“Sabem como elas se protegem do corrimento menstrual irmãos? Com miolo de pão amassado pelas próprias mãos em forma de lenços.” Do púlpito sagrado, retinha ele fiéis todos os ouvidos da igreja; pregava referindo-se às mulheres encarceradas o pastor. Nesse tom exótico de discurso, me disse meu irmão o que seu condutor espiritual transmitiu, no ritual eterno das louvações.

Agora escrevendo esta crônica, lembro do “Homem Elefante”, o filme; de como os ingleses enjaulavam pessoas diferentes, e assim objetos de atração e divertimento nos circos. Como penso hoje nas bocas gradeadas das nossas celas prisionais, com mãos e pernas para fora, de que também ali estão animais quaisquer. Na passagem das alas nas carceragens, havia sempre um ar perigoso e atrativo de circo, de matadouro; com jaulas gigantes ou gaiolas lotadas de coisas misturadas; até mesmo de selvagens perigosos. Cada prisão é um território de marca; quem está ali perdeu a imagem de gente; se não até já bem antes.

Na hora em que eu e meu irmão conversávamos sobre presos e pregações, objetei-lhe que as pessoas falam, mas que nunca entraram numa cela ou galeria. Não só entrando mas convivendo com as pessoas, os grupos e as populações. Falam sempre de fora mas com ares profundos e verdadeiros de dentro; mentem. Ainda, como se tivessem estado num zoológico, com todas as suas auras de higiene e proteção de pele, que os sabões da moral burguesa possam lhes dar. Alguns visitantes estranhos, entram até em alas de acesso ou pavilhões internos meio públicos, mas numa certa inversão de gestos escondendo rostos, com medo de serem reconhecidos cá fora no mundo livre; onde se descobre estar cheio de tabiques de separações.

Vivi e convivi dentro das prisões, fiz amigos e grandes amigos, tenho enorme saudade daquelas pessoas que comigo formávamos mundos, profundos e humanos. Então fui e ainda sou um intenso exótico assim como eles, que enjaulados estão. Ao escrever estou dentro das grades, sem sombra de sabermos se iremos sair.

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