
Num tempo totalmente sem fome não haveria prisão.
Passei a olhar canelas de mulheres e homens do povo procurando. Como se algo que talvez estivesse nelas me torturasse também. Quando saí das grades prisionais elas ainda não haviam por aqui. Mas já se tagarelava delas, certamente a preparar o terreno como sempre se faz. Penso num animal cachorro ou cavalo, com um objeto grudado no corpo a incomodá-lo, a amordaçá-lo. Diante de um não saber eu me sentia inseguro num certo medo; de que caso voltasse de onde vim, sairia inevitável com uma. E assim como seria, como me viveria, como me sentiria com aquilo quase no pé; a apertar-me o sentido, a percepção. Num andar, num caminhar coleirado, encabrestado, feito cavalo, jumento ou um reles cachorro mesmo de estimação. Nasci e sou livre, meu Espírito me diz e me É. Para torturar e escravizar o homem inventa amarras; a mais antiga e dura sendo a fome. Mas eu tinha medo daquele objeto na perna esquerda. Enfim como seria caso eu voltasse a puxar uma outra cadeia; amarrado por aquilo, aquele torniquete atroz; que ao invés de ser levado por mim, como se pensa, eu é que sou levado por ele, por um sistema que nos controla, aqui pode aqui não, feito cachorro em corrente curta. Não nasci irracional.
Tudo enfim que eu procurava fora das canelas, me veio de repente por manchete de jornal: em número crescente os apenados conseguimos nos livrar dela; ou seja, arrebentando a coleira e fugindo. Na hora da leitura, imaginei uma torquês gigante de alta pressão; mas pode ser uma outra ferramenta capaz ou mecanismo. No impacto da notícia, foi quase como se arrancassem uma de mim, da minha canela ex-presidiária. Cada um que a possui, que é vigiado e amarrado por uma delas, recebe olhares e tratamentos desiguais; é um diferenciado pela lei, então leva nomes secretos e tais de quem o vê. Antes dela ser implantada no sistema penal brasileiro, orientou-se toda a população para modos negativos de ver quem está com ela na canela; ou só se fomentou o que já existia no social antes.
Nota:
Tornozeleira, equipamento em forma de pulseira larga e com GPS, afixado por sistema de segurança, geralmente no tornozelo esquerdo do apenado.



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