O Eu Bandido e os Outros Eus

Professor eu bandeava meus eus pelas duas ordens rivais nas grades de Gericinó. Cadeia é lugar de limites; onde o legal e o ilegal se encontram, por vezes se encaram, se lutam. Lá então professor eu tendo que me dizer por duas porções de discurso, duas falas distintas, dois pensamentos. Ambos sempre prontos a agir […]

De Crimes e de Amores

Nunca beijei meu pai. Pois a ordem da igreja dizia não. Meu filho aos doze rejeitou já com ojeriza machista meu colo. Eu quis beijar outro homem. A moral religiosa mostrou-me o inferno no corpo e na alma; jamais se podia pecar. Aos quase cem anos, o corpo cansado já perto da morte de papai […]

Movimentos Internos

Nos corredores e cubículos do III eles sabiam ler. Mas um ler que me abalava; bem fora do eixo professor-aluno que até então meu parco de diploma e de saber lidara. Deciframento com um fugir de liberdade, em sabores de constantes e de prazeres. Olhos que viam. Muito para além da cegueira escolar ensinada. Antes […]

As Bocas da Lei

Não tenho frase de início, ao furo mortal de olhares; jorro, sangue, compreensão. Na cadeia eu ensinava aos meus amigos, fazendo um círculo gigante no quadro-negro e outro miúdo por dentro. O grande, eu lhes dizia, é a violência toda, e o miúdo a do crime penitenciário, juridicamente enquadrado. Com esta explicação eu tentava, e […]

Marias

Elas não têm visitas! Quem vai se importar com alguém, que além de mulher é presa? Uma bandida? Eu gostava de vê-las no solário, algumas coxudas, tomando banho de sol, se preparando para a liberdade. Não sei se o mundo as receberia de volta. Quase todas dadas agora como entulho social. Nem sei também se […]

Existir Por Aqui

Nunca findarei por dizer estas coisas. Um só uma parte. Muitas gargantas nasceram, outras virão. Dentro do meu sangue almas e mortes. Sei que sou eles. Parecem que gritam por mim. Alegres muito alegres descalços, brincávamos. Pipa voada imensidão. Ou roto balão que caía. Alguém de mais velho contava de nós as histórias. Formávamos, ao […]

As Mães

Mãos libertavam e corriam. Mulheres. Grades. A púbis. Vida apontava por ali. Os olhos queriam ver. O ar empestava de surdo, esperante. Mundo de ovo a estourar. Tudo se mexia atônito. Bacias e toalhas. Um nino está por saindo. Cuidar cuidar. As mães-pernas acudiam velozes. A cela estava por perto. Mais que nas mãos levavam […]

Pena de Morte

Me amo ainda menino, descalço e correndo na rua. Nunca estivera com morto sem de caixão. Subi a rua correndo e olhei. Bichos saíam e entravam. Tudo na pele. O ar traiçoeiro não me deixou engolir. Pulmão vomitava por dentro. Porta da cadeia exibia terror. Preso da vila se apodrecera lá dentro. Saí de carreirada […]

Gênese Louca

Roubávamos alheias frutas e não éramos gritados ladrões. Saíamos cedo a ver o que desse ou viesse. Podíamos dar com laranjal maduro ou pequenas preás num canto ermo de mato. Chegávamos ali, naqueles lugares, famintos. As mãos roubavam e caçavam de tudo. Num dia de sorte retornávamos felizes. Ostentando jacas maduras e cheirosas, ou um […]

Paradoxo e Não-Paradoxo

No meu convívio de dez anos de cadeia, lecionando, encontrei muitas vezes mais solidariedade, bondade e verdade dentro do crime do que fora dele. Quando hoje, vejo um ex-interno lutando para sair do crime, não sei se ele está certo ou errado.