Para Gilmar Brunizio

Nunca vi um sociólogo nas prisões. Assim, a solidária presença do magistério escolar vai servindo como tal; único a entrar efetivamente diário nas carceragens e conviver. As aulas funcionam muito e existem antes pela formação do grupo, a aparição de cada um e as trocas. O didático-científico lecionado é quase sempre segundo plano, por vezes a última ou até nenhuma lição. A presença da escola pelo corpo docente reverbera até fora dela pela carceragem,; ainda não estamos de todo sozinhos, sentem as almas presas. E nisso então uma prova perene de que todo coletivo gradeado quer conviver, conversar, se preparar para o almejado retorno.

Para funcionar mesmo fui ficando híbrido, envolvido pelas carceragens bandidas como um autêntico professor mergulhado aqui fora nas comunidades. Nenhum aluno existe sozinho, é uma mala, um pacote cheio de vida. Todos os bandidos iguais a mim foram um dia crianças. Por isso e mais, em todos os determinados momentos tanto fazia sermos criminosos ou não; nunca era esta marca que estava ou estaria em jogo. Só as nossas permanências contavam. Eu mesmo, professor, nem me questionava ou lembrava ali quem eu era; até porque quando inteligente não sabia. Nossos crimes tinham que ser perfeitos, porque a estreiteza fina do destino nos obrigava. E então as relações fluíam só pelas nossas leis, num terceiro campo ou espaço. Sem esquecer o mundo pronto buscávamos outro; as estratégias e práticas nos inventavam. Esta luta, também fora das prisões fervilha nas comunidades favelares. Eu precisava aprender ainda mais nas carceragens, e o medo não me deixou.

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Aqui fora há um mesmo das prisões só que não visto. Em frequência periódica ao grupo da tabacaria, e este me atraindo cada vez mais por suas efervescências de diálogos e gestos, indo do mais frívolo a discussões e descobertas prazerosas e superiores, fui alertado por um advogado e amigo em nossa banca tabaqueira, de que nas academias jurídicas quase ou nada se aprende do social. Ele dizia e sempre diz isto com uma lástima de grande pesar, como o que imprescindível era ter só que não tem. Ora, sabemos por vida que o exercício do Direito, a ação profissional do advogado, é no seio de um social do qual ele mesmo faz parte. Assim, age-se sobre a vida, na vida, negando-se ela ou só fingindo-se vê-la. Descobrimos, e alertei o amigo advogado disso, de que ele é o único que cita e insiste em lembrar sobre o quase nada e a grande falta que a sociologia nos faz. Isto, não só em sérios estudos de natureza acadêmica, como ainda mais e principalmente sociólogos mergulhados no social da própria vida. Notamos que há uma retração por medo, mas bem certo muito mais pela barreira confortável e protetora do diploma, salas abrigadas e desejáveis altos salários. O distanciamento das classes define mais ainda, formatando saberes vistos pelas lentes só dos livros, e ajustando o próprio sociólogo a um quadrado finito, no qual ele é o único habitante. Sociologia sem o social.

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As únicas e parcas presenças, não de sociólogos mas de assistentes sociais testemunhadas, aconteceram numa carceragem quase de forma esporádica. Por duas vezes elas visitaram o coletivo aprisionado, nesse caso o da Penitenciária Elizabeth Sá Rego na qual estávamos, numa forma de excursão em que não conseguimos promover ou presenciar nenhuma aproximação e diálogo, entre os internos e as estudantes acadêmicas. Cada qual dos lados não saiu de suas barreiras protetoras; não houve encontro.

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