Passamos dias terror que nos acertaram sublime. Professoras cúmplices com a Secretaria de Educação, às fofocas tentavam confundir os bandidos. Pondo-nos momentâneo aos olhos deles como grande inimigo traidor. Num arranjo, chegaram a nos acusar frente a numeroso grupo, de total erro nosso pelo não envio das planilhas escolares de comparecimento às aulas, para a seção competente. Ou seja, se eles alunos perdessem dias de remição a culpa seria só do professor, no caso nós. Nisso estávamos com a consciência tranquila, pois era um jogo de descaso alheio mais o emperro da burocracia. Como tudo foi bem armado às surpresas, ficamos com enorme desconforto. Não sabíamos no que daria; e que até poderíamos ser condenado por todo um coletivo de cadeia que tanto amávamos. Porém, nem eu nem as acusadoras percebíamos, de que estávamos frente a frente com saberes. Por tal, certamente enganados por nossos diplomas e sapiências acadêmicas, mais ignorâncias de vida e de classe social. Foi nesse dia de verdadeiro tribunal montado sem que percebêssemos, que ao ver-nos em apuros e cheio de dificuldade para defender-se, nossos grandes e queridos amigos do crime socorreram-nos. A perspicácia deles, mais suas racionalidades, destruíram a farsa montada em manifestações de revolta e visões de acerto, certamente ao que poderia ser mas não foi, nossa expulsão definitiva de Bangu III* e assim de todo o complexo penitenciário. O que afinal, elas professoras acusadoras tanto queriam.

Não satisfeitas ainda, houve uma segunda tentativa das farsantes contra nós. Só que nesta, amigos mais balizados, perguntaram para nós professor qual era nosso objetivo ali. A resposta nunca poderia ser outra: somar; estar junto com eles de mãos dadas. Ao que os responsáveis para desfazer as intrigas disseram-nos em bom tom, que deixássemos, pois eles resolveriam tudo. Num instante logo após, chamadas as professoras intrigantes e acusadoras, as vozes da cadeia pronunciaram-se de que não permitiriam mais nada do que estava ocorrendo de ataques injustos, invejas e ódios naquele meio. Numa ação de justa visão.

Agora a finalizar ou começar, não sei bem. Ainda analfabeto de cadeia e do crime, mente algemada ao mundo de fora chamado de livre, tínhamos a visão de que por lá, naquelas grades e celas que acabei entrando um dia, só encontraria bichos, feras imundas, traidoras e irracionais. Só que já no primeiro contato do primeiro dia encontrei pessoas como nós. Assim, no avanço da vida gradeada construímos amizades calorosas e fieis, rivalizantes com as sublimes daqui de fora. Na lição certamente aristotélica de que amizade nasce de almas e nunca de classes ou lugares. Ainda, mas demorando-nos a perceber, aos vagares e lidares fomos reconhecendo ali, naquela bandidagem toda de crimes, sofrimentos e atribulações profundas, uma outra realidade desconhecida. Colocando nossa vida em consciência, de que lembradas todas as mestrias acadêmicas, só nas cadeias de Gericinó conhecemos carne a carne, alma a alma, a inteligência.

Nota do autor: Bangu III* refere-se à antiga Penitenciária Dr. Serrano Neves, antes de ser dividida pelos esquemas repressivos do poder estabelecido em duas unidades prisionais.

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