Nosso tio falava que andar pelas ruas sem farda era proibido. Dava cadeia ao soldado faltoso. Às manhãs, roupas da soldadesca se metiam na multidão operária aos trabalhos sem peias nem medos. Aos depois foram sumindo. Quem ia ou vinha aos quartéis vestia-se aos disfarces civis. Isto levou tempos a se completar a que ninguém se assustasse, se apercebesse. Estratégias de uma guerra futura já em anúncios. As cores da pátria mudavam de cor.

Carro-anfíbio se pôs ao assalto de guerra no Largo da cidade na Carioca. Mulher de rua viu naquilo uma estranheza. Explodir a quem ali, os prédios? Ela se perguntou. Dei com tropas às ruas, vigiantes. A multidão ordeira por elas só passava. Sentinelas aquarteladas se põem às esquinas, numa certa invasão estrangeira. O inimigo está na miséria. Pontos da cidade são geografias a tomar, a invadir a matar. Vielas e becos escondem inimigos, instrui general-comandante. Todos os ataques de infantaria. Somos o principal. Que as polícias são meros auxílios. A morte e a guerra por aqui são nossas; e normais.

Não sei o que pensam mães dos filhos aos quartéis. Se podem ou não matar parentes e amigos. Se as cores e as ordens valem mais que todas as vidas. Se a pátria dentro delas também já virou inimiga. Se enfim de qual pátria falamos, nas duas que aqui estamos; e somos.

Passageiras diferentes entraram no ônibus à noite, em horas de tarde recolhimentos noturnos, nos corpos cansados que voltavam. Subiram antes com perguntas ao motorista, queriam saber de ondes. Bolsas cheias enormes dificultavam as pernas, causando transtornos e atrasos. As roupas nos diziam algo, melhor, talvez tudo. Aos desarranjos e pesos buscaram lugares e quase sossegou. Pois enquanto todas as outras roupas só voltavam elas ainda iam, em tempos de contratempos. Exageros de botas, brincos e cores, como quase a visar casamentos ou festas, enchiam nossos olhos restantes de um pouco estranhar e algum espanto. Pareciam todas, eram três, aos trâmites de uma longa viagem, mais penosa que longa.

Suas marcas vinham claras bem visíveis, sem amostragens necessárias de papéis. Os rostos diziam afoitezas com com anseios de chegar. Aos poucos fomos por dentro, às aproximações respeitosas de algum dizer, indagar. Para Água Santa*? Perguntei. Houve um segundo de entrave, de segurança ou receio. Não somos polícia, abrandamos. Quem lhes diz foi um simples professor de cadeia. Andamos e vivemos por carceragens a muito, reforçamos aos seguros. Uma das bocas confirmou, visitas de preso. Tão logo trocamos boas-noites pelo ponto que chegava.

Desci do ônibus em jogos de espírito e a sorrir por dentro. Intenso de comunhão aos volteios, pelo visto daquelas senhoras.

Nota do autor: Presídio Ary Franco* em Água Santa, Rio de Janeiro. Popularmente conhecido pelo nome do próprio bairro onde se localiza.

Pós-rebelião aos quase finais de 2003, num coletivo total ao R.D.D.* sem visita, cantina, escola, banho de sol, televisão, puras grades; nós, eu e eles, estávamos bem próximos dos nossos limites. Isso descrito antes, mais trocas abruptas de galerias e alas, a não permitir mínima acomodação e possível sossego dos corpos, em assim constante penitência, pela contraordem nossa de só querermos a liberdade. Nos intervalos das rotinas, a cadeia nos parecia de fora por cansaços de exaustão, feito corpo estendido meio morto. Com parte da guarda fora dos muros em altas distâncias da carceragem, ao medo ou coisa própria dos ares gerais naquele cosmo anômalo, havia um grande abandono pelas muralhas do III. Assim, único de fora a entrar no que guardas chamavam de miolo, a carceragem, buscávamos sem direção fixa um alento, uma saída dos graus intensos de mais repressão pelos quais vivíamos. Que um grande receio de sangue nos pairava por dentro. Ao ímpeto de que o coletivo partisse para o tudo ou para o nada, o matar ou o a morrer, num outro Carandiru.

Naquele dia sem data encontrei os guardas em conciliábulo caroço. Não se sabia como e também não se queria resolver a situação. Que a poeira dos três a quatro dias de refrega da rebelião ainda não havia baixado. E estávamos em época de inscrição aos vestibulares. Havíamos então que pesquisar pelas bocas das galerias e prepará-los, para a seguir inscrevê-los, os presos interessados no exame. Porém os guardas responsáveis pela execução burocrática, recusavam-se a entrar nas alas de acesso sem a companhia e assessoria da segurança da própria cadeia. E eles, os guardas da segurança, opunham-se com um grande não a entrar, a auxiliar nas mencionadas inscrições. Pois que também antes num trabalho prévio, havia que alguém dar a primeira notícia para que ela se infiltrasse pelas pessoas, alertando-as e preparando terreno. Lembrar-nos aqui, que estávamos numa cadeia com presos em R.D.D., e que portanto não sabiam de nada. E esse prévio que era o próprio caroço, como num reconhecimento de guerra. Quem iria à frente, ninguém se adiantava. Num passo dissemos que sim; que mãos professorais executariam o trabalho de alto receio, de negação, puro medo.

Ao bater do cadeado já comigo dentro daquele rejeitado poço escuro, algo me envolveu sem que o corpo percebesse. Intensamente retraído cheguei à primeira boca de galeria. Pouco dizia, tão somente o necessário, mais balbuciava. Mesmo com toda comunhão ao coletivo eu já estava em polvorosa. Lembro agora só de uma cena final, em que meus amigos, justamente os mais queridos, desesperados pediam coisas como cigarros e contatos da rua, seus parentes e auxílios. Logo a seguir dessa cena, meus passos de saída foram de muita pressa, com sentimento mortal de afogamento e mais terror. Os pulmões gritavam pelo que lá não tinham, ar. Aos passos fui perdendo relação com o mundo e a visão sumindo. O caos das galerias colocou-me em ares de ter visto o Inferno. Afoguei numa alta surdez. Correu isto pela alma: por que entrara e não respondia. Guardo um momento já bem distante na praça da Vila Kennedy, olhando só para o chão junto aos pés para orientar-me, dizendo sinceramente para só morrer.

Já em casa, num quarto andar sem elevador, pouco vi e lembro de mim pelos três dias seguintes trancado solitário. Sei vago do alto cuidado de não chegar à janela, num medo e vontade em lutas de me atirar por ela. Recordo leve de um único banho, não sei se falso ou verdadeiro. O que tenho é que não comi. Não vi marcas de coisas usadas. A alma voltou no quarto dia, porque nos três de antes só quis partir do mundo, para nunca mais voltar.

Nota do autor: R.D.D.*, regime disciplinar diferenciado.

A Marielle Franco, em memória.

Os olhos da mulher explodiram ao ouvir-nos. Sua boca começou a balbuciar, a dizer-nos coisas de admiração e agradecimento em suaves doçuras. O impacto se deu por contrameio. Que num instante nosso ela ouvia a voz da favela em corpo de asfalto a pronunciar.

Agora outro mover. Observamos sempre e muito, cabeças cultas ou com um certo letramento, nunca entenderem ou se falarem em incompreensões, o do por que os de fora do crime nos morros não colaboram com as forças e o poder do Estado. Caso isso acontecesse, como nos diz Judith Butler, seria colaborar com e de quem ao contrário temos que nos proteger.

Observamos também que não só nas favelas, mas nosso foco aqui é nelas, há um forte pensamento de vida sempre nascente em jeito de existir, de querer se concretizar, e assim produzir outros mundos, noutros olhares e relações. Quando então uma bala-polícia atinge um corpo no morro, nos longes, nas periferias; mais que matar esse corpo, o alvo maior é fazer recuar e morrer qualquer pensamento livre, brotado e sustentado por cabeças do povo. Matar então é colocar a morte nos corpos vivos, dilacerando a fundo toda e qualquer comunhão verdadeira que possa existir. Principalmente entre quem quase ou nada possui.

Passamos dias terror que nos acertaram sublime. Professoras cúmplices com a Secretaria de Educação, às fofocas tentavam confundir os bandidos. Pondo-nos momentâneo aos olhos deles como grande inimigo traidor. Num arranjo, chegaram a nos acusar frente a numeroso grupo, de total erro nosso pelo não envio das planilhas escolares de comparecimento às aulas, para a seção competente. Ou seja, se eles alunos perdessem dias de remição a culpa seria só do professor, no caso nós. Nisso estávamos com a consciência tranquila, pois era um jogo de descaso alheio mais o emperro da burocracia. Como tudo foi bem armado às surpresas, ficamos com enorme desconforto. Não sabíamos no que daria; e que até poderíamos ser condenado por todo um coletivo de cadeia que tanto amávamos. Porém, nem eu nem as acusadoras percebíamos, de que estávamos frente a frente com saberes. Por tal, certamente enganados por nossos diplomas e sapiências acadêmicas, mais ignorâncias de vida e de classe social. Foi nesse dia de verdadeiro tribunal montado sem que percebêssemos, que ao ver-nos em apuros e cheio de dificuldade para defender-se, nossos grandes e queridos amigos do crime socorreram-nos. A perspicácia deles, mais suas racionalidades, destruíram a farsa montada em manifestações de revolta e visões de acerto, certamente ao que poderia ser mas não foi, nossa expulsão definitiva de Bangu III* e assim de todo o complexo penitenciário. O que afinal, elas professoras acusadoras tanto queriam.

Não satisfeitas ainda, houve uma segunda tentativa das farsantes contra nós. Só que nesta, amigos mais balizados, perguntaram para nós professor qual era nosso objetivo ali. A resposta nunca poderia ser outra: somar; estar junto com eles de mãos dadas. Ao que os responsáveis para desfazer as intrigas disseram-nos em bom tom, que deixássemos, pois eles resolveriam tudo. Num instante logo após, chamadas as professoras intrigantes e acusadoras, as vozes da cadeia pronunciaram-se de que não permitiriam mais nada do que estava ocorrendo de ataques injustos, invejas e ódios naquele meio. Numa ação de justa visão.

Agora a finalizar ou começar, não sei bem. Ainda analfabeto de cadeia e do crime, mente algemada ao mundo de fora chamado de livre, tínhamos a visão de que por lá, naquelas grades e celas que acabei entrando um dia, só encontraria bichos, feras imundas, traidoras e irracionais. Só que já no primeiro contato do primeiro dia encontrei pessoas como nós. Assim, no avanço da vida gradeada construímos amizades calorosas e fieis, rivalizantes com as sublimes daqui de fora. Na lição certamente aristotélica de que amizade nasce de almas e nunca de classes ou lugares. Ainda, mas demorando-nos a perceber, aos vagares e lidares fomos reconhecendo ali, naquela bandidagem toda de crimes, sofrimentos e atribulações profundas, uma outra realidade desconhecida. Colocando nossa vida em consciência, de que lembradas todas as mestrias acadêmicas, só nas cadeias de Gericinó conhecemos carne a carne, alma a alma, a inteligência.

Nota do autor: Bangu III* refere-se à antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves, antes de ser dividida pelos esquemas repressivos do poder estabelecido em duas unidades prisionais.

Almocei mais de uma hora com a mocinha da ótica, no balcão comprando óculos e falando quase só de cadeia, talvez hoje meu prato principal. Nunca vi estas coisas na televisão, disse-me ela num tom de leve espanto, referindo-se aos números e às tragédias. Na hora deveria ter-lhe explicado, o que não fiz e só espero que descubra, que a televisão só mostra a superfície com face de tudo. O mundo é só isso e pronto, prega-nos a telinha. Eu e a mocinha já havíamos palavreado um pouco longamente antes sobre este mesmo assunto, cadeias. Descobri na conversa ao balcão, o quão ela ainda estava distante do assunto ao dizer-me: o senhor já havia me falado disso. E junto da frase agora, mostras de interesse por motivos relacionais, saber mais e conversar prisões.

Numa sessão com debate conheci o cineasta e fotógrafo Depardon. Havíamos, eu e bem numeroso público, acabado de assistir uma fita dele sobre cadeia na França. O documentário não me satisfez embora bom. As cenas mostravam muito pouco. Deixando claro os altos cuidados e reticências de não deixar escapar algo não permitido, coisas que o mundo de fora jamais pode saber. Proibições estas, esmiuçadas depois pelo próprio Depardon, que dificultaram as filmagens, quase ao ponto de desistência total dele. Seguindo o filme. Vimos a hipocrisia natural dos inquisidores de presos nas pessoas de polícias, psicólogos e agentes sociais frente às situações. Como prêmio aos meus olhos, a fita me presenteou com o discurso de uma delinquente, em que ela de forma muito inteligente sabia, como mostrou, mesclar a verdade com doses atenuadoras sem se vitimizar. As falas da mulher deixaram-me visível nas entrelinhas um mais além de tudo que narrava.

Aqui uma outra cena na mesma sessão. Na vez da minha pergunta à mesa dos debatedores, dirigindo-me só ao Depardon, perguntei-lhe se sabia sobre a nossa superpopulação carcerária no Brasil. Enquanto o tradutor lhe transmitia em bom francês o indagado, notei um misto de espanto e atenção na plateia quanto à pergunta, com alguns rostos encarando-me em identificação. Pois que até ali todos falávamos só da França, e aquela preocupação era sobre algo do Brasil. Terminada a tradução e com um instante de reflexão, Depardon respondeu-nos que não, que nunca soubera um grão sobre as cadeias brasileiras.

Agora só cá entre nós. A experiência desse cronista que vos escreve, embora de uma década completa dentro de carceragens de segunda a sexta, é certa que não passou ou viu quase nada. O mundo da informação forma outras cadeias. Assim, com a enormidade continental e diversidades do nosso país, imagino o que se faz e se passa nos sistemas carcerários de distantes estados do litoral brasileiro. E sei mais acertado, que tudo nesse caso de imaginar sobre isto ainda é muito pouco, são miúdas migalhas. O que tenho como grande e quase único sinal agora quando escrevo, é a imagem noturna de uma presa com as tripas pra fora dentro de coletiva cela. Nossos holocaustos são escondidos, e negados por silêncios. O secreto deles lhes dá todas as liberdades e impunidades de existirem, de só continuarem. Que a energia da sanha perversa vem natural dos corações executores. Infernos sem nunca saber porque sem História; em Tempo Satânico mascarado como se não existissem.

Observamos anos recentes grandes manchetes sobre as prisões, os jornais diziam. Percebíamos em expectativas que viria algo ao preparo e não sabíamos o quê; este ingenuamente pensado por positivo. Ou seja, de que haveria um estancar e diminuição dos cárceres nacionais. Mas não, o que estamos constatando é um avanço, pois o início já aconteceu, de uma indústria de entretenimento com foco único nas grades e, claro, todos os que nelas estão. As mídias, as produtoras de imagem e cinema as grandes inventoras; na ordem as abocanhas dos lucros.

Na segunda metade do século XIX, jornais do Rio* já destacavam crônicas sobre crimes e delinquências, com todos os seus componentes. Havia um público numeroso de leitores, a óbvia conclusão que se tem. Nisto, alguém já até nos lembrou, a desgraça alheia é sempre prato saboroso por aqui. Assim por então, voltando ao passado, rastros e obras de estudos criminais eram citados e referidos, as bases científicas da época. Ao que Lombroso em alta, com a certeza dos seus tipos-bandidos.

Já no século XX em nossa hipótese, houve um grande salto a partir do caso “Fera da Penha” nos anos cinquenta. A seguir passando por Tião Medonho, Cara de Cavalo, e chegando a um certo ápice em Lúcio Flávio mais Bandido da luz Vermelha. Na passagem do XX ao XXI retomou-se, já numa fase avançada e firme, com Pixote, Carandiru, Cidade de Deus, Tropa de Elite e seus desdobramentos. Mas nessa fase sim, alcançando bilheterias milionárias e um forte impacto. E este, o impacto, fomentando opiniões, discussões e imaginários úteis ao poder.

Então o mundo das prisões brasileiras, tornou-se um vasto social cobiçado e explorado pelas fábricas do entretenimento nacional e, quem sabe, mundial. Cada preso ou presa e seus familiares, as personagens reais dessa nossa História de Infernos. Mas para tornar tudo tão digerível, as mãos e cabeças idealizadoras põem o invólucro infalível do aceitável. E este com a superfície doce de social humanamente ideologizado. É só pagar e entreter-se. Fim.

Nota do autor: Rio*, Rio de Janeiro, por então capital do Império e depois da República.

Quando a professora pedia tentávamos o aceitável. Mais, aquele que nos desse o melhor elogio com a nota maior. Uma frase bonita vasculhávamos em nossa mente, mexendo com os pauzinhos das lembranças por montagens de palavras e adjetivos doces. Não víamos nada de nós mesmos. Na realidade não nos enxergávamos via papel na tessitura da nossa própria letra. Buscávamos agradar a ela, que nos dirigia e amoldava. Ganhei dez, o sonho de cada infância a levar para casa. Casa que já nos esperava sempre assim, com uma inteligência nota alta.

Ao muito eu nem aparecia por nunca conseguir. A mão não aprendia do começar. Mesmo sugerido o que e como dizer, ficava difícil. A primeira palavra, a frase de início, eram cegueiras totais. A renitência da mão não escrevia, se negava, por mesmo e antes não saber, não enxergar. O permitido estava à frente, condicionante. A cabeça não andava. Começo meio e fim, dizia a mestra e todas as vozes ensinantes. Nada mais. Escrever é dizer o que se pensa, tentem ser verdadeiros. Mas a verdade não era minha, não era a minha. Como então dizê-la. Minha própria cegueira tentava me esclarecer nisto, porém eu ainda não me enxergava. A rejeição teimosa que me blindava do fora, nunca assimilando, me protegia.

Dizer a nossa dor, eis enfim então algo. No passe e repasse da boca e da mente conseguir por saber escolher. O que nunca me disseram como; na imposição sutil do melhor e do mais aprender, mais saber. Assim é que se escreve me dizia alguém, na letra certa do dicionário, na palavra enxuta, por frases certinhas em perfeituras de ligações. Verbos conjunções e afins. Na harmonia das concordâncias úteis, dóceis e submissas. No estranho daquilo que não é meu, porque não sou eu, mentindo-me com a letra que ensinavam-me. Que no discernimento eu nunca a soube elaborar.


Nota do autor: hoje descobri porque alguns nunca aprendem. Talvez nalguma resistência subjacente e ao mesmo tempo visível.

Barulhão de presos invadiu-nos à aula pondo-nos ao alerta. Olhando às grades da janela, no centro de média plateia rala e disfarçada dois discutiam ferozes. Grupo de guardas conversavam próximo, sem intrometer. Aos climas de rinha quase de luta, nas bocas alto volume acontecia, vibrava. Sem nada saber aos quadros e cadernos voltamos. De pouco, num passe, interno-fofoca nos partilhou o segredo. Flagrados pelo marido traído, fornicavam dois, um deles mulher, pelos panos sujos da comarca discreta. Descerraram cortinas aos lados e pimba, entrelaçados num gozo só. “Eu estava precisando,” desculpou-se em ato boca do ativo comedor.

Discussão pública, agora toda a cadeia já sabia. No pátio, frente a frente, os contendores no desacerto de usos e comidas de um corpo só. Posses. O que de um pertencera ao outro, sem empréstimos e aos secretos, nos fluídos incontidos das necessidades. Qual ave perdida, o objeto da disputa ia e vinha sem parar, sem lugar. Nenhum apoio de quem quer que fosse. Ali ele era um tudo e ao mesmo tempo um nada. Porcamente nomeado.

Entramos na tragédia gay. Sem ter mesmo aonde se meter, talvez até sem comarca, o pivô da discórdia vista nos procurou à escola, queria ele muito estudar. Quase nada nos disse ou dizia. Buscava um fio de apoio e de voz. Mas nosso preconceito o repelia, o rejeitava. Nenhuma das sábias mãos assim se projetou. Ele ou ela, iniciei a perguntas em tons de pilhérias; masculino ou feminino, por sarcasmos de falsa dúvida. Rapazinho branco miúdo e indefeso, tudo ali na Educação também o condenava; o evitavam naquele universo machista. Vendo-se assim, levantou e se foi. Sumiu. Para sempre entre grades e dores.

Somos pessoas que estamos lá. Vemos publicadas narrativas e narrativas, histórias e histórias, em torno ou sobre quem está por trás das grades dentro das cadeias brasileiras. Os discursos e os olhares, a atenção e os saberes, aumentam. Mas os presos ainda são neles só eles e, ainda distantes, bem distantes de nós. Literaturas em textos agressivos por tonalidades fortemente exóticas, ou então em graça irônica de quem habita as grades as escolheu por livre e espontânea vontade. Manifestações documentais, porque publicações, só nos objetivos de tão somente vender, faturar; tornando-se ao possível um best-seller de mercado. O preso coisa-imagem de consumo, de alto consumo. Livros por vezes, na face do discurso com forças vendáveis a enternecer e espalhar-se, por tintas finais envolventes de um humanismo enganador de mercadoria falsa. Cada unidade prisional qual fábrica de chocolate amargo, tornado doce comestível aos olhos pelos invólucros que o vendem.

Assim o de hoje ainda é mais profundo, com certeza num amanhã com saudades dele, como nos alertou já um preso. Pois que a dinâmica perversa parece ter pressa, cada vez mais pressa.

Não temos ares e nunca teremos de mexer ou mudar, mesmo que só num grãozito, a predestinação do mundo que somos nós. Não temos as ganâncias de deuses. A conversa simples boca-a-boca tantas vezes nos basta, totalmente nos atém. Desnudar o escondido pelas verdades e muros de fora, para sempre a nossa intenção. Lembro-me incansável, que fugir, libertar-se, é destruir preconceitos e olhares estrábicos. Nesse nosso sincero sobre as realidades intra-muros, colocadas pelos poderes aos secretos, mostrá-las, desanuviá-las pelo menos, para a grande população de fora. Romper o conceito assentado perverso do nome bandido. Ele já a grande prisão, repetimos.

E pensarmos quem sabe cá fora, que não estamos também tão livres assim. Que o de lá foi antes também um de cá. Que um fora maquina industrialmente já e produz o de dentro. E se assim o faz, os componentes de um preso, qualquer um, nascem nos entremeios, furores e dinâmicas da liberdade. Com a legalidade abocanhadora delineando novas delinquências. Notar e saber aqui, que quanto mais leis mais infrações. Quanto mais juízes mais réus. E que no atual progressivo nosso, quanto mais polícias e armas mais mortes. E nessa lógica edifícios jurídicos sobem aos céus, com seus ouros, acumulações e seus muitos dinheiros.