Havia brinquedos para as crianças nos dias das visitas; uma pequena copa com refrescos lhes protegia das sedes; alguém óbvio bem habilitado de nós presos para tomar conta, cuidar. Tudo isso as livrava das chatices costumeiras dos adultos e diluíam possíveis grades; os presos éramos só nós e não elas; portanto não havia por que encarcerá-las também; e não seríamos nós a executar tal ato, hereditarizando por nossos filhos nossas adultas prisões.

Quando cheguei, a princípio fiquei meio que inerte, a bandidar periculosidades; a ver como meus crimes continuariam por dentro daquela carceragem; que por então a ainda antiga Bangu III, depois dividida em duas prisões e socialmente dilacerada. Mas pelo sim da vida, nós todos do crime e encarcerados precisávamos agir, aliás muito agir. Nossas vidas estavam postas no mundo, assim existia um social a ser mantido, recriado continuamente por nossos gestos e olhares. Que civilização é isto, talvez que principalmente, inventar e manter mundos de vida melhores em constante agir. Mas eu bem antes já era criminoso nisto, como o foi entre nós Rogério Lemgruber, o R L junto da nossa sigla vermelha. Assim eu no social necessitava segui-lo, mais ainda, perpetuá-lo em gestos e pensamentos presentes. No alicerce então desse nosso mais social, começamos a nos tratar e a nos vermos pessoas e pessoas, humanos e humanos. E por assim lutarmos contra e destruirmos o conceito social de Estado, de que nunca passávamos de cruéis e vis bandidos do crime dos morros. Que bandidos dos palácios do asfalto, possuem sempre a capa protetora resplandecente em ouro pureza das hipocrisias nobrentes. Mas andemos um pouco mais. Ao me verem agindo por um e pelo social melhor, os órgãos públicos próximos e ligados a mim começaram a me ver bandido; não contavam, que um reles e analfabeto professor usasse dentro do crime armas humanas. Que abraçar amigável um preso, era um tiro de bomba no social perversamente instalado. Criar relações de gente tornou-me bandido e cada vez mais bandido, como eles já das grades; no alto crime inafiançável ditado pelo Estado, de que nunca podemos ser pessoas, no crime e fora dele. Pois tentar ser gente fora dos cânones pré-estabelecidos configura marca de descomunhão, bandidagem criminosa. Mas nós do crime sempre vamos agir, na liberdade de forjar futuros, quaisquer que sejam eles, bandidos ou não. E então eu professor cometia delitos diários dividindo cafés, cigarros e vida, por grades e liberdades de contatos. Virei-me então social criminoso ao gostar e comunhar, num mundo dividido por duras paredes.

Há um falso e por assim criminoso social imposto pela máquina de mundo; a partir e antes do seu próprio conceito, cegando olhares ou enganando, no fundo a mesma coisa. Ele, o conceito social, filho da moral vigente da divisão, do desumano e do escárnio; estes encobertos pela doçura aceitável da propaganda. E então nosso parquinho para as crianças na prisão Bangu III deixou de existir; só durando enquanto tínhamos dinheiro e ele não melindrara a tez maquiada do Estado. Eu no crime cada vez mais me afundei; atravessando paredes e muros do contra-social circulante.

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