Pós-rebelião aos quase finais de 2003, num coletivo total ao R.D.D.* sem visita, cantina, escola, banho de sol, televisão, puras grades; nós, eu e eles, estávamos bem próximos dos nossos limites. Isso descrito antes, mais trocas abruptas de galerias e alas, a não permitir mínima acomodação e possível sossego dos corpos, em assim constante penitência, pela contraordem nossa de só querermos a liberdade. Nos intervalos das rotinas, a cadeia nos parecia de fora por cansaços de exaustão, feito corpo estendido meio morto. Com parte da guarda fora dos muros em altas distâncias da carceragem, ao medo ou coisa própria dos ares gerais naquele cosmo anômalo, havia um grande abandono pelas muralhas do III. Assim, único de fora a entrar no que guardas chamavam de miolo, a carceragem, buscávamos sem direção fixa um alento, uma saída dos graus intensos de mais repressão pelos quais vivíamos. Que um grande receio de sangue nos pairava por dentro. Ao ímpeto de que o coletivo partisse para o tudo ou para o nada, o matar ou o a morrer, num outro Carandiru.

Naquele dia sem data encontrei os guardas em conciliábulo caroço. Não se sabia como e também não se queria resolver a situação. Que a poeira dos três a quatro dias de refrega da rebelião ainda não havia baixado. E estávamos em época de inscrição aos vestibulares. Havíamos então que pesquisar pelas bocas das galerias e prepará-los, para a seguir inscrevê-los, os presos interessados no exame. Porém os guardas responsáveis pela execução burocrática, recusavam-se a entrar nas alas de acesso sem a companhia e assessoria da segurança da própria cadeia. E eles, os guardas da segurança, opunham-se com um grande não a entrar, a auxiliar nas mencionadas inscrições. Pois que também antes num trabalho prévio, havia que alguém dar a primeira notícia para que ela se infiltrasse pelas pessoas, alertando-as e preparando terreno. Lembrar-nos aqui, que estávamos numa cadeia com presos em R.D.D., e que portanto não sabiam de nada. E esse prévio que era o próprio caroço, como num reconhecimento de guerra. Quem iria à frente, ninguém se adiantava. Num passo dissemos que sim; que mãos professorais executariam o trabalho de alto receio, de negação, puro medo.

Ao bater do cadeado já comigo dentro daquele rejeitado poço escuro, algo me envolveu sem que o corpo percebesse. Intensamente retraído cheguei à primeira boca de galeria. Pouco dizia, tão somente o necessário, mais balbuciava. Mesmo com toda comunhão ao coletivo eu já estava em polvorosa. Lembro agora só de uma cena final, em que meus amigos, justamente os mais queridos, desesperados pediam coisas como cigarros e contatos da rua, seus parentes e auxílios. Logo a seguir dessa cena, meus passos de saída foram de muita pressa, com sentimento mortal de afogamento e mais terror. Os pulmões gritavam pelo que lá não tinham, ar. Aos passos fui perdendo relação com o mundo e a visão sumindo. O caos das galerias colocou-me em ares de ter visto o Inferno. Afoguei numa alta surdez. Correu isto pela alma: por que entrara e não respondia. Guardo um momento já bem distante na praça da Vila Kennedy, olhando só para o chão junto aos pés para orientar-me, dizendo sinceramente para só morrer.

Já em casa, num quarto andar sem elevador, pouco vi e lembro de mim pelos três dias seguintes trancado solitário. Sei vago do alto cuidado de não chegar à janela, num medo e vontade em lutas de me atirar por ela. Recordo leve de um único banho, não sei se falso ou verdadeiro. O que tenho é que não comi. Não vi marcas de coisas usadas. A alma voltou no quarto dia, porque nos três de antes só quis partir do mundo, para nunca mais voltar.

Nota do autor: R.D.D.*, regime disciplinar diferenciado.

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