Alguém me chama professor na padaria ao lanche. Faço atenção a olhar. Rosto me sorri acabrunhado. Para abrir conversa diz palavra chave, nos víamos na cadeia. Passa pela cabeça ex-aluno. Eu fazia empréstimos, clareou-me um homem de tez meio escura e ares de roça no rosto. Veio memória pessoa entrando ou saindo pelas portarias atrás de guardas, a preencher fichas de consignados para já muito endividados. Estava acompanhado. Ela é fisioterapeuta lá, disse, referindo-se às prisões apresentando mulher apagada de tudo, sem gota de expressão no vestido.

Por trás dos balcões o comércio são comunidades. Trabalham, mas trazem tudo dos morros por dentro. E é esse tudo que procuramos chegar a falar-nos. E assim, na troca de palavras com os dois das cadeias de Gericinó, o balconista nos ouvia sedento ao silêncio, num lance do que também sabia, aliás muito mais vivia. No gesto de distribuir meu cartão com o blog de crônicas das grades, dei um ao balconista, percebendo ser o que ele já queria. Nosso ver não passou disso, entre eu e o do balcão, mas o que existe é bem mais.

O rapaz do balcão, o balcão e o crime. Tenho um ex-aluno das cadeias de Gericinó, hoje balconista de lanchonete no Centro, que me dá notícias de amigos meus do crime. Passo às vezes por ele, mais do que a vê-lo saber de quem não vou mais esquecer. Reiterando o a seguir mas preciso aqui, escrevo. No discurso separatista mentiroso, amiga nossa nunca compreende como e por que bandidos e trabalhadores se entrelaçam em amizades. Eu poderia dizer-lhe que isso acontece porque somos pessoas, paixões. Mas não sei se ela entenderia. Ou, até se entendesse aceitaria. Volto ao rapaz no balcão da padaria. Pelo seu interesse ao assunto de nossa conversa sobre grades, mais a busca do cartão que lhe dei; na leitura dos seus gestos, interpretei de alguém com pessoa querida no crime, quem sabe até infelizmente nalguma cadeia por Gericinó. E se há uma coisa acertada, é quando chamam qualquer periferia, morro ou favela de comunidade. Palavra de comunhão.

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