A Zygmunt Bauman, em eternidade.

Mamãe dizia que só esta água da cidade já nos mata; havíamos acabado de chegar em mudança da roça interior. Meu tio me cantava, que se nossas águas brasileiras de beber fossem limpas, metade dos doentes não existiriam nos hospitais. Ultrapassemos os dizeres parentais mas ainda neles. Ouvimos e vemos pelas mídias do Rio de Janeiro, que a água das torneiras na cidade está entupida de lama podre e químicas veneno, mais uma vez. Temos água e não temos água, copiando um buchicho do povo. Vi um índio em conferência, pegar num abismar e revolta uma garrafa com água, e dizer que jamais imaginara de quem mata nossa sede seria um dia vendida; a natureza nos dá de graça, completava o nativo. Desde há tempos, com coceiras entre os dedos dos pés, sempre ouvi dos médicos a recomendação de enxugar bem os entrededos para evitar inflamações. A orientação médica doutoral, é passada nos omitindo algo e pondo a culpa das inflamações e coceiras em nós pacientes. Vamos à omissão e à culpa. Num borbulho, comecei a meditar sobre, ao sair da sala médica. Conversando comigo mesmo, dava-me ganas de voltar e dizer ao doutor que ele mentia escondendo algo e, ainda injusto me culpava. E contar a ele que eu tinha provas da mentira na sua omissão doutoral. Criança descalça eu andava por águas sujas e limpas, ora caçando rã ora pescando peixe; as águas limpas não contaminavam, as sujas sim. Então iria lhe dizer, que o doutor sabe como eu, que quem nos infecta são as águas públicas que compramos dos governos, mas o senhor finge não saber, na mentira magistral do silêncio. A companhia de águas públicas nos vende água podre com o nome científico de potável. E este potável, pelo científico enganoso em forte junção com o discurso médico. E assim, para reforçar esse tal discurso médico e dito higiênico, transferem culpas e responsabilidades: a culpa é minha que não enxuguei o pé.

Dando um passo além do nativo da conferência, ele não sabia que além de vendida ela seria também veneno, contaminada; só o cloro já nos mata aos pouquinhos, mas nos mata. Hoje a sujeira do líquido nas torneiras reforça e empurra suas vendas em garrafas minerais nos supermercados, tudo numa negociata só, me brindou alguém raivoso. Em época de pandemia Covid como estamos, não mostram nossas favelas. Na mesma omissão mentirosa lesante dos médicos, as mídias televisivas não filmam, muito menos botam no ar, as torneiras secas dos barracos e casas favelares. Por não terem água, talvez também que não tenha gente por aquelas bocas.

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