Estou da rua para casa; no lusco-fusco já meio escuro da tomada do mundo pela noite. Na quase esquina erma ouço passos, no cego de não saber de quem ainda não dobrou o ângulo vindo. Olho que vou ficar espremido ao cruzar, entre o desconhecido e a árvore. A zona livre entre eu e ele sumirá, destruindo-me as chances de fuga. Em falsidade de gesto a disfarçar o medo, fixo atenção para um alto de prédio em frente mostrando distração; minha máscara daqueles segundos. Surge rapaz magrela com uma das pernas enrolada em gaze, como uma meia longa. Denota claros sofrimentos, mesmo nos instantes do meio escuro. Percebe meu fugir indo para o meio da rua. Passados dois passos solta-me boas-noites efusivas e muito cordiais; a contar-me claramente que eu não tivesse medo, ele é um amigo. Num ímpeto de também cordiais em busca de igualdades, explodi-me por sinceridades talvez já tardias ou ultrapassadas. Eu também amigo, tentei dizer. Não sei se atingi algo de sua alma. Dele recebi um duro golpe de pura comunhão.

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Num ponto de pequena segurança da cidade, o de ônibus, conversamos por início de motivo qualquer com quem está ali conosco; conhecidos e meio, como até os não. As falas saem ou se liberam, nunca sem grandes contenções, ao discurso mais tateador como olho de cego ou coisa de adivinho, do que livre. Há sempre um pé atrás nosso, cada vez mais atrás, no restrito bem antecipado do medo. O não saber quem é o outro medra-nos. Assim, como num jogo muito perigoso, esperamos todos para saber quem dará o passo mais ousado na conversa, dizendo o que ansiamos falar e ouvir, mas tememos, na comunhão dos saberes e das trocas. Soltar a língua está cada vez mais lúgubre. Nosso medo cresce, e com ele muito mais falsas intensas coragens.

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Na saída do metrô na Carioca, vitrine de livros da Almedina agarra minha atenção ao prazer de ver e descobrir saberes. Casal diante dos títulos na calçada atrapalha-me um pouco. Educado e cuidadoso busco posições de livre leitura. A mulher, ao olho no celular vendo mensagens, em brusco toma-me por ladrão; volteia e recua aos medos de perder o aparelho. Meu gentil social nada lhe diz. Passa-me por dentro mas me contive, a mensagem de viva voz de quem nem usa a merda daquilo: um celular. Fiquei depois a ler revoltado o episódio, de desencontros e cegueiras.

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