Caminho pela cidade já bem noite, há um certo vazio ou ausência pondo-me inseguro. Penso; também é assim fora do horário e rotina das multidões, que posso descobrir ou passar por um algo novo. Necessito provar antes para escrever depois. Logo me aparece distante vindo em minha direção um “traveco”* sujo, de rua. Para pedir, a vida me diz; desses na cidade já estamos abarrotados. Quando vejo um tipo assim desse jeito, pergunto-me se alguém o come, fazem amor com ele. A pergunta me vem não só pela muita sujeira, mais ainda pela feiura, o exótico tenebroso, o que repugna, causa nojo. O grau de abjeção não tem fim. Consolo-me, há sabores para todos os gostos. Sexo em tudo, e então também no corpo-lixo. Algum ganho por um boquete ou anal, o músculo penetra e goza.

Nego-me a ajudar a coisa repelente, de um feminino num masculino. A aparição logo some feito um inseto perturbador. Poucos segundos me passam e vem logo outro feito mosca. Este enrolado num sujo cobertor vermelho, com ares rápidos de esvoaçante. Me ladainha que até aquela alta hora da noite só havia almoçado. Num jogo de descoberta esboço reação indecisa, a ver se o tipo se abre e me põe num saber qualquer. A desgraça contada pelo próprio miserável. Me solta que saiu da prisão naquele dia. No ato começo a lhe pôr à prova da verdade, perguntando de qual cadeia saíra. Vicente Piragibe, me diz na lata, a nossa conhecida V.P.. Primeiro acerto. Alongando o papo, digo-lhe indagando em qual prisão fechada estivera antes, já que a V.P. é uma semiaberta, de final de pena. Me informa acertado que puxara cinco anos em duas outras, estas fechadas, e no final dois na semiaberta V.P.. Lamuria que tinha sido rejeitado pela família, mãe e irmã, ao bater na porta de casa; não queriam viver com um ex-presidiário. Pergunto então se era vermelho, da facção Comando Vermelho, buscando atualizar saberes antigos, já que na minha época a Vicente era “nós”*. Inseguro, me fala não ter nenhuma facção. Tento sem efeito tranquilizá-lo. Dois reais lhe cabiam bem, me pede, para ao menos comprar um biscoitinho, diz. Dou-lhe o pedido. Logo depois, vejo-o ao longe comprando e devorando as rosquinhas de polvilho. Num último momento de visão, sai pela rua com os braços abertos, o cobertor em asas, a voar pelo mundo como uma criança.

Notas:

Traveco, nome popular de travesti.

Nós, mote identificador da facção Comando Vermelho.

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