Quando a professora pedia tentávamos o aceitável. Mais, aquele que nos desse o melhor elogio com a nota maior. Uma frase bonita vasculhávamos em nossa mente, mexendo com os pauzinhos das lembranças por montagens de palavras e adjetivos doces. Não víamos nada de nós mesmos. Na realidade não nos enxergávamos via papel na tessitura da nossa própria letra. Buscávamos agradar a ela, que nos dirigia e amoldava. Ganhei dez, o sonho de cada infância a levar para casa. Casa que já nos esperava sempre assim, com uma inteligência nota alta.

Ao muito eu nem aparecia por nunca conseguir. A mão não aprendia do começar. Mesmo sugerido o que e como dizer, ficava difícil. A primeira palavra, a frase de início, eram cegueiras totais. A renitência da mão não escrevia, se negava, por mesmo e antes não saber, não enxergar. O permitido estava à frente, condicionante. A cabeça não andava. Começo meio e fim, dizia a mestra e todas as vozes ensinantes. Nada mais. Escrever é dizer o que se pensa, tentem ser verdadeiros. Mas a verdade não era minha, não era a minha. Como então dizê-la. Minha própria cegueira tentava me esclarecer nisto, porém eu ainda não me enxergava. A rejeição teimosa que me blindava do fora, nunca assimilando, me protegia.

Dizer a nossa dor, eis enfim então algo. No passe e repasse da boca e da mente conseguir por saber escolher. O que nunca me disseram como; na imposição sutil do melhor e do mais aprender, mais saber. Assim é que se escreve me dizia alguém, na letra certa do dicionário, na palavra enxuta, por frases certinhas em perfeituras de ligações. Verbos conjunções e afins. Na harmonia das concordâncias úteis, dóceis e submissas. No estranho daquilo que não é meu, porque não sou eu, mentindo-me com a letra que ensinavam-me. Que no discernimento eu nunca a soube elaborar.


Nota do autor: hoje descobri porque alguns nunca aprendem. Talvez nalguma resistência subjacente e ao mesmo tempo visível.

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