
Por condição ou estado, no normal só enxergamos o normal.
Se o dicionário é dicionarizante, o normal é normalizante.
Depois de vinte e um anos nele, penso estar periculoso; aquele que faz. O que antes não sabia realizar, além de hoje saber já um pouco, vozes alheias me dizem estar cada vez melhor; talvez em ações de trabalho mais ricas, com maior valor. O crime me compensa. Antes de entrar nele ou ser um criminoso audaz, algo poderoso me algemava as mãos, e meus olhos não enxergavam, não sabiam ver. Assim, ao entrar numa muralha, a cadeia, eu saía de outra, esta verdadeira que me aprisionava, na qual me sentia livre. Para viver na liberdade tive que entrar numa prisão; como um médico que só sabe da saúde pela doença, do normal pelo patológico. E este patológico pode estar no lugar mais inesperado. Então pus-me a escrever e a pensar. Hoje eu me pergunto ainda, por que só no crime pude me tornar escritor; e nunca antes de entrar no dito mal, este aonde estou.
No anterior à muralha, vivo aqui fora eu já era um morto. Vivendo, quem me existia no corpo era a morte, a morte do dito normal. Não procurei nem procuro perguntas e respostas fáceis, os chavões de sempre. Nem almejo aonde as vistas não possam alcançar. Busco sempre, ver cada vez melhor o que a retina focaliza, e no oportuno dizê-lo. Até minha estrutura sentimental, as paixões, teve que ser revista em continuum; nunca serei uma coisa pronta ou semipronta. Porque só ao sair daqui de fora e entrar na primeira muralha, descobri que aqui fora, na liberdade, eu não estava nem era livre. Minha mão, que antes não sabia, começou quase de imediato a escrever. E junto com o desejo da letra a busca de pensamentos.



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