Todos os meus textos se resumem em alcançar muralhas. Identificando-as, e se possível for, objetivo sublime de toda minha vida de preso, ultrapassá-las ou destruí-las. As internas e as externas. Sendo certamente as primeiras as mais terríveis, por tão solidificadas às vezes que são ou estão. Existe algo pior que a cadeia, são as autocadeias. As que no decorrer da vida foram nascendo ou sendo instituídas para dentro de nós. Existem reforços e manutenção delas via coisas e aparatos sutis ou aparentemente tão inofensivos. As mídias, comumente quando centradas nos acontecimentos diários sobre violência, realizam e mantêm esses reforços, introjetando na população culpa e condenação.

Com o inchaço cada vez mais desmesurado, e ainda em acontecimento, do Complexo Penitenciário Brasileiro, houve mudanças ou o acirramento da culpa e da condenação no discurso e ação das polícias. Em nossa juventude como já escrito, pegamos a fase da polícia reprimindo e dando como vadio e assim imprestável e perigoso, todo e qualquer jovem de periferia visto na rua, sem uma atividade legal visível ou comprovação documentada de estar empregado; o tempo da vadiagem. Aparentemente desaparecido, este tempo na verdade recrudesceu; melhor, se desdobrou em outras coisas. Em áreas periféricas bem marcadas, notadamente favelas e bairros pobres, a juventude vive num constante mundo acuada pela polícia, e sendo tratada quase sempre antecipadamente como já bandida. Vestimentas e cores da cultura local, mais a estética do corpo, um cabelo louro numa pessoa negra por exemplo, servem como indícios de alta suspeição e provas. Na minha juventude, os homens da lei numa blitz, desconfiaram muito da barba grande que então eu garbosamente ostentava. Sem que se dissesse um não, o nome favelado foi adquirindo em nosso meio social significado cada vez mais negativo. E esse negativo na sua mais baixa acepção desumana. Existiu uma frase tão em voga, mas que cumpriu seu papel histórico denegridor: você não mora, você se esconde.

O tempo do calendário escolar aumentou. Antes, os jovens e as crianças dispunham de quatro meses de férias escolares anuais; três no verão, de dezembro a fevereiro, com aulas em março, mais o mês de julho. Agora, férias só no mês de janeiro mais a metade de julho. A idade mínima para ingresso na escola, que antes estava nos sete anos, baixou para até três. A criança e o jovem perderam muito dos seus mundos livres de formação. Tínhamos anteriormente às vezes saudade da escola, quando hoje ela satura, alunos e professores.

A autoridade da polícia brasileira para matar, aumenta cada vez mais, inclusive velhos e crianças.

A palavra obediência em nosso meio social, que já se encontrava afixada à educação, isto é, é educado quem é obediente, se afinou ainda mais, tornando-se uma da outra, educação e obediência, sinônimas. Errar afixou-se a pecado e este à alta culpa. E com isto, o direito ao Céu ou ao Inferno subordinados ao movimento das mãos e da cabeça no decorrer do dia. A religião tornando-se ideologia de dominação.

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