Para Deleuze e Guattari

“Você não sabe a merda que é!” Disse o homem à mulher, juntos à caixa na saída do restaurante. Referia-se ele quase à discussão, às invasões violentas e criminosas da polícia aos barracos e casas faveladas. Houve menção do governador Brizola, e sua proibição das polícias em incursões de guerra nos morros cariocas. O combate, pois era um combate entre os dois, silenciou pela máquina dinâmica do dia, eles conversadores tinham que trabalhar.

Cada morador tem medo, muito medo; ou ódio, muito ódio; ou os dois juntos. Mesmo no sono profundo pode não haver tranquilidade. A qualquer hora podem invadir e quebrar, embrutecer, apontar arma com direito total de atirar, matar. Meu quarto de dormir não é meu quarto, minha sala também. São do uniforme truculento e assassino do poder. Na hora da quebra de portas, o que podemos fazer é só olhar. Tiros podem sair a qualquer momento, matando de nós qualquer um. Quem passou passou, quem morreu morreu. Todos os ratos do morro são suspeitos. Sim, porque todos nós somos ratos. As crianças ratinhos já do mal, e os velhos ratazanas velhas. O governador pede desculpas públicas antecipadas, para os fuzilamentos futuros planejados a esmo. Acho que os ratos de esgoto não têm a mesma sorte que nós, a de morrer pelos seus pares desumanos.

Na vida – isso é vida? -, não temos verdadeiro o que é nosso; nosso quarto, nosso território. Não somos assim um Eu; já que todas as vidas da natureza, das mais simples às complexas, só vivem porque incrustadas nos seus territórios; do caranguejo eremita a um felino selvagem. Não ter território é não existir, uma cambaxirra sabe disso.

Todos nós do morro vivemos pelo milagre teimoso da vida. Meu território-casa que amo tanto, pelo sujo e marcas dos meus pés, meu umbilical com ele pode ser rompido, arrebentado, na ordem arremessada contra mim de morar mal e suspeito. Todas as tocas escondem o ruim, que somos nós mesmos não-pessoas.

Mais que tudo, mais e bem mais, é o cosmo constantemente implantado. Somos o que não somos e não temos, porque nunca teremos, para onde ser. Vivo num saber de não ser porque nunca ser. Como um animal em caçada, minha casa-toca tem a lei da natureza de ser invadida. E eu morto quando quiserem.

0 respostas

Deixe uma resposta

Want to join the discussion?
Feel free to contribute!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *