Entries by Abel Matos

Outras Águas – No Mundo de Ontem e no de Hoje

Lavávamos antigos as vasilhas da cozinha e quase tudo no rio; de onde tínhamos as carnes do almoço e da janta em lambaris fritos como torresmos. Mulheres areavam frigideiras sob as solas dos pés e rebolantes, nas areias de suas águas. Não havia nojos; e se tinha eram outros. Das correntezas às bocas as águas […]

A Coisa Vida Sentida

Menino eu já levava roubos para casa, geralmente frutas para os nossos famintos estômagos. Uma vez rodei cortando cana no sítio alheio e fiquei por alguns momentos aprisionado pelo vigia; desse mamãe não soube. Quando chegava em casa com laranjas, jaca ou mangas, fazíamos pequenas comemorações de festa, algo estava garantido. Papai e mamãe sabendo […]

Navegando Conforme o Mar

Para Gilmar Brunizio Nunca vi um sociólogo nas prisões. Assim, a solidária presença do magistério escolar vai servindo como tal; único a entrar efetivamente diário nas carceragens e conviver. As aulas funcionam muito e existem antes pela formação do grupo, a aparição de cada um e as trocas. O didático-científico lecionado é quase sempre segundo […]

Sob o Sol do Aço e da Pólvora – Um País em Chamas

Iremos nos matar mais, achamos que cada vez mais, por ação da justiça. Vi um polícia federal em som de passeata, repetindo numa fala de muita consciência de que se desarmassem as polícias militares estaduais. Ele com certeza possuía sólidas razões do por que arautava aquela mensagem. Nisso descrevo a seguir, o que julgamos e […]

Olhando Para os de Dentro

Você pode dar positivo para tuberculose, disse-me o médico da carceragem. Mas embora sua vida diária esteja confinada à alta morbidez das grades, por tomar um pouquinho de sol e se alimentar aqui fora, os sintomas da doença não se desenvolvem, completou o doutor buscando me tranquilizar. Convivíamos com o maior índice brasileiro de doenças […]

Insalubridades Líquidas

A Zygmunt Bauman, em eternidade. Mamãe dizia que só esta água da cidade já nos mata; havíamos acabado de chegar em mudança da roça interior. Meu tio me cantava, que se nossas águas brasileiras de beber fossem limpas, metade dos doentes não existiriam nos hospitais. Ultrapassemos os dizeres parentais mas ainda neles. Ouvimos e vemos […]

Retorno dos Ataques Aéreos

À memória de Aluísio Azevedo, autor de “O Cortiço”. “Helicópteros já estão autorizados a realizar incursões nas favelas”; leio em manchete ou quase na folha do jornal em exposição na banca. Que na hora da leitura mais me pareceu um edito real condenatório e invasor. A favela como território sempre inimigo. Que também em outro […]

No Social do Crime no Crime do Social

Havia brinquedos para as crianças nos dias das visitas; uma pequena copa com refrescos lhes protegia das sedes; alguém óbvio bem habilitado de nós presos para tomar conta, cuidar. Tudo isso as livrava das chatices costumeiras dos adultos e diluíam possíveis grades; os presos éramos só nós e não elas; portanto não havia por que […]

Mão Única

Ouço risada sarcástica por saberem que escrevo à mão. Sem responder digo a mim mesmo qualquer coisa de quase nenhum sentido; como se o sarcasmo manifesto não me valesse. Ao pé da letra da mão sinto-me não solto porém senhor de mim. Ela vai ou não vai aonde meu desejo mandar. Tem suas negações e […]

Crônica Dantesca

Eu dizia aos meus amigos: a pior coisa é morrer nesse inferno! Gritava isso mesmo em tons normais, mas por ocasiões específicas para marcar, gritar ainda mais. A prisão tem isso de traiçoeiro, ir nos arrefecendo, nos vencendo como um vírus diabólico que nos corrói. Pena de morte vagarosa, porém que não para e nunca […]