
O mais lancinante xingamento, com carga de funda condenação. Nos idos da nossa distante pequenez de menino, ainda não nos doía tanto, mas já nos gritava a que veio. Na gramática estão o substantivo e o adjetivo, que certas bocas evitam dizê-los; claro, no dizer dos que estão sob seus significados. Raias do Inferno da Divina Comédia. Interesses tentam adoçá-lo, o substantivo favela, torná-lo aceitável para transformá-lo em dinheiro, lucro. O mais dizente de tudo é quando o evitam na frase, trocando-o por morro, comunidade ou substitutos de momento. Toda realidade bagunçada, desarranjada, meia que lixo, leva o mesmo nome, favela. O gesto de não dizê-lo, o nome favela, pondo na frase outro termo no seu lugar, gera uma ausência sempre notada, em desarranjo. Não há um encaixe perfeito, pois os outros termos se recusam a representá-lo; como um irmão rejeitado maldito de toda a língua, de toda fala possível, assim sem sinonímia. Quem num momento é chamado de tal coisa, agora o adjetivo favelado, recebe os epítetos de suspeito, mora mal, amigo de bandidos, inferior, ficando ao nível de um subsocial. Os nomes de lugares salvam, ou podem condenar também: Providência, Jacaré, Muquiço, Adeus e todos os demais. O adjetivo favelado circula maldoso, ofensivo, como um tiro a ser evitado entre os que o pronunciam. Você é de lá, então você é isto, esse adjetivo sujo gritante, vírus da língua, na língua; sempre pronto a atingir ouvidos, a fazer sofrer, a diminuir quem se pensa igual, ao que ama no anonimato da população ser reconhecido cidadão mas não é. Porque num instante favelado pode ser o seu nome, seu chão; ou pior, na penumbra de um xingamento de odioso olhar; ainda, num certo evitar de andar em companhia dele. Pois quem com ele está é do mesmo balaio, assim da mesma laia do favelado. A língua do dicionário se recusa também a mostrá-lo, no seu existir e agir no torturamento do social.



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