Depois de solto das prisões, em regime semiaberto da aposentadoria, houve vários convites firmes, alegres mas ingênuos, de que eu voltasse a comparecer nas escolas penitenciárias. Os objetivos, oferecidos e propostos por diretores de escolas, seriam que realizássemos palestras para os alunos-bandidos, expondo as nossas experiências vividas nas prisões durante anos, e apontando talvez possíveis caminhos. O que, em certo tempo muito me animou. Realizaria um retorno, mesmo que esporádico, mataria saudades e, mais que tudo, haveria encontros.

Usei a palavra ingênuo no parágrafo anterior não à toa. Sabia que no fundo nunca mais poderia voltar, eu me tornara um bandido. Nossa relação de fora para dentro das grades, acontecia às vezes não amistosa mas sempre profundamente humana. Os abraços eram iguais, as cumplicidades também. Como já mencionado, nós confiantes tirávamos as nossas máscaras: eu a minha de professor e eles a de bandido; duas máscaras.

Rolávamos assim mais bandidos sendo somente pessoas, em nossos naturais queridos. Muito tudo me balançou. Até agora dois conceitos continuam por mim em suspenso: o que é ser bandido e o que é ser pessoa. Isto, claro, para além ou fora de todo o discurso hipócrita social implantado. As coisas me balançam no convívio.

Voltamos à ingenuidade mencionada. Por ser o que fui nas prisões e o que agora sou, quase tudo aprendido e descoberto dentro das carceragens de Gericinó no Rio de Janeiro, sabíamos como sabemos hoje mais periculoso, que os órgãos de governo não permitiriam mais meu retorno, eu me tornara também um bandido como eles das prisões. Virei bandido porque enganava o sistema social, mascarando um sendo outro. Na verdade, busquei o tempo todo descobrir o bandido; onde ele está, se dentro ou fora das grades, e quem realmente é ele. E nisto, desde o meu início no convívio prisional, passei por provas e transformações profundas. Até chegar nesse momento de vida em que agora penso e escrevo.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *