Entries by Abel Matos

Minas de Sangue – Ou as Atuais Senzalas Brasileiras

Dedicado a mim mesmo e aos meus amigos do crime. Consideramos o adjetivo favelado o mais denegridor e aviltante que a cidade possui. No entanto a mais rica e numerosa força de trabalho, sai diariamente da fonte chamada de favela. Passamos a dizer algumas particularidades dessa força de trabalho que observamos. O grande, médio e […]

Letras Analfabetas – Ou a Continuação da República Inacabada

Meus amigos são do crime como eu, na igualdade. Antes de me enfiar por estes nanicos textos, contei enorme uma república. Num relâmpago derramei rabiscos por dois cadernos escolares primários. Logo sairiam em livro meu sonho me ditava. A república ficou no meio, ao pedaço, inacabada. Não por falta de enganoso ânimo, pois tentei terminar […]

As Filas

Quando me perguntam: por que estamos assim? Por que ficamos assim? Nestes escritos, talvez muito distante, eu tento responder. Ainda eu criança e descalço no morro, bastava um polícia para pegar alguém. Mas eu amedrontado já o via inimigo, como grande inimigo. Meu pequeno corpo se retraía, conforme já num combate. Não existia a frase […]

Tornozeleiras*

Num tempo totalmente sem fome não haveria prisão. Passei a olhar canelas de mulheres e homens do povo procurando. Como se algo que talvez estivesse nelas me torturasse também. Quando saí das grades prisionais elas ainda não haviam por aqui. Mas já se tagarelava delas, certamente a preparar o terreno como sempre se faz. Penso […]

O Pão Nosso de Cada Dia – Ou Uma Segunda Condenação

Pequenas multidões mas cada vez mais numerosas aparecem localizadas no Centro do Rio de Janeiro. Aguardam famintas o que eles moradores de rua chamam de carreata; carros com os porta-malas cheios de quentinhas com almoço ou janta para suas bocas. A fome está cada vez mais aumentando, ou seja os sem comida. Uma noite de […]

Favelaria

O mais lancinante xingamento, com carga de funda condenação. Nos idos da nossa distante pequenez de menino, ainda não nos doía tanto, mas já nos gritava a que veio. Na gramática estão o substantivo e o adjetivo, que certas bocas evitam dizê-los; claro, no dizer dos que estão sob seus significados. Raias do Inferno da […]

Minha Vida no Crime – Num Ensaio Cada Vez Mais Miúdo

Por condição ou estado, no normal só enxergamos o normal. Se o dicionário é dicionarizante, o normal é normalizante. Depois de vinte e um anos nele, penso estar periculoso; aquele que faz. O que antes não sabia realizar, além de hoje saber já um pouco, vozes alheias me dizem estar cada vez melhor; talvez em […]

Comando Vermelho na Tabacaria

Falamos dos astros, da metafísica do dia, mas sobretudo falamos das nossas mentiras. Quando alguém novato pergunta, dizemos que não temos tempo marcado, é nos dias e horas afins das nossas almas. O grupo borbulha na alquimia dos encontros. Por vezes, nos vemos como meninos felizes e interessantes, brigando cada um por seu quinhão de […]

Falas Mudas e Bocas Também

Falamos e escrevemos com o objetivo de tiros mortais contra o inimigo. Antes, bem antes de entrar para o crime, eu já estava nele, embora ainda sem talvez saber atirar. Todas as falas legais ou da lei descrevendo o interior das carceragens, sabíamos que mentiam. Isto por um simples fato, quem fala só de fora […]

Letras Primárias

Comecei no crime dentro da penitenciária Doutor Serrano Neves, antiga Bangu III, em 2002. Nossa primeira fala teve a revisão prestimosa e atenta de uma carceragem humana e penitenciária, a de Bangu III. Assim então uma ação artística e de saber bandida. Há um relato a seguir. Dizer que foi e houve uma revisão é […]