Lavávamos antigos as vasilhas da cozinha e quase tudo no rio; de onde tínhamos as carnes do almoço e da janta em lambaris fritos como torresmos. Mulheres areavam frigideiras sob as solas dos pés e rebolantes, nas areias de suas águas. Não havia nojos; e se tinha eram outros. Das correntezas às bocas as águas corriam soltas sem medos; às vezes ao guardo pelas talhas, moringas, latas e os baldes. E possuíam sabores das areias, dos peixes que nadavam nelas, dos matos e lodos, de coisas gostosas que os nossos olhos nem viam, por diluídas que eram.

Mas a água do mundo mudou. Os banhos, que de bacias em casa ou nas correntezas cheias e remansos naturais sumiram, se evaporaram. Nome de rio foi virando de outra coisa. O de antes tão prazeroso banho de rio mudou-se em nojos de se entrar nele, e de até mesmo se evitar molhar as pontinhas dos pés nas suas águas. Chuveiros confortos trocaram nossos olhares. Chique e rico é quem não se lava mais de bacia ou nas águas naturais e índias. A mesma água do rio mas caneada pelos tubos e caixas, tem gosto de bem estar social e modernidade. A Natureza agora só é bela, vista na higiene da distância de um longe, ou das piscinas azuis. A mata toda também pode morrer, que não nos fará mais falta.

Passamos a ter caixas d’água afogadas nos hipocloritos químicos. Pois as águas correntes vindas dos rios nos infectam de tudo, de muitas mortes e sujeiras inimigas. A depurá-las chegou-nos filtros e mais filtros, de coadores finos e eficazes; a bactéria não pode mais nos alcançar. Beber direto das torneiras é perigoso, o cano cria lodos nojentos. A água que limpa é a mesma que suja; a que sacia a mesma que nos mata. Entre o esgoto e o rio mudamos as fronteiras, e assim as noções de Natureza.

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