Almocei mais de uma hora com a mocinha da ótica, no balcão comprando óculos e falando quase só de cadeia, talvez hoje meu prato principal. Nunca vi estas coisas na televisão, disse-me ela num tom de leve espanto, referindo-se aos números e às tragédias. Na hora deveria ter-lhe explicado, o que não fiz e só espero que descubra, que a televisão só mostra a superfície com face de tudo. O mundo é só isso e pronto, prega-nos a telinha. Eu e a mocinha já havíamos palavreado um pouco longamente antes sobre este mesmo assunto, cadeias. Descobri na conversa ao balcão, o quão ela ainda estava distante do assunto ao dizer-me: o senhor já havia me falado disso. E junto da frase agora, mostras de interesse por motivos relacionais, saber mais e conversar prisões.

Numa sessão com debate conheci o cineasta e fotógrafo Depardon. Havíamos, eu e bem numeroso público, acabado de assistir uma fita dele sobre cadeia na França. O documentário não me satisfez embora bom. As cenas mostravam muito pouco. Deixando claro os altos cuidados e reticências de não deixar escapar algo não permitido, coisas que o mundo de fora jamais pode saber. Proibições estas, esmiuçadas depois pelo próprio Depardon, que dificultaram as filmagens, quase ao ponto de desistência total dele. Seguindo o filme. Vimos a hipocrisia natural dos inquisidores de presos nas pessoas de polícias, psicólogos e agentes sociais frente às situações. Como prêmio aos meus olhos, a fita me presenteou com o discurso de uma delinquente, em que ela de forma muito inteligente sabia, como mostrou, mesclar a verdade com doses atenuadoras sem se vitimizar. As falas da mulher deixaram-me visível nas entrelinhas um mais além de tudo que narrava.

Aqui uma outra cena na mesma sessão. Na vez da minha pergunta à mesa dos debatedores, dirigindo-me só ao Depardon, perguntei-lhe se sabia sobre a nossa superpopulação carcerária no Brasil. Enquanto o tradutor lhe transmitia em bom francês o indagado, notei um misto de espanto e atenção na plateia quanto à pergunta, com alguns rostos encarando-me em identificação. Pois que até ali todos falávamos só da França, e aquela preocupação era sobre algo do Brasil. Terminada a tradução e com um instante de reflexão, Depardon respondeu-nos que não, que nunca soubera um grão sobre as cadeias brasileiras.

Agora só cá entre nós. A experiência desse cronista que vos escreve, embora de uma década completa dentro de carceragens de segunda a sexta, é certa que não passou ou viu quase nada. O mundo da informação forma outras cadeias. Assim, com a enormidade continental e diversidades do nosso país, imagino o que se faz e se passa nos sistemas carcerários de distantes estados do litoral brasileiro. E sei mais acertado, que tudo nesse caso de imaginar sobre isto ainda é muito pouco, são miúdas migalhas. O que tenho como grande e quase único sinal agora quando escrevo, é a imagem noturna de uma presa com as tripas pra fora dentro de coletiva cela. Nossos holocaustos são escondidos, e negados por silêncios. O secreto deles lhes dá todas as liberdades e impunidades de existirem, de só continuarem. Que a energia da sanha perversa vem natural dos corações executores. Infernos sem nunca saber porque sem História; em Tempo Satânico mascarado como se não existissem.

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