
A morta nos esperava paciente no caixão para o último alento de vermos seu rosto. Como sempre eu estava atrasado. Meus pés quase corriam para alcançar o ataúde ainda aberto, na igrejinha evangélica de vila roceira. Na chegada senti o viúvo como que de tocaia na rua, não participara do culto fúnebre do adeus. Percebi algo errado e lembrei-me da história a seguir.
Num dia qualquer de culto ou não culto, com estrondo a polícia da cidade longe entrou pela rua principal, o pacato da vila tomado de assalto. Sem delongas caçavam e vieram prender o pastor homem de Deus e sua esposa e cúmplice. Os dois formavam quadrilha golpista especializada em velhos gagás aposentados. Celulares e bocas prontas espalharam a manchete em segundos. Uns diziam ser obra do demônio a captura, outros da justiça divina de Deus. Apanhados distraídos nas bênçãos, o casal em Cristo Jesus enfrentou algemado a caçapa da viatura, que logo partiu. Depois é que veio o depois. As ovelhas sem pastor se viram perdidas no pasto da salvação eterna. Por onde iriam, se perguntavam. Aquilo não estava acontecendo, era um engano, golpe do maligno. Bocas demônias começaram a gargalhar satisfeitas em gozo, descobriram mais um lobo voraz em pele de cordeiro. A igreja não era de Cristo, precisava mudar. Bastavam agora escolher bem um novo pastor com cajado verdadeiro. Para nosso espanto tal mudança não aconteceu. Por isso meu amigo e viúvo repudiara o templo até então. Vendo-me chegar e pressionado por minha presença, adentrou comigo na igreja do demônio dita de Deus. Sua esposa no caixão ainda o esperava para o último beijo.
Sete dias depois da descoberta golpista, o ministro ungido do Pai retornou à sua igreja da vila. No louvor da noite já se explicou santamente. Satanás sempre apronta ardis traiçoeiros, esclareceu em sermão. Sua santa esposa ficara ainda detida para simples e banais depoimentos. Ele, advogado e mensageiro do Salvador, fora solto por obra e fé de muita oração e de um habeas-corpus impetrado. Cristo nunca desampara seus fiéis. As ovelhas o escutavam. Ouvintes, não estavam sem destino, sem pastor. No curral do templo o rebanho continuava seu. A força magna da cruz sempre vence. O juízo final está próximo. Se Deus é por nós quem será contra nós. Amém Senhor e amém.
Nas misturadas, política e religião formam uma trama só. Para alcançar cadeiras, tribunas e púlpitos, mãos espertas bitolam antes corpos ordeiros e dóceis. A lábia enganosa da salvação em Cristo Jesus, com a Espada-Bíblia do convencimento da paz celestial sempre futura, o céu nos espera chegar. Nesse mesmo jeito da promessa religiosa toda a política se constrói e se põe. Rebanhos e rebanhos cada vez mais. Ao aceitar o lobo pastor ainda de volta, sem pecados e verdadeiro homem de Deus, a igrejinha da vila só confirmou nosso povo cego e submisso, que meu amigo viúvo rejeitava.



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