Entries by Abel Matos

Aos Sonhos e às Fumaças

A favela é uma outra cidade. Em dez anos de prisão, só uma vez gostosa dose de uísque atravessou minha garganta. Éramos em tempos bons, apesar das torturantes grades. Nunca fumei nem cheirei, a não ser uns vagabundos cigarros de tabaco. Hoje, trabalhador aposentado e bandido em horário integral até dormindo, frequento uma tabacaria sorvendo […]

Prefácio de Todas as Linhas; de Ataques, de Letras

Aprendi a atirar com Voltaire, com Marcuse, e com Adorno; a facção Comando Vermelho veio depois, como grande grupo organizado e seguro de guerra. Eu e meus amigos do crime. Me queriam numa boca de fumo* ou quem sabe gerenciando fuzis. Logo de cara viram que eu sabia já um pouco atirar, que não perdia […]

Medalhas de Ouro do Brasil

Hoje só tem negão nas gavetas do instituto público de cadáveres, me dizia o maquiador de corpos. Se a prisão é negra em metáfora e não-metáfora, os pontos pretos são os mais atingidos pela nossa polícia campeã. Isto sempre foi banal desde o início, e continuará sendo; inclusive também dizê-lo. Banal aqui é ser e […]

No Jogo da Amarelinha

Grossas muralhas nos separaram a anos: as sociais e as das prisões. Nas terras inimigas comecei a ter um vazio de ser, parecia que eu não era mais vermelho. O desarranjo e o não importar com o social como nós, mais a sujeira fedorenta das coisas, me deixou num ponto cego, tudo zerava de vez. […]

Carta a Uma Facção, Endereçada aos Corpos Vivos Que Amam

Outubro de 23. Jamais eu saberia, naquela tarde de vinte e um anos atrás, que estaríamos para sempre juntos. Ao colocar meus pés na carceragem de Bangu III* hoje tão remota, que, confesso, ao ver a enorme penumbra da ala com meus futuros e sinceros parceiros de vida, algumas goteiras, mais as assustadoras grades, meu […]

Não Somos Objetos Sem Vida

A Vida me quis e me fez trabalhador-bandido, num mundo de alta carceragem. Se meus pés ainda voltarem para a prisão, visarei somente uma coisa: nos organizarmos cada vez mais. Antes e tudo somarmos sempre nossas forças dentro das grades. Ao ponto de guardas temerem alas e celas muito silenciosas, como se nelas estivessem felinos […]

Inteligências Marcadas para Morrer

Meu coração é vermelho, meu sangue também; quem sabe também a minh’alma. Nietzsche me disse, que o Estado é o mais frio de todos os monstros frios. Conheci cabeças pensantes fora da prisão e dentro dela. Mas só nas grades convivendo com alguns, que nos guiavam como luzes pelos intrincamentos da vida, percebi na alma […]

Livres Mas Não Tão Livres

Deu no jornal e eu não soube: vinte e um mil presos foram soltos no Brasil, numa leva só. Embora seja e tenha sido algo de avanço, não toca num ponto central, que seria buscar responder à seguinte pergunta: por que encarceramos tanto; que social é este, que destina cada vez mais sua juventude, sua […]

O Eu Persona

Madame Bovary sou eu. ( Gustave Flaubert, diante do juiz que o indagava ). Meu personagem é um bandido e ex-presidiário. E ao pronunciar o possessivo “meu”, que é um sou eu, estou mais do que dizendo, mostrando a mim e ao mundo um quem. Estamos aqui com o problema de saber afinal quem é […]

Da Condenação Num Corpo de Mulher

Não há nada mais grandioso nesse mundo e fora dele do que a Vida, e mais ninguém. Distraído e bem próximo do Teatro Municipal*, sinto um corpo gracioso moreno passar por mim; impecável no modo de andar e de vestir. A bolsa, delicada ao ombro pendurada, acentuava ainda mais a graça que desfilava. Sim, porque […]