todos acreditávamos naquilo. Como todos que lá estão o fazem agora, neste justo momento em que os escrevo, e me conto também de mim. Nem penso quem é livre e quem é preso por não dizer nada. Mas ainda então estou sendo falso porque quer dizer tudo.

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