Vivo num certo desconhecido transformado em indagação. Quantos escrevem ou não comigo sobre prisões no Brasil. Não pergunto aqui sobre os escritos, as publicações, midiáticas ou não, quase ou sempre numa forma de saber acadêmico. Mas, saber de algum preso que se contou ou se conta depois. Alguém que experienciou e descreveu o vivido; bandido-escritor ou escritor-bandido, tanto faz. Prefiro ser aquele do que este, é mais periculoso. Neste antes e aqui descrito, não um preso que se vê exótico de si mesmo, mas uma pessoa que se sente e se conta pessoa. Sigo aqui uma linha de Edward Said.

Afinal, me pergunto novamente em termos de Brasil, se existe mais alguém neste assunto como este que lhes escreve. Talvez haja uma separação mordaz, plena, tornada silêncio; assim como dois presos que não podem conversar, mesmo estando em celas vizinhas. Porém, mesmo tendo ou não mais alguém conosco, o capital seja que nunca possamos saber. Pois mesmo até a constatação negativa é indesejável, proibida. O grande perigo para a ordem do poder não é o negativo, que este é otimista; mas o saber, a própria constatação de. Devo estar numa solitária como um chefão do tráfico. Sabem de mim mas não podem me ler, me escutar, impedidos pelas muralhas de mundo. Num território chamado de nacional que nos separa e nos prende.

Mas além do já descrito penso no fator histórico; melhor, em nossa história, esta cheia de silêncios. Sartre já nos disse, que o silêncio sempre acompanha, está junto da violência permanente de Estado como a nossa; refiro-me ao Brasil, como a seus iguais também. Só agora me constato, por que vários presos gravam sua marca num riscado qualquer de parede, pelas celas ou cubículos por onde passaram ou passam. Então, este conjunto de crônicas busca ser um riscado desses; para não silenciarem depois que nem existimos.

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Ao terminar esta crônica, lembrei nitidamente da chamada Caverna das Mãos na Argentina; estivemos aqui.

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