Entries by Abel Matos

A Farmacêutica – Na Cidade do Rio de Janeiro

Eu me ensaio pelas crônicas. Pois tenho forte impressão como uma leve mas constante tortura, que buscam e quase sempre conseguem apagar nossa memória, a pessoal e a coletiva. Recordo agora que conheci uma mulher anteontem mas sem ver nítido seu rosto. Assim, imagino, houve coisas que o impediram ou desviaram. Conversamos só um pouquinho, […]

Tratamentos, Disputas e Remédios

Somos ágeis campeões em muitas coisas, futebol por exemplo; e nisto a seguir ultrapassamos mole a Rússia e estamos indo à cola da China e Estados Unidos da América. Este o segundo lugar e aquela o primeiro; na ordem do mundo as estrelas em população carcerária. Estávamos, quatro homens experientes, à mesa da tabacaria na […]

Na Escola da Prisão

Saberes marginais chegavam desmesurados até filosóficos por alguns, a escola não lhes bastava nem os prendia. Mesmo que em educada contenção, aos poucos um banditismo saía solto pelas falas e bocas, fazendo eu professor aprender. Certo assim, que todas as mentes não estavam domesticadas pela ciência da lição escolar, qual uma planta produtiva ou um […]

No Martelo

Os tribunais vinham bem mais visíveis por dentro de alguns, com sentenças prontas eles já condenados. Perguntados se sabiam diziam que não. No provar eu pedia que lessem uma coisa qualquer apanhada ou vista na hora, como uma página de cartilha ou dizeres de um cartaz na parede. E descobria que todos mentiam, ao lerem […]

Olhares e Objetos – Na Cidade do Rio de Janeiro

Ao sair de casa sem que o perceba muito, o destino primeiro são os jornais. Procuro só as manchetes que já me bastam; a saber aonde foram os últimos tiros e mortes do dia anterior. Mais do que o constatar, necessitamos nos proteger com muita antecipada e até desmesurada cautela. Na certeza, nunca sabemos nem […]

Saber e Não Saber

Nunca usei telefone celular. Nas portarias das cadeias, eu sempre evitava ao máximo os desconfios secretos dos guardas de plantão, no vasculho obrigatório de corpo e de coisas. Por estar constante meio bandido e meio professor, sabia que era um dos mais vigiados. A falta certeira de saber quem eu era, se professor, parente, visita […]

Descarga

Naquele almoço o bife chegou muito mais verde num amargor intragável; com feijão casquento, arroz grudento e cru. As coisas sempre decaindo, a mandarem cada vez mais venenos às nossas bocas encarceradas; num movimento de menos custos e assim mais lucros, para quem fazia as gororobas dos penitentes. As tripas a suportar. Tudo no conceito […]

Pelas Mais Penitências as Secretas

Catuco ao invisível. Sempre me bato comigo mesmo como começar ou dizer, diante do meu total desconhecimento. Já de início, esse total desconhecimento nos impõe uma lógica de sentido: por que existe este total desconhecimento? Não como uma coisa a ser escondida, mas a ser ignorada nesse silêncio histórico totalizante? Penso aqui sobretudo em nossa […]

Em Natureza Endêmica

“Ele vende armas pra gente professor, mas na hora da guerra é o primeiro a morrer.” – Me disse o interno prisional apontando um polícia fardado ao longe, na penumbra interna da ala na carceragem -. Estávamos recém-saídos de uma rebelião longa, de três dias ou mais. Havia por todo lado um ar de espera, […]

No Corredor Invisível da Vez

Para os labirintos da Solidão. O tiro mortal certeiro da polícia no jovem rapaz estava na ordem do dia; a bala não foi perdida, como todas que atingem qualquer corpo favelado ou de pobre. Sobre o caixão costumeiro pai infeliz chorante. A morte nunca pega só um por vez, já mata aos pouquinhos ou a […]