A periculosidade é somente atributo e capacidade dos sábios, lição de convivência.

Não sei por onde começar nessa frase-clichê, mas vamos lá. Advogado escritor em conversa de tabacaria, afirma-me meio se perguntando, que professor ao trabalhar na cadeia é um elemento blindado. Na hora, tentando esclarecê-lo ou responder, disse do carro roubado da professora, mas logo devolvido horas depois, por os ladrões haverem descoberto provas certeiras de que ela lecionava em prisão. Um maço de testes escolares estava no carro, de alunos bandidos. Este episódio já está até repetido, empobrecendo a crônica, mas vale como descrição do gesto em um cosmo específico, o carcerário.

Por várias vezes, e durante períodos meio longos, alguns do crime tinham medo de mim. Olhavam-me junto na cela com olhares de quem eu poderia assaltá-los ou até matá-los. Um e outro tão horrorizados que me surpreendia. Certamente um dado de alma meu ou minha história nas grades davam-lhes total razão. Eu era professor, mas antes pessoa. Nisto, podendo ser uma ou outra coisa e, até várias ao mesmo tempo, em transmutações periculosas. Confesso que nessas transmutações alcancei objetivos sublimes.

Voltemos ao advogado escritor. Professor dentro das prisões não é blindado, é respeitado. Só pode ser bandido pessoa. Não esqueço frase lapidar de um parceiro de cadeia que me disse, já mencionado em outra crônica: “professor, eu não preciso do seu medo, preciso do seu respeito.” Nossa parceria foi tão alta, que às vezes ele já me contava junto trabalhando na rua, provavelmente assaltando banco. Este também um dos sonhos meus.

Ao encarcerar-me nas prisões meu espírito logo avisou: prepare-se para chorar muito por bandido morto. Mais que o choro e a morte, clareando-me o que lá estavam como estão. Só que então a vida e a alma me fizeram; chorei porque amei mais por um amigo morto na cela, do que por meu pai e minha mãe. Fui amado no crime em surpreendências intensas. O campo estava sempre minado de circuitos, contatos, explosões.

Sou alma eles bandidos também. E assim nos igualamos numa tirada de mundo só. Sigo Jean Genet, que foi bandidinho de rua, condenado, garoto de programa, dramaturgo, poeta, escritor e homossexual assumido. E ainda por cima em polipericulosidades misturando tudo o que era; nascentes de uma pessoa.

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