Do inimigo agora, pelo menso uma vez. Aos já muitos idos em tempos das minhas carceragens mas ainda muito a cumprir, funcionário solicitoso em conversa particular, sabendo-me bandido-escritor pediu umas sinceras linhas; que minha pena escrevesse sobre eles os guardas. Vejo ainda seu rosto, numa certa altivez de olhar mas recuada. Na hora voltei-lhe que um próprio guarda podia fazer isso, contar o prisional sob a ótica da mais repressão. Até eu mesmo desejaria ler, completei, como um outro aprendizado para mim.

A coisa assim maturava na cabeça. Eu a olhar um possível por parte deles; alguma mão sem arma que os escrevesse. Num dia de fala com outro guarda sobre escritos, este mostrou-me, citando frases do livro de registro da prisão, um discurso rico e pobre, analfabeto e tesouro metafórico; que alertou-me como um raro veio de ouro da língua a se descobrir.

Por mais inimigos os olhares se encontravam. Na grade eu via guardas atormentados e sofredores. Alguns deles acompanhados de comprimidos com tarja preta; os mentais de ruim a pior. As vozes não diziam nada. Cada farda prisional com a sua história; com um corpo e alma dentro. Olhando-nos sempre como perigosos e inferiores a vigiar, nunca talvez se vissem. Nem também se perguntavam. Massacrar o quê e para quem. Antes e assim saber dos seus dolores secretos de alma. Os sintomas que podem surgir e surgiam. Gestos eram neuroses. Ouvíamos pelas bocas inimigas consultas e amparos médicos, da cabeça e seus transtornos. Havia por eles um pouco de loucura silenciosa mas gritante. Entre o a cumprir de um outro para outro existe também um corpo, uma vida. E neste corpo do meio cresciam dores, ulcerações e tormentos. O impulso e o aguilhão da ordem passam também por mim, o guarda, ao executá-los no preso.

Na liberdade passei a ver os polícias inimigos com dois olhares. Primeiro o do obstáculo a destruir; segundo, com humanismo de minha parte, de que por baixo dos panos e armas se mexe também alguém. Num mirar meu a uma polícia loura, achando-a bonita e carnuda suculenta, ao sentir-se observada, mesmo armada e com outros de farda, retraiu-se amedrontada, confundindo um olhar de galanteio e paquera com o do inimigo. Em várias grandes fotos de jornais, dá pra ver como certos olhares polícias, antes mais do que com medo estão aterrorizados; revelando camadas mais profundas de si. Num barbeiro de rua, ao cuidar-me, descobri-o aos poucos ali em serviço de bico; ele também era polícia fora a tesoura. Pelos cortes mensais e máquinas houve nossos aproximos. E ele não me sabia bandido. Num dia de corte senti-o em conflitos mentais. Homem novo, clarificava mórbidos desconcertos de gestos em inseguranças absurdas. Estas sem causas aparentes, tiradas de pequenos incompreensíveis. Num adiante de dias em novo corte de cabelo, notei-o inquieto e mirando como que um invisível. Ao baixinho começou a perguntar-me em inferno compartilhado, do por que matava, por que tinha que matar. Ele assim num universo julgado louco. Sabemos que não está só. O campo da loucura e do suicídio aumentam muito pelas fardas de polícias; silenciados pela ordem do poder nos jornais.

Para nos encerrarmos nesta crônica mas ao inverso abrir-nos, vejamos que cada corpo de farda tem mulher e filhos. Possui porque está dentro de uma família. Circula e faz parte de um cosmo particular coletivo, ele e os outros. Sabemos de histórias de polícias já tão inseguros, que não podem ficar mais em casa sozinhos, mesmo que ao dia claro. Que até a companhia de uma criança os ameniza do medo, numa certa insensatez meio louca. Uma Bíblia aberta funciona como colete de proteção aos tiros. Por outra, tivemos um polícia vizinho tão doidão, que todos ao redor em nossas casas tínhamos profundo medo. Bailes loucos, armas, vozes brabas, muita droga e nudez. Pelo que víamos, ele não passava de um ápice no seu grupo de farda ao redor, com os outros em ascendentes.

Ao tocar nesse assunto mesmo que assim, não sabemos quase de nada. O mundo dos entrelaces dos corpos é misterioso infinito. Penso nos medos de uma mulher, diante das armas e gestos já irracionais do seu marido polícia; nas loucuras de mais repressão caseiras; e nas energias mórbidas sobre os filhos. Ainda, a falta na cama de um homem antes viril e agora morto, daquilo que sua mulher tanto deseja. Um campo de batalha e dor quase invisível, silenciado. Encoberto grandioso depois pela bandeira nacional sobre um caixão herói, tiros de glória e muitas trombetas.

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