Não perdemos o fio da meada. E este miúdo ensaio pode não valer nada, somente claro, o trabalho quase nenhum de quem o escreveu. Viemos por onde estamos e isto é impossível não dizer. Mas houve um tempo em que as coisas se degeneraram explodindo ainda mais. Na minha cabeça, ficou o estouro da represa nos finais dos anos sessenta e primeira metade dos setenta, indo pelo século vinte. Por esta época, eu estudante do então curso ginasial, num modo de memorizar para não esquecer, ligo tudo a um fato imediato de vida: quando as formas por turmas de alunos na entrada das escolas deixaram de existir. A formatura escolar com hino nacional e tudo sumiu. Um pouco de ordem já muito precária se entornou de vez.

Ao me verem escrevendo sobre bandidos e carceragens, tacharam-me talvez com alguma razão de louco. Eu também estou preso, à frente vou dizer por quê. Gosto de olhar o mundo pelas ruas. Vendo as pessoas como estão e são. Cada vez mais esbarro com sofrimentos. Com isto digo mais loucuras. Vou ater-me a um tipo ou estado dela cada vez mais numeroso, vindo num desponte a décadas. Em nosso meio familiar já acontecia e acontece, de pequenos, médios e grandes transtornos de cabeça misturados ou envolvidos com religião. Penso até, que sempre estiveram bem próximos, como dois irmãos tão diferentes porém lado a lado. Voltando para casa à noite, rapaz musculoso entrou no vagão do trem por onde estávamos, numa fala de voz fortemente incisiva. De vez em quando, num gesto brusco de afirmação e prova, batia no peito com enorme ímpeto, vigor e mão fechada, que produzia estalos em tons ameaçadores. E eram palavras sobre palavras sem nunca parar, num ritmo de troar insano. No fundo pedia esmolas. Só que numa forma de mistura intensa de agressividade inofensiva. Que não tivessem medo, dizia, e abrissem a bolsa para ele. Como base e pressão de fala, citava ideias bíblicas com fortes teores de condenação para nós. Quer dizer, para quem não o atendesse, não o ajudasse. Assim, negar a ele era negar mais do que a Deus, era negar aos tempos sentenciosos bíblicos. Que já haviam determinado tudo. E ajudá-lo então uma sentença divina. Não vi ninguém abrindo a bolsa para ele. Somente uma jovem riu com escárnio das suas poses inquisidoras.

Não vou enumerar mais casos para não cansar. Mas contando com a colaboração e a quase certeza, de que você leitor tenha os seus por dentro de si. Que afinal sei, na percepção da experiência, como tanta gente vê o mundo comigo. No acontecimento narrado, estávamos num trem urbano de passageiros. Primeiro para enfatizar repetindo-me, que cada vez mais aparecem os tais casos, numa ordem de realidade cada vez mas crescente. E que não existem iguais, tampouco até parecidos. Cada manifesto com a sua forma de dor, embora todos no fundo comum, a própria dor. Nessa diversidade de formas, não estaríamos nós humanos, pergunto eu, buscando uma saída? Como num tatear em procura de portas? Mas parece que por nós a dor está cada vez mais intensa. E então quem sabe também a surdez, a interna e a externa, numa certa verdade de fingido.

Estou numa prisão de social vivente, nasci e moro aqui. A violência pública e a privada cresceram juntas, porque são uma só, nós contra nós mesmos. Os centros de poder como mantenedores da ordem marretam sem parar. A ferro e a fogo. Desde as propagandas oficiais até os tiros mortais das polícias. Sem contar os secretos decididos que nunca saberemos, a não ser na sequência e consequência deles. Todas as amarras e trancas de mudanças estão infalivelmente ainda fechadas. Digo assim e de todo modo, do povo e dos governos. A imposição e a censura secretas ou não imperam, nos lares pobres e nos palácios. Nossa dor pelas guilhotinas aumenta. Não somos vítimas de nós mesmos, tampouco nosso próprio algoz.

17/02/19.

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