Não estamos em guerra, disse-me o amigo advogado e poeta na tabacaria. A frase assim quase solta num final de conversa, me pôs a pensá-la. Primeiro me veio a pergunta: com tantas milhares de mortes estamos em quê. Lembrei também, que a palavra guerra começou a ser brandida por alguns meios públicos e mídia, mas logo depois recuou, num quietismo favorável. Dias passaram, e houve cogito claro para quem matasse polícia fosse julgado por crime hediondo; entenda-se mais anos de prisão para o autor, num real estado de guerra, a exceção. E o quietismo sobre isso aconteceu, se repetiu como o anterior. Nesses dias girava por dentro de mim a questão: o que diferencia a vida de um polícia das demais. Guerra para mim é simplesmente dois lados em combate, como está acontecendo por aqui no Brasil. A ordem na direção dos suspeitos, e executada contra quem já marcados para morrer.

Há um medo medonho no cotidiano dos dias. A multidão, no movimento aparente tranquilo das ruas, corre e arregala os olhos por já qualquer barulho. Inclusive corremos de ações policiais, como se todos de nós fôssemos antecipados malfeitores. Até também porque as polícias atacam qualquer um. A população civil é parte inimiga. Por mais tranquilo, meu corpo está em constante alerta e medo. A qualquer hora um tiro pode matar-me. Uniformes cada vez mais ostentosos e potentes, armas e armas, estão mais e mais nas ruas; a vigiar-nos todos no discurso de “servir e proteger”, em amedrontos de posição e alerta. Um soldado na esquina não é sinal de paz e sim de guerra. Por dias atrás o aço dos tanques ocupou as ruas do Rio de Janeiro, e assim nossas vidas também. Então, pensativo me perguntava, se já não estaríamos nela.

No empaco do não saber, procurei encontrar-me de novo com o amigo poeta. Saber mais firme e esclarecedor com ele, por que não estamos beligerantes, se com tantos muitos milhares já enterrados a tiros, e esse espírito permanente de enfrentamentos. Num momento ele esclareceu-me. Numa guerra ou estado de guerra, tem que haver preceitos jurídicos a balizar o episódio. Tais como, disse-me o poeta, o direito da autoridade violar correspondências sem ordem judicial; o governo decretar estado de guerra, de exceção e mais. Lembro-nos aqui, que a polícia brasileira atirar tendo como horizonte de fundo a realidade das favelas, tornou-se há décadas social e legalmente implantado pelo Estado.

Estamos em qual mundo, me pergunto por dentro, de guerra ou de paz. Todos os dias escuto sirenes de ataque. Pequenos jornais vagabundos já escrevem guerra nas suas manchetes. Vemos, que o nosso conceito jurídico sobre a realidade guerra está ultrapassado, mentiroso. Mais, que sempre num jogo determinista de mundo, o discurso contínuo implante do poder se diz o deus criador de tudo.

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