Você pode dar positivo para tuberculose, disse-me o médico da carceragem. Mas embora sua vida diária esteja confinada à alta morbidez das grades, por tomar um pouquinho de sol e se alimentar aqui fora, os sintomas da doença não se desenvolvem, completou o doutor buscando me tranquilizar. Convivíamos com o maior índice brasileiro de doenças pulmonares nas prisões do Rio de Janeiro; levando-se em conta ainda por informações médicas precisas, que as prisões são universos intensos e perenes do Bacilo de Koch. A doença é um ponto presente penitenciário, realidade de penitência.

Parei e pensei hoje de manhã: em alta época de Coronavírus, pandemia mundial e já vacinação, ninguém fala nada, um tico que seja, das populações sob as grades de ferro. Sabemos que estão sem visitas por medidas higiênicas de isolamento, mas penso sobretudo nos banhos de sol; que em nossos tempos aconteciam lá só uma vez por semana, o que entendíamos ser muito pouco. Sem ninguém me dizer nada, sei que a superpopulação dos espaços ainda é e configura pela mistura obrigatória e apertada dos corpos, talvez a maior fonte de riscos. A ronda da morte ao redor, como um incessante fantasma penitencia na sombra carcerária. Na retomada da normalidade em pós-pandemia, que medidas profiláticas executarão nas prisões. Pontuo esse dado, por sabermos e termos vivido em imunidades de corpo baixíssimas. Na grande maioria, cada vida de preso se torna uma alta catalisadora de doenças. Das mulheres, ou seja, das populações femininas encarceradas ninguém diz nada, há uma mudez total; sendo isto para nós um dado e reflexo do descaso ao segundo sexo; o segundo já diz tudo.

Eu estou aqui fora, para nunca mais voltar, mas meus pares contínuos vivem, estão lá por aquelas escuras masmorras. Há um silêncio sobre modos e realidades de saneamento básico sobretudo das periferias urbanas, que se conjuga infernal com as prisões; pois favela, pobreza e carceragens são espaços de um mesmo continente, de destinações de vidas.

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