Uma de nossas mãos tocou a campainha. Logo, o ferrolho interno da escotilha pôs-se a mexer fazendo barulho, avisando que o guarda ia nos atender. Estávamos, eu e pequeno grupo de professoras, na portaria da cadeia para nossa aula diária aos presos. A escotilha abriu, mas a porta como logo de costume não. Num rápido de olho e voz, o guarda anunciou que esperássemos, pois iriam bater assunto com um preso. E que nós, continuou, não éramos para o tal espetáculo. Imediato, voz de professora se lamuriou em dor o que estava por vir. E todos nos preparamos, como se também fosse quase um de nós, na espera da tortura. Assim, movimentos de guardas lá dentro ao ritmo do arranjo brutal. Incontinênti, boca se levantou a clamar, implorando ao nome de alguém que não lhe deixasse fazer aquilo. Estavam na preparação, com algemas e posições. A voz repetia para não deixar. Explosões de pancada começaram. No silêncio, só o eco das carnes. Foi-se tudo muito rápido, qual se nós, em manobra poderosa de tempo, o comprimisse num segundo. Escutamos lavagem das mãos como em Pilatos. A portaria se abriu, no hábito burocrático de sempre. Nenhum de nós comentou, num cúmplice de medo e covardia.

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Corpo de aluno chegou bem queimado na escola. Branco, bronzeados visíveis na pele lembrava praia ou trabalhos forçados. Respeitosos, ninguém do magistério perguntou. Porque antes já todos sabíamos. O coletivo prisional inteiro, só de sunga ou de cueca e abaixo de muito aparato de homens e armas, fora posto sentado no chão e de cabeça baixa no pátio descoberto. Veio todo o maçarico do sol e as horas de um dia inteiro.

Jogaram-nos no pátio interno à noite; sonolentos, aos bicos de armas e mãos na cabeça. Como de costume e na ordem, só em cuecas com intensa revista de mãos pelo nosso corpo. Saímos assim e fomos; na fileira por ala e celas. Canos, balas, e máscaras pretas por todos os lados. Já de bundas no chão, nos passadiços altos do pátio bocas de tiro e olhos apontavam. Vozes impertinentes, agressivas e incitadoras puseram-se a bradar, a nos ferir. “Quero ver o macho agora!” Um deles dos guardas, talvez o mais folgado, valente ou medroso, veio ao meio das nossas fileiras a olhar e encarar. Ao esmo, num ponto de ódio tortura e acerto, escolhia um rosto e o levantava no grito. Levado a quartinho próximo tomava uma surra. Jogado de volta ao seu lugar vazio, a máscara do guarda recomeçava a escolher.

“Tira a máscara!” Um de nós gritou. Ao que na comunhão entoamos em coro um “tira” repetido. Nenhum rosto se mostrou.

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