Eu dizia aos meus amigos: a pior coisa é morrer nesse inferno! Gritava isso mesmo em tons normais, mas por ocasiões específicas para marcar, gritar ainda mais. A prisão tem isso de traiçoeiro, ir nos arrefecendo, nos vencendo como um vírus diabólico que nos corrói. Pena de morte vagarosa, porém que não para e nunca nos deixa. A maioria ao sairmos em liberdade, não fazemos mais do que espichar esse tempo fúnebre; sair para voltar algum tempo depois, alongando e numa nova etapa na estrada da morte; como um doente em alta que vai para casa, sabendo de alma que retornará ao mesmo leito até morrer de vez. Sim, porque a morte já estava acontecendo. Então, no meio de nós presos nas grades há sempre um necrotério em curso perene; invisível e ao mesmo tempo bem claro por algumas almas. É a função mais penitenciária das prisões; vidas que entram e nunca mais sairão. Aqui fora nas favelas existe esta mesma engrenagem, só que com outros visíveis.

Errei e acertei com meus amigos do crime. No geral eu queria mesmo levá-los vida; que muitos amorosamente me deram; eu também sou um deles. Alguns de nós entre a vida e a morte, alcançamos aqui fora na rua outros mais infernos, como nos círculos de Dante. Cheios de metais cirúrgicos dolorosos e corpos muito sujos, vagamos pelas ruas e calçadas pedintes mendicantes. Um ou outro adoece louco. Suicídios nas prisões não são contados, por um desprezo fúnebre. Mesmo vivendo na rua, a tornozeleira prisional marca e nos põe noutro círculo, o dos já condenados em nova espera. O acesso ao inferno sempre por uma única porta: a primeira delegacia. Um galpão cheio de corpos nos mostra o infernal da coisa, num banal de vazio. Caminhando certa manhã por celas cheias mal eu via; furava um silêncio apunhalante entre as bocas e as falas. Um meio-escuro em cor inferno firmava tudo. Corpos subjugados, o viver a torturar, num mundo condenado como vida.

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