Menino eu já levava roubos para casa, geralmente frutas para os nossos famintos estômagos. Uma vez rodei cortando cana no sítio alheio e fiquei por alguns momentos aprisionado pelo vigia; desse mamãe não soube. Quando chegava em casa com laranjas, jaca ou mangas, fazíamos pequenas comemorações de festa, algo estava garantido. Papai e mamãe sabendo ou não sabendo não importavam com nada; pelo menos ninguém perguntava a origem; como também qualquer grande e cabeluda mentira era facilmente aceitável, a vida nos agradecia. Nunca apanhei por roubar comida, a moral caseira nesse ponto não permitia castigos.

Mas nunca fiz tamanho ganho como na história a seguir, narrada por dentro das prisões. Grupo de crianças vagueava por um ermo de morro, havia pasto e descobriram uma novilha. No grupo, eram uns quatro, surgiu a ideia de matar a vaquinha. Armados de porretes começaram a atacá-la; aos poucos quebraram suas pernas pondo-a ao chão; daí até estourarem-lhe os miolos foi só um tempo. Ao trabalho facões e machados repartiram as carnes ainda aos couros. Cada qual levou sua partilha. Chegando eu em casa, disse-me o narrador da história, sabendo minha mãe do enredo aplicou-me violenta surra, que mesmo assim não nos tirou de saborearmos aquelas deliciosas carnes, inclusive quem me batera tanto; que sábia, não deixou perder nada.

Adulto e já em dias de visita prisional, ao me apresentarem uma mãe, em geral parceiro conhecido, eu me indagava silencioso depois sozinho, como aquela mãe digeria tudo. Vivendo em alta necessidade e sendo sustentada pelo ganho salarial do filho no tráfico de drogas. Depois, indo visitá-lo e vendo-o garroteado na prisão, por consequência de necessidade e responsabilidade ao lutar por um sustento familiar. Aonde ficava a cabeça dela, de uma tal mãe, diante da coisa e relembrando sua vida de cuidadora vivida; sua consciência moral nesse embolo.

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